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BEPA. Boletim Epidemiológico Paulista (Online)

versión On-line ISSN 1806-4272

BEPA, Bol. epidemiol. paul. (Online) vol.8 no.95 São Paulo nov. 2011

 

SAÚDE EM DADOS
contextualização

Prevalência de pacientes em terapia renal substitutiva no Estado de São Paulo

 

 

Prevalence of substitute renal therapy in the State of São Paulo


Marilia Cristina Prado LouvisonI; Mônica Aparecida Marcondes CecilioI; Vera Lucia Lopes Rodrigues OsianoI ; Silvany Lemes Cruvinel PortasI; Ricardo SessoII


ICoordenadoria de Planejamento de Saúde. Secretaria de Estado da Saúde. São Paulo, SP, Brasil.
IIDivisão de Doenças Crônicas não Transmissíveis. Centro de Vigilância Epidemiológica “Prof. Alexandre Vranjac”. Secretaria de Estado da Saúde. São Paulo, SP, Brasil

 

Correspondência/Correspondence to

 

INTRODUÇÃO

A doença renal crônica (DRC) tem assumido importância crescente no Brasil e em todo o mundo, considerando tratar-se de doença cada vez mais comum, associada a elevada mortalidade, morbidade e custos. Com frequência, ocorre progressão para a insuficiência renal crônica terminal (IRCT), cuja letalidade é elevada, apesar dos tratamentos disponíveis.

A incidência e, em particular, a prevalência de pacientes em terapia renal substitutiva (TRS) vêm aumentando progressivamente em todo o mundo, inclusive no Brasil.1,2,3 Em nosso País, o Ministério da Saúde provê tratamento dialítico para todos os pacientes com IRCT desde 1974 e, atualmente, cerca de 87% dos pacientes em TRS são pagos pelo Governo.

A política nacional de atenção integral ao portador de doença renal4 visa prevenir a doença mediante promoção da saúde, diminuição do número de casos e minimização dos agravos da hipertensão arterial e do diabetes mellitus, que são patologias prevalentes e determinantes da doença renal na população. Ao lado do atendimento de média e alta complexidade do paciente que já desenvolveu a doença renal crônica, é necessário o aperfeiçoamento da atenção primária, a fim de que o surgimento de novos pacientes crônicos possa ser reduzido, melhorando a qualidade de vida dos brasileiros e os custos gerais para o sistema de saúde.5

Os principais objetivos da política da doença renal crônica são:

  • desenvolver estratégias de promoção da qualidade de vida;
  • organizar uma linha de cuidados integrais – inversão do modelo baseado apenas nos procedimentos de média e alta complexidade;
  • definir critérios técnicos mínimos para funcionamento dos serviços públicos e privados que realizam diálise e mecanismos de sua monitoração;
  • ampliar a cobertura no atendimento aos portadores de IRC, nas diferentes modalidades de terapia renal substitutiva (TRS);
  • ampliar a cobertura dos hipertensos e diabéticos, principais causas da insuficiência renal crônica no Brasil;
  • fomentar, coordenar e executar projetos estratégicos que visem o custo efetividade, eficácia, incorporação tecnológica do processo TRS;
  • qualificar a assistência e promover a educação permanente dos profissionais de saúde envolvidos; e
  • implementar e aperfeiçoar a produção de dados, garantindo a democratização das informações.

Com o melhor acesso da população aos serviços de saúde, a expectativa é de que haja aumento ainda maior da taxa de incidência de pacientes em tratamento dialítico. Embora a modalidade terapêutica que oferece a melhor qualidade de vida aos pacientes com IRCT seja o transplante renal, o número de órgãos de doadores cadáveres ainda é insuficiente em relação à demanda; além disso, muitos pacientes não têm condições clínicas ou não desejam receber um transplante.

