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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.) vol.14 no.1 São Paulo  2012

 

Identidades de gênero: a diversidade de masculinidades e feminilidades em transformação

 

Gender identity: the diversity of masculinities and femininities in transformation

 

Francisco Maciel Silveira Filho

Francisco Maciel Silveira Filho (macielsf@uol.com.br) é psicólogo clínico, mestre em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo (USP) e professorassistente da Universidade Presbiteriana Mackenzie

 


 

RESUMO

O objetivo deste artigo é analisar como as identidades de gênero têm se desatrelado cada vez mais da dimensão sexual, puramente anátomo-fisiológica, passando a ser configuradas de uma forma muito mais fluida e livre do que se poderia supor até alguns anos atrás. Para tanto, analisa-se o filme Tomboy, correlacionando-o com as mudanças cotidianas cada vez mais presentes no que tange à diversidade identitária na atualidade. Em cenários em que sexo, gênero, desejo e prática sexual não são mais marcos regulatórios que têm de estar vinculados e atrelados como amálgamas indissolúveis, novos cenários começam a ser construídos, necessitando ser conhecidos principalmente pelos profissionais da área da saúde.

Palavras-chave: Gênero, Identidade, Masculinidade


ABSTRACT

The aim of this paper is to analyze how gender identities has unleashed more of the sexual dimension, purely anatomical and physiological, going to be configured in a way much more fluid and free than would be expected until a few years ago. For this purpose, we analyze the film Tomboy, correlating it with the daily changes. In scenarios in which sex, gender, desire and sexual practice are no longer regulatory frameworks that must be bound and tied as indissoluble amalgam, new scenarios are beginning built, needing to be known mainly for health professionals.

Keywords: Gender, Masculinity, Identity


 

Estudo relativo às identidades de gênero é algo relativamente novo, data aproximadamente de forma concomitante ao fenômeno relativo aos estudos queer nos anos 1990, e embora academia e sociedade já tenham avançado bastante quanto à sua compreensão, ainda se trata de assunto de difícil assimilação e incorporação nas esferas psíquica, emocional, estética e comportamental.

O ineditismo do tema atrelado à sua importância para o incremento da saúde física e da saúde mental, tão preponderantes à qualidade de vida e dos relacionamentos sociais, é que faz tão necessária sua introdução e absorção pelos universos que de alguma forma se entrelacem à questão da saúde e do bem-estar. Já se faz distante o tempo em que a medicina e as práticas promotoras da saúde desconsideravam o bem-estar afetivo, psíquico e moral dos seres humanos. Nessa medida, a questão da identidade de gênero precisa ser cada vez mais entendida, debatida e incorporada às rodadas de diálogo que se efetuam na atualidade, principalmente quando relacionadas ao universo masculino ainda tão carente de um maior aprofundamento quanto à densidade de uma subjetividade que ainda roga por atenção.

Ao longo deste artigo, discutiremos o motivo pelo qual essa questão ainda se apresenta tão carente de atenção e cuidado e como se faz mister que os profissionais de saúde, independentemente de suas áreas, prestem atenção a essa temática, incluindo-se e sendo incluídos constantemente na pauta dos debates relativos às questões que tangenciam a masculinidade contemporânea.

Embora alguns autores venham se dedicando ao seu estudo, muitos deles ligados ao feminismo e ao movimento queer, grande responsável por muitas das evoluções relacionadas às identidades sexuais e de gênero, pouco material teórico consistente tem sido apresentado, embora congressos e mídia venham se responsabilizando por ventilar o assunto. No momento em que se considera que a ventilação desse assunto ainda se concentra em grande medida nos campos ligados à sexualidade, quando deveríamos apreendê-lo em áreas muito mais amplas como as esferas políticas, culturais e organizacionais, é que percebemos quanto ainda temos que avançar. Filmes também têm contribuído em grande maneira para que o gênero deixe de ser considerado um apêndice do sexo biológico como muitos ainda teimam em considerar. Mas a vida, sempre ela rica e pródiga em nos escancarar aquilo que urge em se mostrar, tem feito sua parte, contribuindo com farto material de análise, demonstrando que por mais que se descuide da questão do gênero no âmbito acadêmico, o cotidiano das ruas, da vida como ela é, como sempre pregou o grande mestre Nelson Rodrigues, segue em mão contrária12.

