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Cadernos de História da Ciência

versão impressa ISSN 1809-7634

Cad. hist. ciênc. vol.1 no.1 São Paulo  2005

 

IV SEMINÁRIO
EXPERIÊNCIA DOS INSTITUTOS DE PESQUISA EM SÃO PAULO

 

Instituto Pasteur: trajetória histórica

 

 

Maria de Lourdes A. B. Reichmann

Assistente técnica do Instituto Pasteur

 

 

O Instituto Pasteur, ao contrário do que ocorreu com o Inst. Biológico, conseguiu um fôlego especial em virtude das pessoas que participam e participaram da sua história. Se considerarmos a partir dos registros existentes, que a inauguração da Av. Paulista aconteceu em 1891, o Pasteur se confundiria com a história mais moderna de São Paulo.

O que vou mostrar para os senhores, são algumas informações sobre dados coletados por intermédio das pesquisas do Prof. Teixeira da Fiocruz1 e da arquiteta Maria Regina Sandoval, que está no Pasteur.

Na época da criação do Instituto Pasteur não existia uma entidade de Saúde Pública que cuidasse especificamente de raiva, o que na ocasião era um dos maiores problemas que a cidade e o estado de São Paulo viviam. A raiva humana transmitida por cães, era responsável por situações de calamidade. Em 1903, por iniciativa de profissionais da área privada foi criado um instituto, uma entidade de saúde pública que tratava especificamente desta questão. Ainda no início das atividades, não havia sequer um prédio para Instituto Pasteur onde estes atendimentos deveriam ser realizados. Através da iniciativa dos profissionais da saúde, de representantes da área política ue se preocupavam com a prevenção da raiva humana, os atendimentos na área de raiva eram feitos no consultório particular de um deles.

Em 1904 o Pasteur foi inaugurado inicialmente e ali começou a fundamentar os conhecimentos, as pesquisas e a sua história propriamente dita. É importante considerar que o primeiro diretor do Instituto era um médico italiano que logo foi substituído por outro profissional, também italiano, que veio da Europa para ocupar o cargo, o Dr. Antonio Carini. Ele representou para a área da medicina brasileira um papel singular em função de sua visão crítica, de seus conhecimentos, especificamente na área da medicina veterinária. Foi ele quem identificou, através de seus inquéritos epidemiológicos e de suas pesquisas, a transmissão de raiva para animais de interesse econômico no estado de Santa Catarina através de morcegos hematófagos. Ele pesquisou uma epidemia de morte de herbívoros de uma origem que ninguém conseguia definir e, analisando as ocorrências, conseguiu identificar que morcegos hematófagos, sugando que, gado e cavalos, transmitiam o vírus da raiva a esses animais que morriam. A comunidade científica nacional e internacional não deu crédito a esta teoria e ela foi rechaçada. Somente quando pesquisadores alemães identificaram a mesma situação na área de Trinidad e Tobago é que foi reconhecida a descoberta do Prof. Carini, que teria antecipado a prevenção de raiva se tivesse sido aceita quando ele fez, no Brasil, esta constatação. Na verdade o Instituto Pasteur, nesta sua primeira parte, não tinha apenas uma finalidade de atendimento humano, ele estava envolvido na produção de diversos produtos, de uso humano e de uso veterinário como vacinas, soros e medicamentos.

