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BEPA. Boletim Epidemiológico Paulista (Online)

versão On-line ISSN 1806-4272

BEPA, Bol. epidemiol. paul. (Online) vol.5 no.52 São Paulo abr. 2008

 

INFORME TÉCNICO

 

Programa de vigilância de zoonoses e manejo de eqüídeos do Estado de São Paulo

 

Zoonosis surveillance program and equide management in the State of São Paulo

 

 

Claudia LeschonskiI; Claudia Martins SerraII; Cristiano MenandroII

IUniversidade do Cavalo e Uirapuru Superior Sorocaba/SP
IIProjeto Potro

Correspondência

 

 

Módulo I: Comportamento e Biologia de Eqüídeos

 

Introdução

Estima-se que 2 bilhões de pessoas, em cerca de 30 países, utilizam em torno de 300 milhões de animais de tração, em especial eqüinos. Alguns estudos demonstram que este número pode aumentar ao longo dos próximos anos. No Brasil vivem quase 6 milhões de eqüinos, além de 3 milhões de asininos e muares, mantidos com diferentes interesses, utilidades e vínculos com os seres humanos.

Para muitas famílias os eqüinos são utilizados em tração ou transporte e representam a principal ou única fonte de renda, em especial nas atividades de coleta de materiais inservíveis para reciclagem ou transporte de entulhos. Além de trabalho, os eqüinos são utilizados para entretenimento, lazer e atividades religiosas. A presença de eqüinos soltos em vias públicas de centros urbanos pode provocar acidentes de trânsito, muitas vezes fatais para animais e seres humanos. Além disso, estas espécies podem causar danos ao meio ambiente e representam um risco à saúde, na medida em que são reservatórios de zoonoses, destacando-se as encefalites eqüinas leste, oeste e venezuelana, a raiva e a febre do Nilo Ocidental.

As doenças nestes animais, de forma geral, têm aumentado, principalmente em função do seu intenso trânsito, tornando fundamental que os municípios implantem programas de vigilância, prevenção e controle das zoonoses que envolvem os eqüídeos. Com freqüência, observam-se casos de abusos e maus-tratos aos animais provocados pelo manejo inadequado ou condições dos veículos e forma de condução impróprias.

É competência legal dos municípios brasileiros o controle de animais em sua área de circunscrição, por meio de atividades programáticas, como é o caso de registro, captura ou apreensão e eliminação de animais que representem riscos à saúde humana, de acordo com a Portaria GM nº 1.1721. Esta responsabilidade, no tocante ao recolhimento de eqüinos soltos em vias públicas, manutenção e destinação dos animais e fiscalização em situações de maustratos, recai, nos municípios, sobre os órgãos executores de controle de zoonoses, geralmente vinculados às Secretarias Municipais de Saúde ou, em algumas localidades, serviços ligados à Secretaria de Agricultura ou do Meio Ambiente.

A implantação de um programa de vigilância de zoonoses e manejo de eqüídeos, além da alocação de recursos materiais e humanos, exige planejamento que englobe questões como: atendimento de urgência e emergência de animais em vias públicas, recolhimento, previsão de instalações para guarda e manejo de eqüinos, definição de protocolos para manutenção ou recuperação da saúde dos animais alojados, destinação adequada, capacitação dos profissionais envolvidos e legislação específica sobre o assunto, incluindo posse, guarda ou propriedade responsável, criação e comercialização de eqüinos e controle de zoonoses nos municípios do Estado de São Paulo.

Nesse sentido, a Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (CCD/SES-SP) realizou no período de 6 a 9 de novembro de 2007, o workshop "Manejo de Eqüídeos e Vigilância de Zoonoses", reunindo profissionais e especialistas para a elaboração de diretrizes voltadas ao Programa de Vigilância de Zoonoses e Manejo de Eqüídeos nos serviços municipais de controle de zoonoses ou controle animal do Estado.

O teor do programa será publicado em módulos , a partir desta edição, como referência técnica e instrumento de apoio para a implementação de políticas públicas considerando a saúde humana e animal, o meio ambiente e o bem-estar dos eqüídeos.

Os termos "cavalos" e "eqüinos" serão muitas vezes utilizados na publicação de forma genérica para todos os eqüídeos, concordando que este grupo contempla os cavalos, os asininosou jumentose osmuares.

