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Cadernos de História da Ciência

Print version ISSN 1809-7634

Cad. hist. ciênc. vol.2 no.1 São Paulo  2006

 

SÉRIE ICONOGRAFIA

 

Memória iconográfica do Instituto Butantan. O acervo Gastão Rosenfeld1

 

 

Fan Hui Wen; Aline Solosando; Suzana Cesar Gouveia Fernandes; Marcella Faria; Nelson Ibañez; Osvaldo Augusto Sant'Anna

Laboratório Especial de História da Ciência - Instituto Butantan

 

 

No campo da História, a fotografia deixou de ser um mero instrumento ilustrativo da pesquisa para assumir o status de documento e matéria-prima na produção de conhecimento (Cueto, 1999). Ainda que se mantenha como fundamental a crítica das fontes documentais escritas e que a utilização de fontes visuais seja incipiente, cada vez mais a fotografia demonstra que pode fornecer dados que os documentos textuais não registram (Lacerda & Bandeira de Mello, 2003). Além disso, a compreensão da fotografia como forma de representação abre inúmeras possibilidades de análise de processos históricos associados à construção da imagem. Essas novas abordagens valorizam duplamente a fotografia, porque dão ênfase não somente a temas que nela aparecem retratados, mas à forma como esses temas são constituídos e o papel do autor que criou tais imagens (Mauad, 1996). Não é por acaso que o incremento na organização de documentos fotográficos institucionais aconteceu concomitantemente ao crescimento do uso da fotografia como fonte para a pesquisa (Velloso & Gitirana, 2001).

Perceber as imagens em seus mecanismos de representação, com uma linguagem específica, de acordo com sua própria lógica interna, implica em considerar as coleções fotográficas como documentos históricos legítimos. Os estudos de coleções iconográficas, vistos nesta perspectiva, não podem ser encarados como apêndices de atividades outras, mas são, em sua essência, carregadas de informações históricas. Com isso, não queremos infringir às coleções fotográficas um isolamento obrigatório e desnecessário; pelo contrário, entendemos que a integração das diversas fontes disponíveis valoriza a pesquisa em história da ciência, desde que respeitadas as particularidades e natureza das coleções em questão.

Nesse processo de valorização, a preservação de coleções fotográficas tem merecido cada vez mais atenção. A ampliação do universo documental fotográfico é contínua e hoje se presencia a inserção dos processos digitais e novas tecnologias de imagem que, em pouco tempo, estarão sendo guardados como documentos históricos e/ou utilizados para guarda dos próprios documentos. De encontro a essa tendência, o Laboratório Especial de História da Ciência do Instituto Butantan iniciou o trabalho de recuperação e catalogação das diversas coleções iconográficas existentes, a começar pelo acervo fotográfico do médico Gastão Rosenfeld, centrada em imagens de pacientes acidentados e em experimentos realizados a partir da observação clínica. Muitas outras imagens - animais, cotidiano dos laboratórios, edificações, eventos e personalidades - compõem o acervo e devem ser objeto de recuperação e análise em etapa futura.

 

O autor das imagens: Gastão Rosenfeld

De ascendência húngara, Gastão Rosenfeld nasceu em 26 de julho de 1912, veio para o Brasil em 1913, formando-se médico em 1938. Desde 1932, passou a se dedicar à Hematologia. Seus trabalhos no Instituto Butantan tiveram início em 1945, a convite do Prof. Otto Guilherme Bier (então diretor do Instituto), organizando e chefiando o Laboratório de Hematologia, sendo responsável pela área de Hematologia Experimental. Transferido em 1947, retornou ao Instituto em 1951 e, em 1954, assumiu como médico-chefe do Hospital Vital Brazil, onde exerceu o cargo até 1966.

Desde que assumiu a direção da unidade de atendimento aos acidentados por animais peçonhentos, Gastão Rosenfeld preocupou-se com a falta de conhecimentos dos médicos. A criação de um serviço de atendimento especializado favoreceu observações sistemáticas de pacientes e disso resultaram novos conhecimentos sobre sintomatologia e terapêutica dos envenenamentos animais; além disso, a observação de certos sintomas e problemas terapêuticos impulsionou a realização de grande número de estudos de laboratório. A partir de sua experiência no campo da Hematologia, publicou dezenas de trabalhos sobre a fisiopatologia dos envenenamentos ofídicos em animais de experimentação, transportando esse conhecimento para a área clínica.

Produzidos e arquivados em série, os registros fotográficos atestam a evolução dos conhecimentos, ainda que situados em um determinado período e necessitando uma contextualização nas práticas médicas vigentes na época, levando-se em conta o caráter fragmentado que um arquivo apresenta intrinsecamente. Este foi produzido e acumulado como resultado natural de uma função exercida por Rosenfeld. No processo de arquivamento, provavelmente escolhas foram realizadas e, mesmo que o caráter serial de um arquivo seja um elemento importante que lhe confira organicidade pela ligação entre as partes, trata-se de um conjunto que apresenta lacunas e que precisa ser assim analisado.

 

As imagens dos envenenamentos por animais peçonhentos

O acervo foi catalogado de acordo com a natureza da imagem registrada. Assim, foram selecionadas aquelas obtidas de pacientes [ou seus fluidos biológicos] tratados no Hospital Vital Brazil. Obteve-se um total de 223 [duzentas e vinte e três] imagens, armazenadas em três caixas metálicas. O material foi submetido a limpeza mecânica para remoção de sujidades, catalogado e digitalizado (Filippi et al., 2002).