A partir de 1914 o Estado, que investia recursos nesta instituição, passou a dar maior atenção aos seus Institutos, como o Butantan - que naquela época já fabricava produtos biológicos - e posteriormente a investir mais na universidade, na formação de bons profissionais e, as verbas que eram destinadas ao Instituto Pasteur foram rareando, inviabilizando-o enquanto entidade particular. O governo do Estado de São Paulo assume a direção do Instituto Pasteur a partir de 1916. Em um primeiro momento, os aten dimentos foram transferidos para o Instituto Bacteriológico, apesar da área de produção continuar ali. Durante trinta anos, a partir de 1918, um único diretor assumiu a direção do Instituto Pasteur e segundo os pesquisadores que nos deram as informações e os registros que eles nos forneceram, não existem grandes fundamentações para esclarecer a trajetória e esclarecer as realizações do Instituto. Suas atribuições que eram a fabricação de soros e vacinas específicas contra a raiva que a partir de 1958, foram transferidas para a competência e atribuição do Instituto Butantan. A questão de diagnóstico de laboratório de raiva vai se consolidando no Instituto Pasteur e a partir dele começam a se formar equipes, laboratórios em outras áreas, seja nas prefeituras, quando os centros de zoonoses vão aparecer, seja em outros estados. A área de diagnóstico de laboratório do Instituto Pasteur começa a surgir. Ainda nesta fase, o Instituto Pasteur era o responsável pelos tratamentos, pelo atendimento de pessoas envolvidas com animais e expostas ao risco da infecção rábica. Destes tratamentos, os pesquisadores começam a y padronizar esquemas de vacinação e a contestar aqueles esquemas vigentes inicialmente. Quem na década de 30 foi submetido a um tratamento antirábico recebia 5 mL, 30 dozes de uma vacina que era um caldo grosso de sistema nervoso central. Das pesquisas que passam a ser desenvolvidas no Pasteur e dos produtos que o Instituto Butantan vai aprimorando, passam a surgir vacinas mais refinadas, em menor número de doses, menores riscos de provocar reações adversas. Nesta fase ainda de poucos registros já existia uma idéia que foi sendo implementada e que ficou. Era o controle da raiva em populações animais. Nesta época já se falava no Instituto Pasteur em eliminação de cães vadios e estabelecimento de normas para a criação de cães de proprietários definidos, porque a ocorrência de raiva humana no estado de São Paulo e, em especial no município de São Paulo, era muito elevada e a transmissão era comprovadamente por cães mantidos sem controle neste território.

Na década de 70 o Pasteur tem fomentado seu retorno ao perfil inicial do instituto de pesquisas. Nós tivemos o estímulo e a colaboração dos professores Otto Bier, Carvalheiro, Mercadante e uma série de outras autoridades científicas que viram neste Instituto o potencial de estimular a pesquisa de raiva em áreas em que o mundo tão desenvolvido não tinha capacidade de desenvolver. Nesta ocasião era o diretor, Prof. Murilo de Azevedo, quem desenvolve o primeiro Seminário Internacional sobre Técnicas de Controle de Raiva. Deste Seminário Internacional saiu uma proposta de integrar diferentes entidades interligadas às questões de raiva, o Butantan na produção de soros e vacinas,, o Biológico no diagnóstico de raiva na área de competência da Secretaria da Agricultura e os serviços municipais na competência de atuar diretamente nas populações animais de área urbana.

Em 1975 foi criada a chamada Comissão Permanente de Controle da Raiva, cujo primeiro presidente foi o Prof. Oito Bier. Neste mesmo ano a Secretaria do Estado da Saúde elaborou uma proposta de um programa estadual de controle de raiva que serviu de modelo, foi implantada no Brasil e que vigora até hoje.

Na última fase, a que nós estamos vivendo agora, o Inst Pasteur é sede da Comissão de Cooperação do Programa de Controle da Raiva. Através das pesquisas que se realizam no Instituto Pasteur, hoje nós já temos a identificação de variantes do vírus rábico acontecendo no estado de São Paulo, em pessoas mortas por raiva no Brasil e na América do Sul Estamos alterando algumas propostas de trabalho, como é o caso do uso de vacina de cultivo celular, que o Instituto Butantan está pronto para produzir em escala comercial e o Instituto Pasteur participa desta pesquisa através da administração dos tratamentos e do acompanhamento das respostas imunológicas.

O resultado é que nós temos da atuação do Instituto Pasteur, agora estimulando, fomentando a atuação das entidades que compõem a Comissão Estadual de Controle da Raiva. Um ponto importante que estamos trabalhando no laboratório do Pasteur com a equipe de atendimento humana é fato de que estamos diante de uma invasão de espécies silvestres na área urbana que normalmente não são consideradas de importância ou de gravidade. Hoje nós temos evidenciado pessoas envolvidas em acidentes com morcegos em áreas urbanas. Infelizmente tivemos um caso de raiva humana no município de Dracena, um acidente que envolvia um gato, mas que, na verdade, a variante foi o viras rábico originário do morcego hematófago. Existe uma preocupação especial das equipes de atendimento do Pasteur na caracterização do animal que promoveu a agressão e expôs a pessoa ao risco. Os senhores dirão: "mas isto é a obrigação fundamental de quem faz o atendimento", O Ministério da Saúde e as equipes que trabalham no programa de raiva consideraram que esta postura preconizada pelas equipes do Pasteur era uma forma de rebeldia no programa. Foram estas iniciativas que originaram a pesquisa no Brasil todo. Apenas para comprovar a importância de se averiguar este tipo de exposição, já estão identificadas 22 pessoas mortas por terem sido sugadas por morcego hematófago.