 

Entendendo os cavalos

Histórico

Desde a época em que o ser humano dependia da caça como principal fonte de alimento, o cavalo já exercia uma forte atração sobre ele. À medida que os eqüinos passaram de alvo da caça para animal de carga, tração e montaria, começaram a beneficiar o ser humano, com otimização da caça, melhora no transporte de cargas e redução de tempo para deslocamentos, possibilitando, assim, o investimento no desenvolvimento da arte e da cultura humanas2. Desde os mais longínquos tempos, cavalos e jumentos vêm servindo ao ser humano.

A domesticação dos eqüinos ocorreu aproximadamente 3 mil anos após a dos ovinos, caprinos, suínos, bovinos e caninos. Ocorreu na Ásia e na Europa, sendo considerado um fator de extrema importância no desenvolvimento de civilizações milenares daqueles continentes. Desde o início da relação com os seres humanos esses animais foram utilizados em guerras, torneios aristocráticos e desfiles de ostentação social, e são mantidos, até hoje, como meio de transporte. Muitas vezes carregam excesso de carga, puxam charretes de grandes dimensões e peso, em decorrência do número de pessoas transportadas e colaboram na sobrevivência de muitas famílias que dependem deles para o transporte de materiais inservíveis em carroças, entre outros fins, servindo, ainda, de divertimento em diferentes espetáculos como circos, rodeios, corridas, lutas, saltos e pólo.

Os cavalos contribuem com o bem-estar humano, sendo utilizados em diversas atividades como a prática de esportes, lazer, terapias mediadas por animais e, até, como simples objeto de status.

 

Biologia

O grupo dos eqüídeos contempla os cavalos (Equus caballus), os asininos ou jumentos (Equus asinus) e os muares. Estes são híbridos, cruzamento de jumento com égua, originando a mula (fêmea) ou burro (macho) ou, ainda, cruzamentos de garanhão com jumenta, originando o bardoto. São animais sociáveis e de vida livre. Os eqüídeos em liberdade pastam praticamente durante dois terços do dia (16 horas), ocupam-se com brincadeiras por cerca de quatro horas, sendo o restante do tempo preenchido com repouso.

A altura dos animais varia, na maioria das raças, entre 1,40m e 1,70m, medido na cernelha (parte mais alta do dorso, logo após a inserção do pescoço). Internacionalmente, todo cavalo abaixo de 1,47m é considerado um pônei. A maioria das raças de trabalho no campo e de passeio tem uma altura que oscila entre 1,50m e 1,55m. Um cavalo de 1,50m saudável pesa aproximadamente 400 quilos, podendo exceder um pouco este valor nas raças muito musculosas, como o quarto-de-milha.

Estes animais podem apresentar uma grande variação de cor e sinais de pelagem, existindo um vocabulário especializado para descrevê-los. Algumas pelagens mais comuns são:

• Alazão - "Ruivo", marrom-claro ou avermelhado, com extremidades (crina, cauda e pernas) da mesma cor do corpo.

• Castanho - Marrom de várias tonalidades, mas sempre com extremidades negras.

• Tordilho - Nasce escuro e vai embranquecendo ao longo dos anos.

• Pampa - Alazão, castanho ou tordilho, com manchas brancas distribuídas por todo o corpo.

O período de gestação é de 11 meses na égua e 12 meses na jumenta, com o nascimento geralmente de um animal. Partos gemelares podem ocorrer, porém não são comuns. O aleitamento materno dura, em média, 6 a 8 meses.

A puberdade ocorre por volta de um ano de vida, sendo que os animais não devem ser utilizados na reprodução antes dos 24 meses. Com 5 anos, quando da troca completa da dentição decídua pela permanente, atingem a maturidade fisiológica. O início da senilidade é variável, mas em geral ocorre por volta dos 18 anos. Dependendo da raça, manejo e ambiente, o cavalo tem uma expectativa de vida de 23 a 30 anos.

A população estimada de eqüinos no Brasil é de 6 milhões de cabeças, das quais 500 mil são "consumidoras" de ração, medicamentos, manejo intensivo. Os demais são cavalos de trabalho, principalmente nas grandes fazendas de pecuária. Não há dados disponíveis sobre a população de cavalos de trabalho nas cidades ou periferias.