Uma relação manuscrita pelo próprio pesquisador, contendo dados sobre os registros, revelou a preferência pela documentação de lesões decorrentes de acidentes botrópicos2 (figuras 1 a 4), enquanto que poucos acidentes crotálicos3 (figura 5) e elapídicos4 (figura 6) foram registrados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sua preocupação com educação médica, demonstrada pelo grande número de aulas proferidas e os diversos capítulos escritos em livros-texto de medicina permite supor que a preocupação com o registro fotográfico ultrapassava o objetivo da mera ilustração, fazendo parte do arsenal utilizado para transmissão do conhecimento médico e evolução das práticas terapêuticas da época.

De toda forma, foi possível perceber um encadeamento seqüencial de determinados temas através do registro de informações até hoje cruciais para a avaliação clinica, qual sejam: o tempo decorrido entre acidente e a terapêutica instituída, o diagnóstico clínico atribuído ao envenenamento (independentemente da identificação do agente) e características demográficas dos pacientes, como sexo e idade.

Além de pacientes com quadros exuberantes (figuras 7 e 8), há registros de fluidos biológicos como sangue e urina, animais causadores de acidentes (figura 9), gráficos e tabelas contendo estatísticas de atendimento do Hospital e resultados de estudos de laboratório. Verifica-se, com isso, a incorporação de elementos de experimentação somados à prática médica, já presentes anteriormente.

 

 

 

 

 

 

A correlação entre o agente causador do acidente como determinante de aspectos clínicos específicos observados nos pacientes, leva Gastão Rosenfeld a estudar em laboratório os efeitos dos venenos ofídicos de diferentes espécies do gênero Bothrops sobre a coagulação sangüínea, sendo propulsor de linhas de pesquisa até hoje desenvolvidas na instituição. É notória a produção de artigos relacionados ao estudo dos venenos animais in vivo, com ênfase nos distúrbios de coagulação (Rosenfeld, 1959; 1971; 1972; Kelen et al., 1962), atestando a vinculação do médico com a pesquisa experimental, de crucial importância para sua carreira científica.

A inclusão de outros animais, além de serpentes, revela a ampliação do leque de interesse dos venenos. Os efeitos do envenenamento por aranhas (figura 10 e 11) e escorpiões, contato com lagartas, anfíbios e picadas por abelhas (figura 12) apontam as perspectivas de estudo de novos mecanismos de ação de venenos animais e a preocupação em relação aos riscos e gravidade desses envenenamentos.

 

 

 

 

 

 

Discípulos de Rosenfeld perpetuaram a prática do registro fotográfico no Hospital Vital Brazil, como ilustração de publicações científicas, folhetos e cartazes. É, porém, na elaboração de atividades de divulgação e capacitação para profissionais de saúde que o material fotográfico constitui ferramenta hoje praticamente insubstituível, na medida em que as imagens ajudam a estabelecer diagnósticos e determinar terapêuticas.

As considerações aqui apresentadas objetivaram indicar algumas questões suscitadas a partir de um contato preliminar com as imagens do presente acervo. As fotografias que integram este trabalho funcionam como síntese e exemplos de um universo de fontes muito mais rico e complexo, constituído de conjuntos orgânicos com suas lógicas próprias de produção e acumulação, e que devem ser analisados dentro de uma perspectiva de complementaridade com outras fontes.

 

Referências bibliográficas

CUETO M. Imágenes de la salud, la enfermedad y el desarollo: fotografias de la Fundación Rockefeller en Latinoamerica. História, Ciências, Saúde 5(3), 1999.         [ Links ]

FILIPPI P, LIMA SF, CARVALHO VC. Como tratar coleções de fotografias. São Paulo: Arquivo do Estado / Imprensa Oficial do Estado. Projeto Como Fazer vol. 4, 2a edição, 2002.         [ Links ]

KELEN EMA, ROSENFELD G, NUDEL F. Hemolytic activity of animal venoms. II. Variation in relation to erythrocyte species. Memórias do Instituto Butantan 30:133-142, 1962.         [ Links ]

LACERDA AL, BANDEIRA DE MELLO MT. Produzindo um imunizante: imagens da produção da vacina contra a febre amarela. História, Ciências, Saúde 10(supl.2): 537-71, 2003.         [ Links ]

MAUAD AM. Através da imagem: fotografia e história - interfaces. Tempo 1(2): 73-98, 1996.         [ Links ]

ROSENFELD G, HAMPES OG, KELEN EMA. Coagulant and fibrinolytic activity of animal venoms; determination of coagulant and fibrinolytic index of different species. Memórias do Instituto Butantan;29:143-163, 1959.         [ Links ]

ROSENFELD G. Symptomatology, pathology, and treatment of snake bites in South America. In: Bucherl W, Buckley EE, Deulofeu V, editors. Venomous animals and their venoms. New York: Academic Press, 1971:345-841.         [ Links ]

ROSENFELD G. Acidentes com animais peçonhentos. In Baruzzi GR, Siqueira R, Lacaz CS (eds) Geografia Médica do Brasil. São Paulo: Edusp, 1972, pp. 430-75.         [ Links ]

VELLOSO IRB, GITIRANA TB. Arquivo Fotográfico Aristides Azevedo Pacheco Leão. História, Ciências, Saúde 8(2):454-8, 2001.         [ Links ]

 

 

1 Projeto CNPq nº 400849/03-8
2 Causados por serpentes popularmente conhecidas como jararaca, jararacuçu, urutu, caiçaca, combóia (gênero Bothrops). Determinam frequentemente quadro inflamatório local, responsável pelas complicações que podem levar a seqüelas e amputação do membro picado.
3 Causados pelas cascavéis (gênero Crotalus), nos quais os sinais locais do envenenamento são pouco significativos; por outro lado, a paralisia muscular é o efeito sistêmico mais evidente.
4 Causados por serpentes pelas corais verdadeiras (gênero Micrurus) que têm também na paralisia muscular o principal efeito do envenenamento.