A preocupação hoje no estado de São Paulo não é tratar pessoas, e sim tratar pessoas expostas ao risco de infecção rábica e com isto diminuir as indicações que são desnecessárias porque há como avaliar o animal envolvido na agressão ou no acidente. Nós temos no Brasil uma taxa de tratamento de pessoas ao redor de 65% dos atendimentos e isto, pela Organização Mundial da Saúde, demonstra que não existe uma avaliação adequada, tanto da pessoa envolvida, quanto do animal promotor da agressão. Em 2002, só para ter um termo de comparação, a grande maioria de atendimentos que o Brasil recebeu foram feitos em São Paulo, o único estado frente a todos os demais da federação, e os tratamentos indicados foram em torno de 35% dos afetados. Nós ainda não conseguimos o declínio dessa taxa de acordo com a conveniência no atendimento, pois não existe ainda uma cultura de observação pelo responsável do animal Cerca de 70% dos atendimentos referem-se a pessoas envolvidas por cães com proprietários, a maioria deles, 90 a 92%, poderiam ser liberadas do tratamento se houvesse a preocupação do proprietário em avaliar este animal.

O que nós pretendemos é que ao longo do tempo estas taxas diminuam ainda mais. Isso representa uma economia de imunobiológicos para a área da saúde, mas, sobretudo, uma melhor qualidade no desempenho da profissão médica, veterinária e no diagnóstico de laboratório. A justificativa de tudo isso que estou falando, em virtude da interação do Pasteur com diversas instituições, seja da área da saúde ou da agricultura ou organismos não governamentais, temos registrado que a raiva canina no estado de São Paulo está mantida sob controle desde 1997. Todos os casos de raiva humana e animal que tem acontecido no estado de São Paulo - na variedade humana foi um caso apenas neste período - mas todos os casos de animais estão hoje sendo avaliados quanto à variante do vírus rábico que está acometendo estas vítimas da doença. Hoje o laboratório do Instituto Pasteur é referência internacional para Organização Mundial da Saúde. Ele tem competência para desenvolver técnicas e é o único laboratório no Brasil que avalia a qualidade do tratamento por exames sorológicos de pacientes. O que é fundamental, pois estamos vivendo a era de pessoas comprometidas do ponto de vista imunológico por várias causas, de pessoas que são expostas a alto risco de raiva em virtude do trabalho como a questão do ecoturismo, hoje muito difundida.

O Instituto Pasteur atende, além do Brasil, alguns países da América Latina na área de identificação de variantes de vírus rábico e sorologia de pacientes. Hoje temos um laboratório de risco 3 na área da biossegurança. Estamos finalizando, o primeiro biotério de morcegos, instalado em Franco da Rocha e planejado pela arquiteta aqui presente, Regina Sandoval do Instituto Pasteur, fomentado pela Secretaria na época em que o Prof. Carvalheiro era diretor da Coordenadoria dos Instituto de Pesquisa. Isto representa uma evolução importante, pois não existe outro lugar do mundo um biotério de morcegos. O mundo pesquisa raiva, variantes de vírus com determinadas características, mas os únicos lugares onde o morcego hematófago existe e esta promovendo danos econômicos significativos na saúde são o México e a Argentina. O Brasil que vai oferecer ao mundo este meio de estudo para avaliar comportamentos, técnicas de controle e uma vacina, via oral, para morcegos.

 

 

1 Ver trabalho "Ciência e saúde na terra dos Bandeirantes: a trajetória do Instituto Pasteuer de São Paulo no período de 1903-1916" Rio de Janeiro. Fiocruz, 1995.         [ Links ]