É, entretanto, das amarras que engessam a construção das identidades, a maioria delas com origem no exercício regulatório do poder, que se abrem os caminhos para o surgimento de identidades sexuais diferenciadas, fato que nos alerta para a possibilidade cada vez mais gritante da nossa própria possibilidade de escolha identitária, concretizando um processo de escolha que é na grande maioria das vezes também um movimento político de exercício perene de autonomia. Nesse caminho novo e rico em múltiplas possibilidades, as discussões, descobertas e reflexões entabuladas pela teoria queer tem contribuído em grande medida com os avanços conquistados6.

A teoria queer, apossando-se de um termo pejorativo americano usado nas primeiras décadas do século passado para se referir aos gays de forma ofensiva, deriva dos estudos culturais americanos e do pós-estruturalismo francês. Capitaneado por autoras do quilate de Vance, Butler, Sedgwick, dentre outras, as discussões queer ganham corpo e forma no final dos anos 80 nos EUA, com o objetivo de criticar as posições que as teorias sociológicas mantêm sobre as minorias sociais e de gênero, tendo por objetivo primordial estudar tudo sobre o processo de estruturação das sociedades sexualizadas12.

A heterossexualidade, estruturada como a hierarquia do pensamento a ser seguido e respeitado, encontra na teoria queer seu contraponto reflexivo. Na contramão do pensamento sexual vigente, os primeiros pensadores queer vão criticar a hierarquia da heteronorma e a força de tal regra responsável pela implementação de uma normatividade heterossexual, valendo-se de um termo que até então sempre teve um caráter negativo. O movimento queer rompe com o pensamento cartesiano, o que permite que uma nova forma de pensar o sujeito se materialize: um sujeito que é cindido, provisório e circunstanciado. Sujeito que não precisa, necessariamente, ser entendido e definido pela oposição àquilo que não se é, regulado pela oposição binária que tanto tem contribuído para a manutenção da entronização da heterossexualidade compulsória. Depois dos estudos de Foucault, Warner desenvolve o conceito de heteronormatividade como sendo o responsável pela constituição da estrutura social, responsável pela regulação de todas as relações sociossexuais. Esta heteronorma busca formar todos os seres humanos para serem heterossexuais ou para se organizarem ao redor da heterossexualidade como se este estado fosse algo da ordem da natureza, consequentemente algo impossível de ser mudado3.

Dois exemplos recentes, um vindo das telas e outro da cena brasileira, servem de exemplo para que possamos contextualizar o que pretendemos expor. Das telas francesas vem o maravilhoso relato da cineasta Céline Sciamma em seu segundo filme, Tomboy (2011). Neste trabalho, mais maduro e menos tendencioso e panfletário que seu filme de estreia, Lírios de água (2007), a cineasta relata a história da pequena Laure, uma menina de 10 anos, loira e diáfana, que a despeito de sua aparente frágil figura nada tem de feminina ou subjugada. Alta, magra, cabelos loiros e muito curtos, sempre vestida de shorts e camisetas, sem vaidades externas aparentes como o uso de adornos (brincos, correntes, pulseiras, esmalte e outros objetos que pudessem revelar uma identidade feminina), a menina, que acabou de se mudar para um novo bairro suburbano em Paris com os pais e a irmã mais nova, é confundida por uma vizinha com quem entabula uma interessante amizade. Lisa, a vizinha amigável e atenta na figura um tanto andrógena da nova pessoa que se lhe apresenta, toma Laure por menino, dúvida que a loirinha não faz nenhuma questão de desfazer. Dizendo se chamar Mickael, Laure é apresentada para todas as crianças do novo condomínio como se fosse menino, o que não causa nenhuma dúvida ou suspeita por parte de ninguém. Muito pelo contrário, Laure/Mickael envolve-se em todas as brincadeiras, sempre com muita energia e disposição, vencendo batalhas e disputas, muitas delas corporais, envolvendo força física em que compete com meninos maiores e algumas vezes aparentemente mais fortes que ela. Numa emblemática cena do filme, quase que um rito de passagem para a personagem de Laure, a menina decide tirar a camiseta para jogar futebol. Se até aquele momento Laure/menina parecesse demonstrar algum pudor quanto à ascensão de sua persona masculina/Mickael, a exposição do torso nu, ainda magro e sem nenhum sinal aparente da feminilidade que ainda submergirá, Mickael parece tomar conta da cena, fazendo gols e levando seu time, que sempre jogara sem camisa para se diferenciar do opositor (embora Laure nunca houvesse tirado a camisa até aquele momento), à vitória. Nesse dia, Lisa, parecendo antever a chave de uma identidade que não se esgota ou se exaure em um molde que se convencionou enxergar como masculino ou feminino, diz para Laure que ela é muito diferente dos outros meninos.