Para que o manejo de cavalos seja desenvolvido com segurança e eficiência é de fundamental importância que os profissionais que atuam nessa área possam compreender melhor esses animais. Se "gostar de cavalos" é um pré-requisito desejável, a motivação é indispensável, o que depende, entre outros fatores, de se desenvolver certaempatia com eles.

O trabalho do profissional que atua na área de saúde coletiva envolve conscientização da população, que se dá também por meio de atitudes adequadas, exemplos corretos que são dados ao se manejar os cavalos com conhecimento, técnica e sensibilidade. Não é a toa que, no linguajar popular, "ignorância" seja sinônimo de "violência", cujo antídoto está no conhecimento: "a violência começa onde o conhecimento termina". É aconselhável eliminar os termos comumente utilizados, tais como "bruto como um cavalo", "cavalão", "dando coices pra todo lado" etc.

Entender que os cavalos são criaturas delicadas, sensíveis e medrosas já é um progresso. Nem se trata de "sentir carinho" pelo cavalo; o manejo correto dos animais é mais do que justificado pelo fato de que um animal de 400 quilos, quando sente pânico e dor, representa risco de vida para todos à sua volta. Mantê-lo calmo e confiante é vantagem para todos os envolvidos. Para tanto, o estudo e a compreensão da psique dos eqüídeos são instrumentos fundamentais.

 

O que um cavalo precisa?

No Brasil vivem cerca de 6 milhões de cavalos. À primeira vista, os "cavalos de luxo" das hípicas e dos "jockeys clubs" parecem os mais afortunados. No entanto, as suas condições de vida podem ser as mais afastadas das necessidades e do comportamento natural da espécie, e algumas doenças destes eqüinos refletem isto. De cólicas fatais a claudicações incapacitantes, incluindo neuroses de toda espécie, as doenças típicas dos cavalos confinados demonstram que maus-tratos causados por seres humanos podem assumir formas bem mais sutis do que submeter os animais a surras e privações. Há que se evitar a visão antropocêntrica de que o luxo, porém com enclausuramento, confere bem-estar a esses animais.

A evolução da espécie humana traz aos seres humanos o desejo de "cavernas aconchegantes", alimento rico em refeições regulares e a possibilidade do ócio criativo. Já os eqüídeos evoluíram para to caminham, por até 20 horas diárias. Como têm estômago pequeno, precisam se alimentar aos poucos; desta forma, estão sempre pastando.

Oito horas seguidas de sono são, para eles, uma impossibilidade fisiológica. Espaço fechado é claustrofóbico, pois sua sobrevivência está diretamente relacionada à rapidez de seus reflexos e sua velocidade de fuga. Para um cavalo, o isolamento de outros animais, em especial os da própria espécie, representa risco de vida, pois durante 60 milhões de anos o eqüídeo solitário foi uma presa preferencial dos predadores. Espaços abertos, a busca por alimento, outros eqüinos por perto, é o que se deve oferecer aos cavalos para proporcionar-lhes saúde e bemestar físico e psicológico.

Explorar de maneira violenta a força de trabalho de um eqüídeo, principalmente quando magro e doente, é cruel, mas também confinar em uma cocheira um cavalo obeso e ao mesmo tempo fornecer-lhe quantidade excessiva de cubos de açúcar, por exemplo, ou colocar-lhe um cabresto importado e exclamar "eu amo meu cavalo!" é também uma crueldade, por não ser percebida como tal pelos leigos da matéria.

Ao profissional que atua no manejo de cavalos cumpre desenvolver empatia com a "forma eqüídea" de ver o mundo e atuar de acordo com ela, para conseguir mudanças na atitude das pessoas responsáveis por cavalos. Por isso, conhecimento básico de comportamento e das necessidades destes animais é fundamental para que desenvolva suas atividades de forma adequada.