Os principais fatores de risco para o desenvolvimento de DRC são: diabetes melittus, hipertensão arterial sistêmica, sexo masculino, raça negra, idade avançada, tabagismo, uso de nefrotoxinas, diminuição da massa renal, anemia, doenças renais proteinúricas, presença de DRC na família e outros fatores de risco cardiovasculares, como síndrome metabólica, dislipidemia, obesidade, estado inflamatório crônico e disfunção endotelial.6 Entre esses, os mais importantes são a hipertensão arterial sistêmica e o diabetes mellitus.

Segundo estimativas do IBGE, 35% da população brasileira acima de 40 anos é hipertensa (cerca de 17 milhões de pessoas) e cerca de 11% na mesma faixa etária é portadora de diabetes (em torno de 5,5 milhões), existindo ainda aproximadamente 2,7 milhões de pacientes com as duas patologias.

Nesse sentido, as ações de prevenção primária e secundária, que incluem o esclarecimento da população sobre o significado e a natureza assintomática e progressiva da DRC e o controle de seus fatores de risco são aspectos de muita importância. O reconhecimento e o manejo precoces de pacientes em estágios iniciais e intermediários da DRC, principalmente com relação aos hipertensos e/ou diabéticos, poderiam reduzir, a longo prazo, o número de pacientes com IRCT.

Nos Estados Unidos, a incidência de pacientes com IRCT parece estar estabilizando, com 363 pacientes por milhão de população (pmp) em 2006, após sucessivos aumentos de incidência na série histórica.2 Outros países com alta incidência são Taiwan (418 pmp) e Japão (275 pmp). Na América Latina,3 a incidência em 2004 foi de 147 pmp, sendo menor na Guatemala (11 pmp) e maior em Porto Rico (337 pmp). Há significativa diferença de incidência associada à doença básica (maior em diabéticos) e à etnia (maior em afro-descendentes).

Em 2006, as taxas de prevalência de TRS mais elevadas foram observadas em Taiwan e no Japão, com 2.226 e 1.956 pmp, respectivamente, seguidos pelos Estados Unidos e Alemanha, com 1.641 e 1.114.2 As menores taxas de prevalência foram relatadas nas Filipinas e em Bangladesh, 88 e 92 pmp, respectivamente. As taxas de prevalência e o número absoluto de pacientes têm aumentado em todo o mundo. No Brasil, incluindo diálise e transplante, esta era de 531 pacientes pmp em 2006.

A taxa de prevalência é maior, particularmente, em pacientes idosos. Nos Estados Unidos, é cerca de 5,5 vezes maior em indivíduos de 65-74 anos comparado àqueles com idade entre 20-44 anos.2

Segundo dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia, em 1º de março de 20081 o número estimado de pacientes com IRCT em diálise no Brasil era de 87.044, sendo que mais da metade (57,4%) encontrava-se na região sudeste. O número de pacientes em tratamento dialítico tem crescido cerca de 10,3% ao ano, entre 2005 e 2009. A taxa de prevalência de tratamento dialítico em março de 2008 era de 468 pacientes por milhão da população, variando amplamente por região geográfica entre 236 pacientes pmp na região norte e 593 pacientes pmp, na sudeste. Em relação aos pacientes prevalentes, 36,3% tinham idade de 60 anos ou mais, 89,4% estavam em hemodiálise, 10,6% em diálise peritoneal e 37.573 (42,6%) em fila de espera para transplante. Em relação ao diagnóstico da doença renal primária, as mais frequentes foram hipertensão arterial (36%) e diabetes (26%).

O número estimado de pacientes que iniciaram o tratamento em 2007 foi de 26.177, correspondendo a uma taxa de incidência de 141 pacientes pmp, com variação por região entre 121 pacientes pmp na região norte e 219 pacientes pmp na centro-oeste. O número estimado de óbitos em 2007 foi de 13.338, correspondendo a uma taxa bruta de mortalidade de 15,2% ao ano.