Em outra cena fundamental, Lisa e Mickael estão brincando sozinhas, no que Mickael é surpreendida por um desejo de Lisa em maquiar “o amigo” como se ele fosse menina. Um pouco resistente no início, Laure permite a brincadeira e é surpreendida pela constatação de Lisa que revela que Mickael fica muito bem de mulher. Confusa com essa descoberta, que parece aos seus olhos ser muito mais perturbadora do que o fato de ser tomada constantemente por menino, Laure vai para sua casa com um agasalho de capuz na cabeça, como se precisasse esconder dos outros a verdade biológica que tanto zela por embotar. Quando chega em casa também é surpreendida pela mãe, que fica encantada diante da aparência da menina, a qual está acostumada a sempre ver de forma despojada e informal.

Com base no que o filme nos apresenta, podemos depreender que corpos, tal qual os gêneros (construções sociais sobre as quais se acrescem significados quanto ao que se espera de homens e mulheres em virtude do seu sexo biológico), e por que não os sexos (determinados pela biologia), são construções sociais sobre as quais se aderem distintivos e especificações em decorrência da cultura, dos valores, das sociedades e dos espaços de tempo nos quais são moldados. Em sendo construções, são sempre provisórios, estruturados, entendidos, consumidos e decodificados de acordo com o somatório dos fatores apresentados aqui, devendo ser compreendidos e estudados mais pelos significados culturais e sociais que apresentam e menos pelo caráter biológico tão utilizado como referência para analisá-los. E como já dito, não podemos perder de vista o elo a conectar o processo construtivo de corpos, gêneros e sexos, quase como irmãos de uma mesma linhagem submetida à força e ao exercício do poder que teima em regulá-los. Torna-se impossível falar dessa construção sem recorrer ao minucioso trabalho da linguagem, ferramenta que cria e reflete o que existe, num processo de determinação daquilo que é normal ou anormal em se tratando das categorias mencionadas10,11.

Desse modo, cada vez mais se diminui a importância da biologia nas discussões atinentes ao corpo, para se valorizar um processo de construção que é cultural, social e histórico, sem negar, entretanto, a materialidade dos corpos, dado inquestionável, mas não único nem determinante nas nossas formas de compreender e assimilar os questionamentos e discussões atinentes à corporalidade. Tanto é assim que Foucault, em seus trabalhos, nunca se cansou de apregoar que o controle da sociedade sobre os indivíduos começava por, com e através do corpo apropriado e manipulado como massa de manobra política e social.

Conceber o corpo como um constructo cultural é admiti-lo construído pela e na cultura, além de alterado por ela, acatando as infinitas formas de significá-lo e ressignificá-lo, aceitando que tal estruturação implica, em sua trama, elementos como o sexo, o gênero, a raça, a geração, a classe social. Aprendemos a tratar o corpo em nossa sociedade como algo a ser modelado em função da época e dos modismos de cada período. Na contemporaneidade, desempenho, vigor, status, perfeição e padronização nos criam escravos de modelos inatingíveis, tanto mais fortes e presentes quanto mais buscados7.