 

Características da mente dos eqüinos

a) Todo cavalo busca conforto e segurança. Além de movimento, pastejo, companhia, isto significa "alívio de pressão". Por exemplo, quando se segura um cavalo no cabresto, deve-se parar de puxar o cabo assim que o cavalo se sujeitar e ficar imóvel, ensinando-lhe assim que a obediência significa conforto (ausência de tração no cabo). Quando se continua a puxar o cabo depois que o cavalo está imóvel, a obediência provoca desconforto. Isto será o gatilho do mecanismo de "fuga ou luta", desencadeado pela mensagem incorreta enviada ao animal.

b) Fuga ou luta - A primeira reação de um cavalo frente ao perigo é fugir. O instinto de luta é acionado apenas quando a fuga é impossível. O cavalo que vai para o confronto já está estressado. Segurança para os cavalos significa amplos espaços abertos, enquanto o confinamento em cocheiras, trailer ou cordas representa para eles um perigo de vida. É possível não condicionar este comportamento instintivo do animal por meio de um trabalho calmo e progressivo.

c) A resposta condicionada é muito forte nos cavalos e é ela quem possibilita a utilização dos cavalos para os fins que o ser humano determina. Os eqüídeos não questionam situações e a domesticação limitou seus instintos de preservação. Um exemplo fácil de entender é o "cabresto de barbante". Um cavalo domesticado aprendeu que deve se sujeitar à contenção por cordas, cabrestos etc.; isto é uma resposta condicionada. O cavalo não raciocina que um cabresto feito de barbante fino não representaria nenhum empecilho físico para a sua liberdade, uma vez que poderia rompê-lo com pouquíssimo esforço. Um cavalo bem domado pode morrer de fome e sede se for abandonado à própria sorte contido por um "cabresto de barbante", atado em um palanque. Pelo condicionamento mental a que foi submetido, o cavalo entenderá que "esta corda significa que não posso me mexer". O ser humano é sempre o responsável pelo bem-estar dos animais domesticados.

d) Na sociedade eqüídea, existem apenas indivíduos superiores e inferiores do ponto de vista hierárquico. Quem não se afirma como superior está declarando sua condição de inferior. Numa manada, ter um líder fraco torna o grupo vulnerável ao ataque de predadores. Na domesticação, o cavalo aprende a aceitar o homem como hierarquicamente superior. Uma liderança humana fraca, seja por características pessoais do "líder humano" ou por desconhecimento que ele tenha destes fatos, causará estresse entre os cavalos. Os cavalos de personalidade mais dominante disputarão a liderança com a pessoa, às vezes sem que ela entenda o que está acontecendo. Um exemplo é a pessoa circulando em volta de um cavalo imóvel, tentando capturá-lo. Desta maneira, a pessoa está se declarando hierarquicamente inferior ao cavalo, que poderá disputar a liderança.

e) Os cavalos têm memória associativa muito ativa, que é a base de seu mecanismo de aprendizado. A associação ação/reação preci-sa ser imediata. Se for necessário repreender um cavalo por um erro, é importante que isto ocorra no instante em que o problema aconteceu. Também um elogio por bom comportamento tem de ser imediato - e o melhor "elogio" é o alívio de pressão no cabo do cabresto mencionado anteriormente. Por exemplo, "acalmar" e agradar o cavalo que se recusa a subir no trailer pode ensinar ao animal que empacar na rampa é a atitude que se espera dele. Por outro lado, bater no cavalo que acabou de dar um passo rampa acima, "para que ele suba logo", é entendido pelo cavalo como "apanhei porque dei um passo" e isso pode fazer com que a atitude do animal mude imediatamente e ele pare. O correto é repreender o cavalo imóvel e elogiá-lo assim que ele der um mínimo que seja da resposta desejada.

f) Um cavalo tem três razões básicas para não fazer aquilo que dele se espera:

Não conseguir - Quase sempre uma razão física. Por exemplo, estar fraco demais para escalar um barranco.

Não entender - Quase sempre relacionada a deficiências técnicas, ou seja, treinamento insuficiente. No exemplo anterior, um potro pode ter força física para escalar o barranco, mas não aprendeu ainda que a tração no cabresto (ou o comando de pernas, no caso de um animal montado) sinaliza a ordem para subir no barranco.

Não querer - De origem emocional, é a mais complicada de corrigir. É o caso dos cavalos com neuroses, agressivos, em pânico etc. O cavalo teria condições físicas de subir no barranco, entende o que se pede, mas não quer fazê-lo. A correção não passa por soluções físicas (ração, medicamentos) nem técnicas (doma e treinamento), e sim pelas emocionais (motivação). Estas soluções são aprendidas no convívio cotidiano com cavalos.