Entre os diversos fatores de risco para mortalidade, a idade avançada, a presença de diabetes e o número de comorbidades associadas são os mais importantes. Além desses, o diagnóstico tardio da IRCT, particularmente comum em nosso meio, é um fator de mau prognóstico.5

Em relação ao Estado de São Paulo, há uma grande carência de dados disponíveis e publicados sobre a TRS. Análises preliminares da Sociedade Brasileira de Nefrologia, em março de 2008, indicam que havia cerca de 21.000 pacientes em diálise crônica em 146 unidades de diálise do Estado, sendo 57% do sexo masculino; 39% com idade de 60 anos ou mais; 66% da raça branca; 37% com diagnóstico de base de hipertensão arterial e 29% devido à diabetes. Quanto à modalidade de diálise, 89,3% faziam hemodiálise e 10,7% estavam em diálise peritoneal. A taxa de prevalência estimada de pacientes em diálise no Estado, em 1º de março de 2008, era de 518 pacientes pmp e a incidência anual foi de 156 pmp.

Devido à observação de uma grande variação das taxas de prevalência de TRS em São Paulo, conforme fontes de dados da Secretaria de Estado da Saúde, justifica-se uma análise mais detalhada dessas taxas e dos possíveis fatores que possam se associar a essa variação. Esse estudo foi realizado procurando aprofundar o conhecimento sobre o assunto a partir de dados oriundos das bases nacionais. A avaliação dos fatores relacionados à variabilidade das taxas de TRS no Estado pode ajudar na compreensão da complexidade envolvida nesse tratamento e melhorar o planejamento à assistência dos pacientes portadores de DRC.

METODOLOGIA

Foram calculadas as taxas de prevalência de doença renal crônica para o Estado de São Paulo, por Região e Departamento Regional de Saúde (DRS), em 2009, verificando-se sua associação com outros indicadores relacionados. São Paulo conta com 645 municípios que, desde 2007, encontram-se agrupados em 64 regiões de Saúde e 17 departamentos regionais de Saúde.(DRS)

Os pacientes com doença renal crônica submetidos à diálise foram identificados pela base de dados da Autorização de Procedimentos de Alto Custo (Apac). As taxas de prevalência de pacientes em TRS foram apuradas a partir do seguinte cálculo:

O número de pacientes renais crônicos da região foi obtido a partir da contagem do número de pacientes que passaram por serviço de diálise no mês de dezembro de 2009, residentes na região em questão (Estado, DRS ou Região de Saúde), excluindo-se as duplicidades. Os dados de população residente foram obtidos pela base de dados IBGE/Datasus 2009.

A opção por utilizar-se uma base mensal (no caso, do mês de dezembro) ocorreu principalmente em função da dificuldade de obtenção de dados fidedignos sobre o numero de pacientes na consolidação anual a partir das bases mensais da APAC. Para a identificação de pacientes/ano necessita-se identificar as duplicidades nas bases dos vários meses, mediante número de cartão SUS, que ainda não indica efetivamente um número único, por não estar necessariamente acoplado à base de dados nacional, podendo causar superdimensionamento da informação. Por outro lado, a informação mensal pode trazer outros vieses relacionados à escolha do mês mas, no entanto, indica uma boa condição para comparação, no tempo e no sentido de identificação das desigualdades regionais.

A análise desse indicador trouxe a necessidade de observação e comparação com outras variáveis, em cada região, a saber:

  • Produto Interno Bruto (PIB) – total e per capita – utilizando como fonte as bases de dados Fundação Seade e IBGE.
  • Percentual de municípios na região que apresentaram Índice Paulista de Responsabilidade Social (IPRS) classificados como 4 e 5. O IPRS constitui-se em indicador desenvolvido pela Fundação Seade, calculado basicamente com informações pertinentes à riqueza, longevidade e escolaridade, apresentando como resultado final cinco possibilidades de classificação para o município:

    1 – alta riqueza, com longevidade e escolaridade médias ou altas;

    2 – economicamente dinâmica, com baixo desenvolvimento social;

    3 – saudável, mas com baixo desenvolvimento econômico;

    4 – baixo desenvolvimento econômico e em transição social; e

    5 – baixo desenvolvimento econômico e social.


