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Cadernos de História da Ciência

versão impressa ISSN 1809-7634

Cad. hist. ciênc. vol.1 no.1 São Paulo  2005

 

III SEMINÁRIO
MUSEU HISTÓRICO E HORTO OSWALDO CRUZ

 

Museu Histórico origem e memória

 

 

Henrique Moisés Canter

Diretor da Divisão de Desenvolvimento Cultural do Instituto Butantan

 

 

Uma tentativa frustada....

Corria a década de 70, a então Seção de Museu recebia com freqüência solicitações para participação em eventos externos com exibição de animais, produtos e textos como feiras de ciências, promoções oficiais e feiras agropecuárias, as quais, dentro das possibilidades, atendia, sempre com relativo sucesso. Convites relativos ao aspecto de história/memória da Instituição eram esporádicos, limitando-se a solicitação de fotos de personagens e um ou outro equipamento. Lembro-me particularmente de uma exposição mais organizada, denominada "São Paulo Antigo", realizada no Jardim da Luz, por Lemos Britto Promoções, em setembro de 1972, na qual o Butantan se fez representar, por iniciativa da diretoria, através de peças com interesse histórico (diplomas, quadros, microscópio, móveis, vidraria) e obviamente animais, representados por espécimes empalhados de serpentes e macacos vivos.

Em 1973 o Instituto recebeu de Oswaldo Vital Brazil, da UNICAMP, solicitação para colaborar na organização de um Museu em homenagem a Vital Brazil, o qual contaria com três setores, abrangendo: história, trabalhos/publicações e museu biológico semelhante ao do Instituto Butantan. Enumerava, então, a posse de inúmeros documentos históricos relativos à vida de Vital BraziL O Museu respondeu à consulta, oferecendo contribuição na parte referente aos animais, que lhe competia. Não tivemos notícias de prosseguimento do projeto.

Todavia a idéia persistiu, e algum tempo depois, projetamos com anuência da diretoria do Instituto, a instalação de um stand histórico, dentro do Museu do Instituto Butantan (Fig. 1). Para tanto, elaboramos uma circular, dirigida aos diretores das então existentes Divisões do Instituto: Ciências Fisiológicas e Química, Biologia, Patologia, Microbiologia, mais o Centro de Imunologia, indagando da existência de material, documentos e pedindo colaboração. Recebemos uma única resposta! Simultaneamente, consultamos o Dr. Oswaldo Vital Brazil, do qual copiáramos a idéia no sentido de obter os documentos históricos de seu ilustre pai. Ao contrário do resultado obtido no Instituto, a resposta positiva? foi imediata, seguida de um convite para encontrá-lo em Campinas, a Sm de trocar idéias.

 

 

Na ocasião foi nos oferecida, por empréstimo, uma coleção de documentos, representados por cartas, cartões, diplomas, nomeações oficiais, etc., com a condição de copiá-los com devolução imediata, o que foi feito. Na época, por inexistência de reprografia, foram feitas a partir de fotocópias (Fig. 2).

 

 

Um fato curioso marcou nossa visita à casa da família Oswaldo Vital Brazil, que narrou-nos o mesmo, há pouco ocorrido com sua filha que cursava a escola fundamental. Ela levara à aula uma foto de família na qual figuravam seu ilustre avô e outros componentes, entre os quais, descendentes de Tiradentes, nosso "Mártir da Independência" e de Tarcísio Meira, conhecido intérprete de novelas - a menina se tornou um destaque e procurada por ser a "parente" do artista de TV!

 

O Museu se articula

Aproximava-se a data em que o Instituto Butantan comemoraria os seus 80 anos, presenciara-se nos últimos anos a sucessiva perda de área em seu campus (Fundação Faria Lima e Centro Cultural/USP), motivando-se então a necessidade de preservar o seu patrimônio físico e cultural através de seu tombamento (14/09/81) e de comemorar a data, realizando-se obras e inúmeros procedimentos de natureza científico-culturais.

Quando da remoção de antigas coelheiras, localizou-se o piso, (Fig. 3) o alicerce e uma das. paredes originais, do que se .acreditava ser o primeiro laboratório em que Vital Brazil iniciara os seus trabalhos na então Fazenda Butantan e que fora demolido em 1928 (Fig. 4). Entrevistas com antigos funcionários e análise de fotografias possibilitaram, com auxílio de um arquiteto, o dimensionamento correto do que fora aquela edificação. Surgia ali a idéia da criação de um Museu Histórico.

 

 

 

 

Simultaneamente constituía-se uma comissão organizadora de comemoração de 80º aniversário, cujo presidente, o então diretor do Instituto, Bruno Soerensen Cardozo, através da portaria TBB/178 de 21/08/78 designa um "Grupo de Trabalho com a finalidade de realizar levantamento de material de caráter histórico da Instituição para a futura instalação do Museu Históricosão seus componentes: Jesus Carlos Machado (Pres.) diretor da Divisão de Patologia, Alphonse Richard Hoge, diretor da Divisão de Biologia, Henrique Moisés Canter, chefe da Seção de Museu, Newton Pereira dos Santos, chefe da Seção Plasmas Hiperimunes, Luiz de Arruda, diretor da Divisão de Administração e Carmen Aleixo do Nascimento, bibliotecária chefe, O prazo para conclusão do levantamento foi de 90 dias.