 

A socialização dos potros

Os distúrbios de comportamento em eqüídeos são fontes de perdas tanto materiais como emocionais, e um fator de risco para os seres humanos. O manejo tradicional da égua e do potro aumenta as possibilidades de aparecimento destes distúrbios. Nele, nos primeiros anos de vida, o potro é criado em liberdade, sem contato mais estreito com o ser humano e com as situações que irá enfrentar na sua vida adulta3.

Após o nascimento, da 2ª à 12ª semana de vida, o período da socialização primária é essencial para o desenvolvimento comportamental eqüino, pois é nele que o cavalo estabelece laços sociais com membros de sua própria espécie e de outras4.

A socialização é o processo pelo qual o animal aprende o comportamento social adequado. Por meio das brincadeiras e jogos e das interações com outros seres vivos, o potro aprende as habilidades necessárias, tais como a inibição das mordidas e coices. Para o desenvolvimento de relações sociais apropriadas ao mundo dos seres humanos, nesta fase o potro deve interagir não só com o grupo e com a mãe, mas também com outros animais, com humanos e com situações que para um cavalo não-condicionado parecem perigosas (baia, barulho, embarqueetc.).

Durante este período, o uso de estímulos apropriados pode diminuir traumas, estereotipias e outros problemas comportamentais comuns5,6,7,8.

 

Comportamento social eqüídeo

Os comportamentos sociais começam no nascimento e se tornam mais elaborados à medida que o potro cresce. A hierarquia social já está estabelecida com 15 semanas de idade na maioria dos potros, podendo permanecer estável por vários anos, com pequenas flutuações devidas à raça ou ao ciclo reprodutivo. Por isso, ações que visem modificar a hierarquia social devem ser iniciadas antes das 15 semanas de vida2,8 .

Na vida em grupo natural os eqüídeos têm um líder que impõe regras de conduta, evitando desperdício de energia em confrontos. O líder determina graduações na hierarquia por sinais e atitudes; lutas só acontecem em último caso, em geral pela disputa da liderança. A vantagem evolucionária deste tipo de organização advém do fato de que quando os animais brigam, machucam-se; e qualquer membro debilitado diminui as chances desobrevivênciado grupo3,8 .

O tempo todo, os animais recebem e passam informações uns aos outros a respeito de quem é o líder e de quem é subordinado. Desde potros, brincam de disputar a liderança entre si. É assim que aprendem a controlar a força de suas mordidas e coices, a se comportar e a se relacionar. Quando um potro é separado da mãe ou isolado muito cedo, ocorrem dificuldades no convívio social com outros cavalos e também com o ser humano9,2.

Entender como funciona a linguagem eqüídea proporciona uma compreensão fundamental sobre os animais, o que amplia a percepção de como eles de-vem ser educados e treinados. Assim, percebem-se os erros mais comuns no treinamento de cavalos: não assumir a liderança ou, até sem querer, sinalizar para o animal a informação de que ele é o líder do grupo. Com o conhecimento do desenvolvimento comportamental eqüídeo há mais chances de evitar a antropomorfização7,8 .

Períodos do desenvolvimento eqüídeo

a) Período neonatal - Abrange desde o parto até aproximadamente duas horas de vida ou até completar a primeira mamada. O comportamento da mãe nesse período é mais intenso, para facilitar o imprinting*,10 e a formação do vínculo com o potro11,13. O vínculo formado entre mãe e filhote serve para reconhecimento e proteção da espécie. Para que o período neonatal se complete, o potro tem de se recompor no chão, levantar e estabilizar-se nas quatro patas, movimentar-se (andar), estabelecer vínculocom amãe, procurara teta e mamar11,3 .

b) Período de transição - Dura em média duas semanas. As mamadas têm duração de aproximadamente um minuto, o intervalo entre elas é de 15 minutos, sendo interrompidas pela mãe. O potro reconhece a mãe por meio do olfato. Nesse período, ocorre o maior desenvolvimento sensorial, no qual o potro aprende estratégias de comportamento por meio das reações da mãe (exemplo: fuga). Ocorre também a toalete mútua (toalete social) entre mãe e filhote. A vivência de experiências boas nesse período é fundamental3,4.

c) Período de socialização primária - Da 2ª até a 12ª semana de vida. Com respeito às relações sociais, é operíodomais importante na vida do potro.