    Uma vez que não se dispunha de dados de IPRS por Região de Saúde, optou-se por avaliar o percentual de municípios com IPRS 4 e 5 (mais baixos) para analisar a possibilidade da existência de alguma relação entre prevalência de pacientes em diálise e baixo nível de desenvolvimento econômico e social.
  • Número de serviços de diálise por região e seu respectivo mapeamento – utilizando como fonte a base de dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), foi levantado o número de serviços de diálise por Região de Saúde e DRS.
  • Número de habitantes por serviço de diálise – cálculo obtido através do quociente entre o número de habitantes da região e o número de serviços de diálise da mesma região.
  • Número de pacientes por serviço de diálise – cálculo obtido através do quociente entre o número de pacientes da região e o número de serviços de diálise da mesma região.
  • Quantidade de pontos cadastrados por serviço de diálise e por região – cálculo obtido através do quociente entre o número de pontos de hemodiálise cadastrados no CNES e o número de serviços de diálise da região.
  • Número e percentual de pacientes por modalidade de tratamento dialítico – dados obtidos a partir dos bancos de dados de APAC, computando o número e percentual de pacientes de acordo com a modalidade de tratamento – hemodiálise (HD), diálise peritoneal automatizada (DPA), diálise peritoneal ambulatorial contínua (DPAC) e diálise peritoneal intermitente (DPI).

RESULTADOS

A situação no Estado de São Paulo

O Estado de São Paulo, em 2009, contava com 137 serviços de diálise que realizavam tratamento SUS para pacientes com doença renal crônica, distribuídos nas várias regiões de saúde do estado (Tabela 1). A distribuição dos serviços que apresentaram produção de TRS, por Região de Saúde é apresentada na Figura 1, assim como a prevalência de pacientes em diálise, por região, no ano de 2009. Observam-se valores do indicador nas regiões de saúde que variam de 26,3 por 100.000 habitantes (Consórcio do DRS II) até 78,0 por 100.000 habitantes (Votuporanga) sendo que apenas 17 regiões das 64 existentes no Estado encontram-se abaixo do parâmetro da Portaria 1.101/01 de 40 pacientes por 100.000 habitantes. Observa-se que estas não são, em sua maioria, as regiões que não apresentam serviço de diálise, em número de 12 no Estado.

 

A Tabela 2 apresenta a prevalência de pacientes renais crônicos SUS em diálise, por Região de Saúde, além do PIB per capita e percentual de municípios que apresentaram IPRS 4 e 5, por DRS. Não se observa uma relação direta entre o indicador e as condições sócio econômicas analisadas. Alguns departamentos regionais de Saúde com menor PIB e maior percentual de municípios com piores condições sócio econômicas apresentam menores taxas de prevalência como Registro. No entanto, DRS como da Baixada Santista apresenta baixa prevalência, mas tem PIB maior que o estado e nenhum município com IPRS 4 ou 5. Além disso, regiões como São João da Boa Vista, apesar de grande parte dos municípios com IPRS 4 ou 5, apresentam indicador maior que a média estadual. A maior ou menor prevalência podem indicar tanto a qualidade do cuidado às condições crônicas na atenção básica quanto a oferta de serviços de diálise na região, reconhecido fator gerador de demanda.

 

Os Gráficos 1 e 2 apresentam a prevalência de pacientes renais crônicos em programa de TRS no SUS/SP, por DRS e por Região de Saúde, respectivamente. Os departamentos regionais de Saúde com maiores indicadores são de Ribeirão Preto (principalmente Região de Saúde Aquífero Guarani e Horizonte Verde) e de São José do Rio Preto (principalmente Região de Votuporanga e Fernandópolis) sendo as menores taxas observadas em Registro e na Baixada Santista. Chama a atenção a Região de Saúde de Votuporanga, assim como Tupã, com as maiores taxas de prevalência do Estado nesse ano, ainda que menores que as verificadas nos países desenvolvidos acima citados.