Como os gêneros, construções sócio-históricas-culturais em constante mutação, os corpos também se configuram cada vez mais no mundo contemporâneo como algo que está sempre por vir a se configurar, um projeto inacabado que expressa muito da nossa identidade no atual momento em que nos apresentamos e expomos à apreciação pública e privada. Falar em identidade de gênero é necessariamente discutir a questão da corporalidade e do quanto essa materialização do que as pessoas gostariam de ser interfere na saúde física e psíquica de cada um de nós. Saúde que vai além da ausência de doenças classificadas ou catalogadas por manuais ou diretrizes médicas. Saúde entendida como uma consequência da felicidade de poder ser aquilo que se quer, e não necessariamente aquilo que a natureza ditou, pelos grilhões do sexo, um pênis ou uma vagina determinando possibilidades, caminhos e potencialidades de cada ser humano. Afinal, embora haja muitos que ainda duvidem, somos muito mais do que a nossa dimensão anátomo-fisiológica. Dela, inexoravelmente, não escapamos, mas podemos reformulá-la, revisitá-la de modo a torná-la mais condizente com o projeto de vir a ser ao qual nos dedicamos diariamente desde o momento em que passamos a nos entender por seres humanos, agentes sociais em constante mutação13.

Aliás, sem maniqueísmo, é bastante interessante a forma como a cineasta retrata o posicionamento dos pais de Laure diante da realidade apresentada pela menina. Embora não saibam que a filha se passe por menino, o que, quando ocorrer, modificará todo o rumo da história, antecipando catarses imprevistas e indesejadas, não parecem, de modo algum, estranhar a figura andrógena e masculina de primogênita. O mesmo se dá com a doce e esperta irmã mais nova, com a qual Laure tem uma relação de carinho, docilidade e proteção. Fugindo e passando ao largo do estereótipo da “menina Macho”, durona, insensível e pouco afetuosa, nossa protagonista expressa a riqueza humana de apresentar traços e características humanas – que, para além de masculinas ou femininas, são humanas. Alguns patrulheiros mais empedernidos e ciosos da presença familiar constante na rotina dos filhos poderão dizer que essa “confusão’ pela qual passa a menina é resultado das ausências materna e paterna. A mãe enfrenta a terceira gestão que parece ser de risco e exigir alguns cuidados especiais, o que talvez a faça não estar tão presente no dia a dia da menina. O pai, por sua vez, tem que trabalhar dobrado, o que torna sua presença também não tão assídua. Entretanto, a menina se dá muito bem com os pais, em cenas que sempre expressam carinho, atenção e cuidados mútuos.

Cenas que revelam também um respeito imenso pela individualidade na construção de identidades que extrapolem limites estabelecidos pelos ditames sociais vigentes. Em momento algum, até que a confusão gerada pela descoberta da “farsa” (?) apresentada pela menina, vemos os pais de Laure se debatendo, questionando ou penitenciando pelo fato de terem uma filha que embaralha com seu aspecto, gostos, aparência ou preferências o que se espera em decorrência do seu sexo biológico. A serenidade com que lidam com a filha que tem é talvez a base na qual repouse a ousadia da menina em viver uma história diferente daquela que se esperava que vivesse. Ousadia que chega ao ponto de Mickael ser beijado sem esperar por uma cada vez mais interessada Lisa, talvez atraída que esteja por aquela pessoa que se apresenta tão complexa e diferente, tão intensa e em ebulição. E aquele beijo roubado se repete uma vez mais, materializando um interesse pré-adolescente que o cinema poucas vezes se responsabilizou por mostrar.

Haverá aqueles que dirão: loucura, uma menina se fazer passar por menino, sustentar essa situação sem que ela desperte nenhuma desconfiança! Nise da Silveira, psiquiatra brasileira, revolucionária no tratamento da arte como forma de aprofundamento e acesso ao inconsistente dos ditos “loucos”, sempre combateu essa expressão, alegando que não se atrevia a definir a loucura. Loucura aos olhos de quem, pergunto, baseado em que parâmetros ou referenciais? Loucura como conceito que aprisiona e engessa, atormenta e apavora. Loucura como mecanismo a exercício de um poder que pretende estigmatizar de forma diretiva o que pode ou não em função de uma genitália que se faz cada vez menos reveladora e determinante.