Interação com a mãe: a capacidade de reconhecer a mãe deixa de ser somente pelo odor, evoluindo para distinção de cor da pelagem e também pela voz da égua ao chamar o potro.

• O potro começa a interagir com outros membros do grupo, tomando a iniciativa de ir ao encontro dos demais. Apresenta comportamento de ranger os dentes e carícias mútuas. É quando ocorre a "mímica de submissão", movimentos de abrir e fechar a boca. Além disso, as habilidades motoras amadurecem, o sistema nervoso se aproxima dos padrões adultos e tem início o aprendizado estável.

• A coprofagia nesse período é considerada normal. O potro ingere pequenas quantidades de fezes de sua mãe, estimulado por um feromônio presente nas mesmas. Assim, ele recebe vitaminas e minerais que podem estar faltando em sua dieta, além de aprenderem a pastar seletivamente. Este comportamento é visto com mais freqüência nas primeiras semanas de vida e pode persistir até 5 ou 6 semanas de idade3,4,11 .

Jogos: neste período, as brincadeiras com outros potros são fundamentais para o aprendizado do comportamento social. Quando os potros machos estão juntos são briguentos e ensaiam confrontos: empinam para dar manotadas, tentam morder o pescoço do companheiro, ajoelham-se e agarram-se aos posteriores, perseguem mordiscando a garupa do outro. As fêmeas (potrancas) não são tão briguentas quanto os machos, utilizando mais os posteriores, ensaiando coices, saltos; aproximam-se,recuam e perseguem12,4,9.

Relação com outras espécies: a partir de 3 a 5 semanas de idade, os potros abordam ativamente pessoas e objetos estranhos. Imediatamente depois disso, começam a evitar estranhos, comportamento que atinge um pico entre 12 e 14 semanas de idade. A esquiva pro-gressiva ajuda a proteger o animal de predadores, mas pode interferir no estabelecimento de relações normais com seres humanos4,7,8.

Isolamento e traumas: os potros que ficaram isolados de seres humanos até 14 semanas de idade podem apresentar desconforto permanente na presença de pessoas, evitando interações e agindo medrosamente. Experiências emocionais fortes, tal como a separação da mãe ou do grupo, podem levar a sérios traumas. Estes episódios podem levar à perda do processo de socialização13,4,7,8 .

d) Período juvenil - Vai da 12ª semana de vida à maturidade sexual. Os comportamentos adquiridos durante a socialização primária precisam de reforço durante este período. A exploração ambiental aumenta durante o período juvenil e se o animal não tiver sido criado entre pessoas, manifestará atitudes de esquiva frente a elas. A capacidade de aprendizado básica está bem desenvolvida e a velocidade do aprendizado condicional começa a diminuir4,8 .

e) Período adulto - A idade adulta começa na puberdade3,4 .

 

Problemas comportamentais

Se o convívio do cavalo com o ser humano trouxe tantos benefícios a este, para o animal esta relação não foi tão vantajosa assim. Para estar sempre à disposição de uso para o ser humano, os cavalos são submetidos a estresse e sofrimento que podem gerar mudanças em seu comportamento natural, ocasionando desde alterações psicológicas até problemas de saúde3. Todos estes problemas têm duas causas básicas: comunicação deficiente entre ser humano e cavalo e manutenção dos animais em ambiente inadequado.

a) Comunicação deficiente

Refere-se ao poder de convencimento que o homem exerce sobre o cavalo em fazer com que o animal lhe obedeça no momento certo e da maneira correta.

O tempo todo é necessário se comunicar com os cavalos, desde a primeira tentativa de aproximação até os exercícios e ordens específicas, tais como subir em um trailer, saltar um obstáculo, cercar um novilho, puxar uma carroça etc. Isso pode se tornar um problema quando a comunicação interespécies deixa de levar em conta que o ser humano tem predominantemente uma linguagem verbal e o cavalo, uma linguagem corporal. Para os cavalos, as atitudes e a postura corporal valem muito mais que palavras e sons3,4 .