Com relação ao dimensionamento de pacientes por serviço (Figura 2), observa-se que as regiões com maior número de pacientes por serviço são as de Marília, São José do Rio Preto, Mananciais e Alto do Tietê. Na Figura 3 observa-se que, além das quatro anteriormente descritas, as regiões de Fernandópolis, Central do DRS II e Vale do Paraíba – Região Serrana também apresentam maior número de pontos de hemodiálise por serviço. Cada ponto pode comportar até 6 pacientes, considerando o tratamento habitual de três vezes por semana, em 2 ou 3 turnos de trabalho. O dimensionamento de pacientes por serviço é importante pois, apesar da economia de escala, deve-se estar preparado para alguma necessidade de paralisação temporária e realocação de pacientes em outros serviços, considerando a necessidade de controle rigoroso dos parâmetros de qualidade, em particular da água utilizada.

Na Figura 4, observa-se que a cobertura populacional por serviço é de 100 mil a 975 mil habitantes por Região de Saúde. O parâmetro estabelecido pelo Ministério da Saúde é de 1 serviço para no mínimo 200.000 habitantes, não devendo ultrapassar 500.000 habitantes. Na Grande São Paulo, com exceção de Guarulhos e Grande ABC, observam-se mais de quinhentos mil habitantes para cada serviço. É importante considerar, ainda, que as 12 regiões de saúde sem produção de serviços de diálise pelo SUS têm menor densidade populacional e referenciam-se nos serviços das regiões contíguas, sem prejuízo da necessidade do paciente renal crônico.


Na Tabela 3 e no Gráfico 3 observa-se a evolução de 2000 a 2009 do número de pacientes no Estado, por modalidade assistencial, indicando um importante incremento de pacientes, tanto em Diálise Peritoneal Automática (DPA), quanto em Hemodiálise, ao longo do período, em todo o Estado. As modalidades de diálise peritoneal DPAC e DPI, menos utilizadas, vêm mostrando declínio no período. Observa-se ainda que o percentual de pacientes de outros estados em tratamento em São Paulo diminuiu no período.

 

Na Tabela 4, observa-se o aumento absoluto do número de internações e de óbitos por insuficiência renal crônica em 2000 e 2009, com uma taxa de mortalidade hospitalar estável no período. No entanto, alguns DRS apresentaram incremento na mortalidade hospitalar no período, o que pode indicar tanto uma modificação no perfil dos pacientes internados quanto alguma dificuldade no manejo do doente renal crônico. Com relação aos dados ambulatoriais, a mortalidade observada nas APAC apresentara redução no período passando de 14,0 para 11,07 no Estado (Tabela 5), o que poderia indicar uma melhoria da qualidade da atenção no período.

 

DISCUSSÃO

O indicador analisado (prevalência) apresenta extrema variabilidade no Estado, indicando desigualdades regionais que precisam ser melhor analisadas e compreendidas. Apesar da hipótese que uma melhor condição sócio econômica poderia estar relacionada a um maior acesso à TRS e constituir um importante fator para explicar as desigualdades regionais, ainda são necessários novos estudos nesse sentido. Valores mais altos de prevalência podem ser explicados por hipóteses contraditórias: ou indicam melhores condições de acesso aos serviços de saúde ou, ao contrário, podem representar má qualidade da assistência á saúde prestada à população.

A melhor qualidade da atenção básica (ações de promoção de saúde, diagnóstico precoce e controle adequado de hipertensos e diabéticos) e a melhor integração à rede de média (consulta de nefrologia) e alta complexidade (TRS), encontrada em algumas regiões, pode garantir um melhor acesso ao ciclo assistencial, permitindo a construção de linhas de cuidado que agreguem qualidade ao atendimento e valorizem as reais necessidades do cidadão8 Nesse sentido, teríamos diagnósticos e intervenções mais precoces, encaminhamentos no momento adequado aos serviços de maior complexidade e uma prevalência mais alta significaria melhor assistência. Devemos ressaltar que as maiores taxas internacionais de prevalência de TRS são encontradas em países desenvolvidos, como Estados Unidos e Japão, o que dá suporte a essa interpretação.2 Por outro lado, uma atenção básica incipiente e não resolutiva do ponto de vista das condições crônicas, em particular, diabetes mellitus e Hipertensão Arterial Sistêmica pode levar a piores índices de doença renal, apenas diagnosticados em fase terminal, com incremento no uso de unidades dialíticas. Nesse caso, altas taxas de prevalência traduziriam uma atenção primária desqualificada e rede de saúde fragmentada para esse cuidado.