Certa vez, minha filha, que na época tinha por volta de seis anos, lançou-me a seguinte pergunta: “Papai, menino usa batom?” Pego de surpresa, ativei meus sensores, e na rapidez que me foi possível disse a ela: “DEPENDE!” E realmente depende, pois há meninos que usam porque gostam, outros que precisam como necessidade de sua profissão (artistas, jornalistas na TV, palhaços de circo etc.) e outros tantos que o fazem ocasionalmente. Sempre que cito esse exemplo em sala de aula, pois sou professor, ainda há aqueles que dizem: “Mas como assim, menino não PODE usar batom!” Ao que retorno: “De que menino estamos falando?” Há uma única categoria de meninos, um gesso, um molde, uma mortalha que dê conta de representar todos os meninos do mundo? Há esse padrão único para todas as mulheres ou homens? Por favor, NÃO! E discussões nesse sentido se fazem cada vez mais necessárias, pois as singularidades são cada vez mais prementes e importantes.

Quando a irmã mais nova de Laure descobre o segredo da irmã, justamente porque Lisa vai à casa das garotas para chamar Mickael para brincar, um respingo do peso da realidade parece recair sobre a garota. A irmã mais nova, ciente da “inadequação” daquilo que a irmã mais velha parece fazer, dispara a pergunta: “Mas por que você está fazendo isso?” Pergunta sem resposta, e quantas não são as perguntas para as quais não temos respostas prontas, elaboradas, escoradas naquilo que os sinais externos nos apresentam. Laure coopta a irmã mais nova, trazendo-a para seu lado com a proposta de recompensar seu silêncio, levando-a diariamente para brincar com o grupo de amigos mais velhos, coisa que vinha evitando desde que haviam se mudado para o bairro. E a partir desse momento, passamos nós, espectadores e cúmplices de Laure em sua encarnação masculina, a esperar o momento em que a revelação dessa ousadia exigirá de todos um posicionamento, reconfigurando um tabuleiro e constante transição. Várias são as vezes em que Laure pede à sua irmã mais nova que tome cuidado e seja discreta. Muitos são os momentos em que quase temos certeza de que o segredo escapará da boca da [esperada] menina. Mas isso não ocorre, e o segredo não vem à tona dessa forma.

É a ousadia de Laure, sua segurança no exercício do seu papel masculino, que acaba por revelá-la. Em uma manhã de brincadeira, um dos garotos do grupo briga com a irmã de Laure. Tomando as dores da irmã, Mickael parte para cima do garoto e o machuca. A irmã mais nova não se cabe de contentamento pelo fato de Laure tê-la defendido com tanta ênfase, chega a dizer na mesa do almoço em casa que adora um novo amigo chamado Mickael, tão corajoso e legal.

Mas as implicações dessa briga não pararão no contexto infantil das brincadeiras das crianças. A mãe da criança agredida por Mickael vai à sua casa pedir explicações aos pais do “menino”. Quando a mãe de Laure atende a mãe da vítima é que toda a história vem à tona. Confrontada por uma realidade para a qual não tem respostas ou soluções (cada vez mais nos deparamos com essas ciladas para as quais não há formatações já usadas que sejam eficazes), a mãe da menina não vê saída que não seja a de revelar a todos a verdade biológica que tanto Laure tentou esconder. Desvela-se de forma crua, sob todos os protestos da menina, um existir identitário que buscava a possibilidade de se apresentar para além e independentemente do sexo biológico e do quanto este pode ser aprisionador.

Arrastada, literalmente, pela mãe pelos corredores do condomínio em que vive, Laure vai à casa do garoto em que bateu e da amiga Lisa para que se revele o que até ali não apresentava nenhuma desconfiança. A mãe inclusive pede a Laure que não a leve a mal, mas diz que essa revelação é fundamental, que a menina não pode continuar vivendo essa farsa. FARSA?