Uma das características mais importantes de um treinador ou domador está na sua capacidade de se comunicar com o animal. O ideal é que esta comunicação seja clara, simples e eficiente, conquistando a confiança do cavalo e criando um mecanismo motivacional para a realização das tarefas. A utilização de argumentos violentos, que podem vir a "quebrar" a integridade física e mental do cavalo, é ultrapassada e errada, além de também constituir risco de vida para a pessoa que emprega esta violência.

Animal medroso, agressivo, que desrespeita o espaço humano, que empina, que não se deixa ser pego, que não vira e não pára com eficiência são alguns exemplos dessa falta de comunicação entre o homem e o cavalo. Quanto mais se conhece a linguagem eqüina, melhores resultados serão obtidos e menos traumas serão causados.

b) Ambiente inadequado

A segunda causa está relacionada ao ambiente em que se colocam os cavalos para viver. Na natureza estes são animais de vida livre, que têm hábito alimentar contínuo e constante e vivem sempre em contato com os seus2,3 .

Isso significa que o modo tradicional de mantê-los em cativeiro está equivocado, pois a maioria das instalações existentes confina os animais em baias individuais com pouco espaço físico. São quase sempre alimentados com excesso de concentrado (ração) e falta de volumoso (gramíneas), e sem um esquema de atividades, exercícios e trabalho adequados que possam suprir sua necessidade de locomoção, típica do cavalo.

O bem-estar dos animais está relacionado à disponibilidade de recursos ambientais que permitam ao animal realizar seu comportamento natural espécie-específico14 .

 

Vícios de comportamento

Diante de tantas alterações em seu ambiente, os cavalos acabam modificando o seu comportamento. As estereotipias, também denominadas de "vícios de cocheira", comparáveis ao transtorno obsessivo compulsivo (TOC) humano15, são claras manifestações de desconforto por parte dos animais.

Nos corredores de algumas hípicas é bastante comum ver cavalos comendo madeira, oscilando de um lado para outro, comendo suas próprias fezes (coprofagia), engolindo ar (aerofagia), tudo isso de maneira involuntária e sem um objetivo aparente. Na verdade, estes distúrbios não acontecem à revelia, passam por um processo evolutivo denominado emancipação da estereotipia, no qual o animal inicia estes comportamentos em função de um ou vários fatores estressantes. As estereotipias continuam presentes mesmo quando os fatores estressantes originais são remo-vidos ou atenuados3.

É importante lembrar que estes movimentos e comportamentos são tentativas de adaptação ao meio que lhe foi imposto, pois o animal tenta fazer dentro da baia o que faz na natureza, adaptando seu comportamento diante de necessidades biológicas importantes (movimentação, alimentação constante etc.).

Um erro bastante comum é tentar inibir as estereotipias com uso de focinheiras, peias para impedir o animal de oscilar, coleiras para evitar a aerofagia etc. Desta maneira, apenas o sintoma do problema é impedido de se manifestar, porém a motivação para realizá-los continua, uma vez que nada no ambiente foi modificado para melhorar o bem-estar do cavalo.

Estudo recente aponta um índice de mais de 40% dos animais criados em sistema intensivo apresentando distúrbios comportamentais. Relatou-se, também, que eqüinos com problemas comportamentais têm 4,8 vezes mais chances de apresentar episódios de cólica16 .

Para tentar amenizar os problemas já existentes e impedir que novos ocorram, deve-se evitar o estresse ambiental oferecendo um entorno apropriado e propiciando espaço compatível para expressão de comportamentos naturais (deitar, levantar, andar, pastejar) e instalações que promovam ou facilitem o enriquecimento ambiental.

Segundo Paloma Lucin Bosso14, o enriquecimento ambiental é o "processo em que um ambiente mais complexo e interativo é criado para melhorar a qualidade de vida dos animais mantidos em cativeiro, permitindo que assim eles possam apresentar comportamentos mais naturais de sua espécie. Na prática, o enriquecimento ambiental consiste na introdução de variedades criativas nos recintos, a fim de contribuir com o bem-estar dos animais cativos".