Além disso, altas taxas de prevalência também podem indicar uma interferência da incorporação tecnológica e da lógica da oferta que reflete em altos custos para o sistema, sem necessariamente significar uma melhoria do processo de atenção à saúde. A lógica da oferta de serviços de saúde, principalmente relacionada aos serviços especializados de alta complexidade, reconhecidamente induz a demanda e a utilização de serviços de saúde e é influenciada também por fatores socioculturais e organizacionais que variam de região para região.9

A incorporação de protocolos baseados em evidência, assim como o estabelecimento de processos regulatórios clínico-assistenciais, tendem a estabelecer um alinhamento na utilização desse tipo de serviço.

Os departamentos regionais de Saúde que apresentaram os maiores indicadores são historicamente os de maior incorporação de tecnologia médica e hospitalar. Nesse sentido, como já analisado anteriormente, isso poderia refletir uma melhor disponibilidade de atenção secundária e maiores possibilidades diagnósticas de indivíduos com doença renal crônica, que passaram a ser melhor monitorados, e, portanto, com maior acesso à TRS quando dela precisaram. Por outro lado, podem indicar também um pior cuidado às doenças crônicas, bem como um maior descontrole das unidades de diálise na produção dos serviços.

Os departamentos regionais de Saúde com menor prevalência de TRS apresentam, em sua maioria, menor PIB Regional e menor disponibilidade de máquinas de diálise e de equipes de assistência médica nefrológica indicando talvez um menor acesso ao diagnóstico.

Nesse sentido, é importante a observação deste indicador ao longo do tempo, no sentido de observar a tendência que se configura em cada região, contribuindo com a tomada de decisão para intervenções específicas. Regiões com valores extremos do indicador, como o da região de Votuporanga mereceriam um estudo particular dos casos para se tentar melhor explicar a realidade que se configura.

A cobertura dos serviços de TRS no Estado de São Paulo encontra-se distribuída de forma homogênea, apesar de apresentar ainda algumas poucas regiões de Saúde sem serviços dialíticos disponíveis. O Estado, nos últimos anos, tem incentivado as regiões para que sejam autossuficientes com relação à terapia dialítica, além de garantir referências macro regionais que supram a necessidade de todas as regiões. No entanto, essas regiões, em particular a dos consórcios do DRS 2, com o menor indicador do estado, também necessitam de uma análise mais específica no sentido de verificar a dificuldade de acesso.

A mortalidade hospitalar se manteve estável no período e os dados de monitoramento dos serviços mostram que a mortalidade por insuficiência renal em geral também tem se mantido estável no período, em taxas semelhantes a da mortalidade hospitalar, a despeito de haver, nos últimos anos, pacientes com doença renal crônica mais idosos e com mais comorbidades em tratamento, inclusive em diálise. Isso configura-se em importante avanço considerando os esforços no sentido da garantia da qualidade dos serviços.

É importante ainda observar que a utilização de sistemas de gerenciamento de hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus pela atenção básica, como no caso do sistema do Ministério da Saúde, SIS HIPERDIA, permitiria um maior conhecimento dessa população, bem como melhor delineamento de seu risco de apresentar doenças cerebrovasculares, cardiovasculares e nefrológicas, o que vem sendo preconizado para uma adequada intervenção nesse processo. Entretanto, esse tipo de gerenciamento de informações ainda não se encontra estruturado da forma necessária para fornecer os dados epidemiológicos desejados para o melhor entendimento dessa realidade.