Foram realizadas sete reuniões, ao fim das quais elaborou-se um relatório final (Fig. 5) que recomendava a criação de uma comissão permanente para prosseguir nos trabalhos de implantação do Museu, a preservação do material encontrado em local adequado, a criação de um Setor no Museu encarregado de obter junto a funcionários e ex-funcionários depoimentos que possibilitassem a reconstituição da história do Instituto Butantan e, sobretudo, julgava ser de grande interesse a edificação de uma réplica do primeiro laboratório construído no Instituto Butantan.

 

 

Dentre os componentes do "grupo de trabalho" foram formados grupos com dois ou três membros, com o objetivo de apurar, em 90 dias, nas várias unidades, a existência de material (móveis, equipamentos, documentos) de interesse histórico. A cada grupo formado, foi atribuída uma determinada área a ser visitada, usando-se como critério a afinidade com a atividade desenvolvida e/ou a proximidade "geográfica" da área a ser levantada.

As "visitas" se fizeram na maioria das vezes sem maiores transtornos, todavia, em alguns locais, ante a meticulosidade da investigação (procurava-se sempre o nº de patrimônio da peça e anotava-se local onde ela se encontrava: sala, armário, etc.) (Fig. 6), os responsáveis se mostravam relutantes e mesmo contrariados, imaginando uma eventual e imediata remoção das peças inventariadas, mesmo porque grande parte das mesmas encontrava-se em uso. Foram visitadas 38 unidades e anotados 410 itens de interesse histórico.

 

 

Cabe um registro pessoal, protagonizado por mim e por Newton P. dos Santos, que foi o encontro no Setor de Estoque, dos Relatórios Anuais do Instituto (coleção incompleta) em precaríssimas condições de acondicionamento e conservação. Foram posteriormente restaurados e devidamente tombados junto à Biblioteca. Quanto ao material levantado, foram encaminhados ofícios aos responsáveis com a relação das peças arroladas, solicitando sua preservação enquanto a comissão permanente estudava o seu destino.

O procedimento, hoje analisado, acreditamos não ter sido o mais adequado, se prestaria para um aproveitamento a curto prazo. Com o passar do tempo, a estrutura das unidades e do Instituto modificaram-se física e nominalmente, bem como os personagens relacionados, transferiram-se, aposentaram-se ou desfizeram-se de uma ou outra forma dos materiais arrolados, dificultando a sua localização.

Todavia, para a instalação inicial do Museu, o levantamento foi extremamente útil, pois possibilitou à equipe contratada a seleção de peças adequadas a sua organização museológica e museográfica (circular T3B/GG3-81).

A inauguração da restauração - Museu Histórico, se deu em 11 de junho de 1981, data em que se completaram oitenta anos da entrega dos primeiros soros antipestosos por Vital Brazil (Figs. 4, 7, 8, 9).

 

 

 

 

 

 

Uma década efetiva

Para os trabalhos iniciais do Museu contratou-se uma equipe de especialistas em história e museologia que se incumbiria, não só da sua instalação, mas também da planificação inicial e feitura do mesmo e que era constituída pelo Arquiteto Osmar Mamini, pertencente ao quadro da FUNDUSP (Fundo para Construção da Cidade Universitária), que participou desde o momento da descoberta dos vestígios da edificação até a sua reconstituição final, das museólogas e historiadoras: Marlene Suano, Jandira Lopes de Oliveira e Elisabeth Braz, que se encarregaram dos textos e organização museológica e museográfica, bem como do Arquiteto Julio Abe Wakahara, que se incumbiu da comunicação visual.

Durante os dois primeiros anos de atividade, o Museu esteve vinculado à diretoria técnica do Instituto, passando em 1983 a fazer parte das unidades da Divisão de Extensão Cultural, com nível de seção técnica. Nessa ocasião, perde uma parte importante de suas instalações em virtude da ampliação e reforma do Biotério, onde estava armazenada á sua reserva técnica. Em decorrência da mudança desse acervo para o Setor Patrimônio (grandes peças) e para o 1º andar no Prédio Central, onde encontra-se até o momento, perderam-se muitas peças e documentos.

Nos anos que se seguiram, as atividades foram praticamente interrompidas com a saída das historiadoras: Jandira Lopes de Oliveira e Paula Cristina Lapolla, respectivamente por comissionamento e demissão voluntária, a primeira envolvida em pesquisa sobre a varíola, após a realização do importante artigo "Cronologia do Instituto Butantan", 1ª parte 1888-1945 e a segunda no levantamento do acervo iconográfico do Instituto (1983-84).

Em virtude da sua saída procedeu-se em 1985 a realização de concurso para provimento da vaga de Historiador, no que contamos com a colaboração do departamento de História da USP, na pessoa da Profa. Dra. Maria Amélia M. Dantes, sendo então admitida Solange Ferraz de Lima que permaneceu aproximadamente um ano no Instituto, tendo nessa ocasião procurado ampliar a área do Museu Plistórico, elaborando projeto de edificação anexa e colaborando com artigos para o Informativo do Instituto.