O enriquecimento ambiental é um processo dinâmico que resulta da integração de táticas que ofereçam condições próximas ao ambiente natural. Visa gerar estímulos que motivem a expressão de comportamentos e atividades próprias da espécie, tendo como resultado a sensação de conforto e permitindo, tanto quanto possível, que cavalos possam ter cada vez mais vida de cavalo.

Este texto foi elaborado a partir do workshop "Manejo de Eqüídeos e Vigilância de Zoonoses", realizado pela Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (CCD/ SES-SP), no período de 6 a 9 de novembro de 2007.

 

Coordenação Técnica

Luciana Hardt Gomes
Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo

Adriana Maria Lopes Vieira
Prefeitura de São Paulo

Ivanete Kotait
Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo

Vania de Fátima Plaza Nunes
Prefeitura de Jundiaí

 

Grupo 1. Recolhimento de Eqüídeos

Claúdia Martins Serra
Projeto Potro

Graciela Naibert Giurni
CRMV Rio Grande do Sul

José Januário das Neves Martins
Prefeitura de Ribeirão Preto

Karime Cury Scarpelli
Prefeitura de Taubaté

Sonia Maria Sodré Cardoso
Prefeitura de São Paulo

Vania de Fátima Plaza Nunes
Prefeitura de Jundiaí

Vinicius Suehiro Tsutsui
Prefeitura de São Paulo

Wesley de Matos Pereira
Prefeitura da Estância de São Roque

 

Grupo 2. Guarda de Eqüídeos em Unidade Municipal e Destinação de Eqüídeos pelo Serviço Municipal

Cintia Fonseca
Projeto Anjo dos Cavalos, apoiado pela ONG Quintal de São Francisco e Sozed/SP

Cristiano Menandro
Projeto Potro

Eduardo Rodrigues Oliveira
Prefeitura de Guarulhos

Luis Renato Oseliero
Prefeitura de São Paulo

Maria Cristina Novo de Campos Mendes
Prefeitura de São Paulo

Maximo Machado Lourenço
Prefeituras de Boituva e Tatuí

Renata Grotta D'Agostino
Prefeitura de São Carlos

Rodrigo Cruz
Jockey Club de São Paulo

 

Grupo 3. Principais Zoonoses de Eqüídeos e Vigilância Epidemiológica em Unidade Municipal

Francisco Anilton Alves Araújo
Secretaria de Vigilância em Saúde/Ministério da Saúde

Fumio Ito
Universidade de São Paulo

Ivanete Kotait
Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo

João José de Freitas Ferrari
Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo

Maria Conceição A. Macedo Souza
Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo

Maria Luiza Carrieri
Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo

Nilton Fidalgo Peres
Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo

Vera Lucia N. Gonçalves
Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo

Agradecimentos

A Vania de Fátima Plaza Nunes, Prefeitura de Jundiaí, Adriana Maria Lopes Vieira, Prefeitura de São Paulo, Luciana Hardt Gomes, da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (CCD/SES-SP), e Ivanete Kotait, Instituto Pasteur (IP/CCD/SES-SP), pela revisão técnica do texto.

 

Referências bibliográficas

1. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM nº 1.172/2004. Regulamenta a NOB SUS 01/96 no que se refere às competências da União, Estados, Municípios e Distrito Federal na área de Vigilância em Saúde, define a sistemática de financiamento e dá outras providências. De 15 de junho de 2004. Disponível em: http://dtr2001.saude.gov.br/sas/PORTARIAS/Port2004/GM/GM-1172.htm.         [ Links ]

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Correspondência:
Claudia Leschonski
Rua Salvador Gonzales Rodrigues, 480 Jardim Casa Nova - Capela do Alto
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* O etólogo alemão Konrad Lorenz popularizou o imprinting filial, o processo pelo qual um animal recém-nascido aprende a reconhecer as características únicas de um dos pais, geralmente da mãe. Esse fenômeno foi batizado de imprinting pelo mentor de Lorenz, Oskar Heinroth, que acreditava que o estímulo sensorial com que os animais recém-nascidos se deparavam ficava imediata e irreversivelmente "estampado" (em inglês, imprinted) em seus cérebros. Lorenz demonstrou a idéia com seus famosos gansinhos, que passaram as primeiras horas de suas vidas com ele e conseqüentemente o seguiam por toda a parte. Mesmo adultos, os gansos preferiam a companhia das pessoas à das aves10.