Não se pode, ainda, deixar de considerar a importância do estabelecimento de intervenções voltadas a novos modelos de gerenciamento das condições crônicas de agravos à saúde, conforme preconiza a OMS,10 nas quais se identificam quatro importantes pilares: recursos comunitários, apoio para o autocuidado, suporte para decisões clínicas e sistemas de informação clínica. Essas intervenções poderiam promover interações produtivas entre pacientes ativos e informados e uma equipe de saúde proativa e preparada, alcançando melhores resultados clínicos e funcionais.

É de extrema importância a capacitação dos profissionais atentos ao diagnóstico precoce de insuficiência renal, principalmente em pacientes de risco como hipertensos e diabéticos. É um grande desafio para o Estado continuar garantindo o acesso e a qualidade dos serviços aos portadores de doenças crônicas em todos os níveis de complexidade, em particular aos portadores de diabetes mellitus e hipertensão arterial, àqueles com fatores de risco para doenças cardiovasculares, incluindo a chamada síndrome metabólica, que constituem fatores de risco importantes para desfechos de saúde desfavoráveis.

O custo de terapias mais especializadas, como a TRS e os transplantes, representam a ponta de um “iceberg” que precisa ser cada vez mais enxergado em toda a sua extensão e complexidade. Esses procedimentos são alvo de sistemas estruturados de informações que permitem um olhar epidemiológico sobre a doença crônica e suas complicações, bem como de seus determinantes e condicionantes

O monitoramento de um indicador que possa trazer esse foco deve ser priorizado como alvo das políticas públicas, de gestores do sistema de saúde e de gerentes de ferramentas da microrregulação assistencial. A produção de conhecimento permitirá ao gestor uma tomada de decisão mais estratégica, baseada em evidências e com maior relação custo-efetividade.

Observa-se que o acompanhamento das unidades de diálise de São Paulo tem refletido em melhor acesso e qualidade nesse nível de atenção. Nesse sentido, a inclusão do indicador de prevalência de DRC na Matriz de indicadores de Saúde do Estado de São Paulo e a contínua avaliação sobre esse tema traduzem essa prioridade.

CONCLUSÃO

No Estado de São Paulo, a prevalência de TRS por diálise em pacientes SUS dependentes com Doença Renal Crônica foi de 45,85 por 100 mil habitantes em 2009, e apresentou grande variabilidade nas diversas regiões de Saúde (de 30,79 a 65,95 por 100 mil habitantes), indicando desigualdades a ser melhor compreendidas.

De forma geral, as regiões do Estado com maior PIB per capita e com menor porcentagem de municípios com baixo desenvolvimento econômico e social apresentaram maiores indicadores de prevalência de TRS, embora haja grande variabilidade, o que justifica a realização de novos estudos que contribuam para um melhor conhecimento dessa realidade.

Conclui-se, portanto, que a prevalência de TRS é um indicador de extrema importância para o monitoramento da atenção à saúde no SUS, com foco nas linhas de cuidado das doenças crônicas não transmissíveis, necessitando da incorporação de ferramentas locorregionais de gestão, que permitam o aperfeiçoamento do monitoramento e do conhecimento sobre a situação de saúde e o funcionamento da rede e as necessárias intervenções para melhorar a atenção à saúde da população.

REFERÊNCIAS

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8. Porter ME, Teisberg EO. Repensando a saúde: estratégias para melhorar a qualidade e reduzir os custos. Porto Alegre: Bookman, 2007.         [ Links ]

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10. Bonomi AE, Wagner EH, Glasgow RE, VonKorff M. Assessment of chronic illness care (ACIC): a practical tool to measure quality improvement. Health Services Research. 2002;37:3.         [ Links ]

 

Correspondência/Correspondence to:
Silvany Lemes Cruvinel Portas
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 188 – 8º andar
CEP: 05403-000 – São Paulo/SP – Brasil
Tel.: 55 11 3066-8734
E-mail:sportas@saude.sp.gov.br