Novamente sem historiador, ainda com a colaboração do Departamento de História, promovemos um novo concurso, que viria admitir a historiadora Dora Shellard Corrêa que conosco permaneceria até a ocasião do 90º aniversário do Instituto. Durante a sua permanência no Instituto Butantan (09/1986 a 03/90), teve uma participação muito ativa com projetos ligados a história do Hospital Vital Brazil (1987), da planificação do Museu de Rua (1986-87), de contatos, visando uma aproximação com o Arquivo do Estado com objetivo de elaborar um Projeto: Catalogação do Acervo Documental e participado da comissão que propôs uma política de arquivos para o Instituto Butantan (1989). Escreveu inúmeros artigos para o Informativo do Instituto Butantan e em 1989 apresentou sua dissertação de mestrado, "O Núcleo Colonial Barão de Antonina", iniciado antes de seu ingresso no Instituto Butantan (ver Anexo 1).

Em maio de 1988, quando se iniciavam os preparativos para a comemoração dos 90 anos do Instituto, é comissionada no Instituto a historiadora Maria Cecília Loschiavo dos Santos, que permaneceu pouco tempo no Butantan, embora com uma proveitosa atuação.

Participando da comissão do 90º aniversário, programou e executou cursos, mesas redondas e simpósios com participação significativa de personalidades ligadas a história, ciência e pesquisa nacionais (ver Anexos 2 e 3).

Após a sua saída, e com obstáculos administrativos que impediram a realização de concurso para admissão de novos historiadores, o Museu Histórico, que já contava com o auxílio do Museu Biológico na sua administração desde 1984, passou a contar com a bióloga Nayte Vitieilo (Museu Biológico) na sua condução, tendo na medida do possível participado da organização de eventos e zelado pelo acervo do Museu (ver Anexo 4).

A década de 90 não se constituiu em um período profícuo para o Museu Histórico. O seu atrelamento ao Museu Biológico, a ausência de uma chefia efetiva e a carência de recursos humanos e materiais muito contribuíram para seu quase ostracismo entre as unidades do Instituto Butantan.

A reestruturação do Instituto Butantan, efetivada através do Dec. 33116, de 13/03/91, teria um significado muito especial para a Divisão de Extensão Cultural agora denominada de Divisão de Desenvolvimento Cultural, ou seja, a atividade de pesquisa seria uma de suas atribuições. Na estrutura anterior isto não ocorria, impedindo que seus servidores ingressassem na carreira de pesquisador científico, que fora instituída (L.C. 125 de 18/11/75).

A nova situação na estrutura da Divisão Cultural previa a realização de pesquisas: biológica, no Museu Biológico; educacionais, na Seção de Ensino e Divulgação; e históricas, no Museu Histórico, agora incluído entre as novas unidades da Divisão. O fato serviu de estímulo ao interesse de servidores e bolsistas que, na nova situação, poderiam contar com a carreira, conseqüente evolução, aprimoramento profissional e porque não salarial. Dessa nova estrutura se beneficiou inicialmente o Museu Biológico, o que infelizmente não aconteceu com o Histórico, que teria de esperar onze anos até conhecer o seu primeiro pesquisador científico.

Em 1998, através do Projeto FAPESP/07.943-6, "Recuperação de acervo iconográfico e de livros raros da Biblioteca do Instituto Butantan" (Fig. 10), foi possível se obter recursos relacionados à história da instituição como: restauração da coleção de relatórios anuais do Instituto Butantan, restauração dos painéis do Museu Histórico e do Museu de Rua, atualização de cronologia histórica a partir de 1980 e classificação e acondicionamento de material iconográfico. Com a proximidade do centenário do Butantan, os textos e imagens desse Museu foram atualizados e adequados para constituir uma publicação comemorativa: "Butantan - 100 anos".

 

 

Um novo fato (2002) viria esperançar àqueles interessados na memória histórica do Butantan previam-se duas vagas de pesquisador científico, em níveis I e II no edital de convocação e que se completaria em 2003, com a aprovação, pelo Conselho Diretor do Instituto, do Laboratório Especial de História da Ciência, que seria definitivamente instalado em 2004.

Consideramos que, se tivessem sido mantidas as condições existentes nos anos 80 com apoio material, humano e político, mais a continuidade da presença de historiadores desenvolvendo as atividades propostas e realizadas no período (anos 80, 90 - realização de pesquisas, cursos, exposições, simpósios, etc.), teríamos dado prosseguimento à formação de uma massa crítica, obtendo uma 5 possível liderança e desenvolvido "atividades culturais visando a difusão de conhecimentos sobre vultos da história da ciência, especialmente daqueles que contribuíram significativamente para o progresso das especialidades cultivadas no Instituto e realizar pesquisas no campo da museologia relacionadas à história do desenvolvimento científico e tecnológico do Instituto (trecho do art. 54 do Dec. 33116/1991, Atribuições do Museu Histórico).

 

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