Não precisamos exercer de forma intensa nossa imaginação para depreender o que se segue. As crianças, não acreditando no que havia se passado até então, expõem Laure à humilhação de ter que revelar seu sexo biológico para que comprovem a farsa. Lisa se mostra confusa diante de uma pessoa que talvez seja outra e que de certa forma e em sua perspectiva traiu sua confiança (o que é fato). Laure se afasta do grupo, envergonhada e sem saber como contornar a situação que parecia tão agradável e prazerosa até aquela briga. E se talvez não houvesse tanto da ousadia e do destemor associados ao universo masculino! Teria Laure/Mickael destino diferente?

O filme, de modo esperançoso, termina com a imagem de Laure junto aos pais, irmã e ao novo irmão, em paz e harmonia, sem demonização ou execração em virtude dos desencontros vividos pela menina. Logo depois disso vemos Laure e Lisa voltando a se encontrar nos jardins do condomínio, diante da seguinte pergunta de Lisa para Laure: “Quem é você?” E há resposta para essa pergunta? Sabemos nós quem somos? À queima-roupa? Sabemos quem somos ou sabemos daquilo que precisamos apresentar aos outros na tentativa desesperada de dar aos outros aquilo com que estão acostumados a se contentar.

Nesse ponto da nossa narrativa nos deparamos com o cartunista brasileiro Laerte Coutinho, que agora começa a se apresentar em toda e qualquer situação vestido de mulher, embora sem tentativa de mudar de nome ou sexo biológico. Aquilo que Laerte começara a fazer poucos anos atrás, vestindo-se esporadicamente de mulher em algumas situações, passa a se constituir a rotina do cartunista, trazendo mais uma vez à baila a tão confusa questão da identidade de gênero. Não a identidade sexual, que se viabiliza (será?) pela mudança de sexo, não a orientação sexual (a dimensão do desejo que nos impulsiona) nem a prática sexual (a materialização do sexo de forma harmônica ou não ao desejo). Falamos aqui eminentemente da questão da identidade de gênero, conceito novo como vimos, que embora carente de mais esclarecimentos e explicações, não pode ser adequadamente compreendido sem que se entabulem suas relações com dimensões tão preponderantes como o sexo, o desejo, o poder e a prática sexual.

Se sexo é a dimensão anátomo-fisiológica, pênis ou vagina, ou ainda ambos os sexos conjuntamente, gênero é uma construção sócio-histórica atrelada às ideias do que concebemos como masculino ou feminino. Ambos os conceitos são bastante diferentes da questão da orientação sexual e da prática sexual, com as quais constantemente é confundido.

Ao nos depararmos com casos como o de Laerte, como o de garota(o) de Tomboy>, como não ampliar fronteiras e reflexões?

Quando assimilamos a existência de homens cada vez mais vaidosos, enfeitados, com pulseiras, brincos, roupas coloridas, cortes de cabelo inovadores, corpos transmutados, adornos mil a enfeitar existências que durante tanto tempo foram monocórdias por imposição sociocultural; quando vemos mulheres fugindo do padrão girly ao qual foram engessadas por uma cultura que sempre as vinculou à necessidade de uma estética vistosa, arrumada e vaidosa; quando vemos meninas fazendo judô, futebol, cortando o cabelo ao estilo “Joãozinho”, mas pintando as unhas, cada qual de uma cor, aparecendo com namorados em casa, garotos aos quais elas mesmas pediram em namoro, como vivenciei com minha filha de nove anos trinta dias atrás, é que nos damos conta de como as questões atreladas à identidade de gênero estão avançando, mesmo que não nos demos conta disso. Lufadas de modernidade que nos fazem avançar e respirar aliviados diante de algemas que se quebram ante a possibilidade de existir tal e qual se é, com todas as suas dores e delícias, como já cantaram muitos músicos e compositores de forma muito mais poética e pertinente que a minha. Que nos juntemos à delícia que é ser o que se é, diverso e mutante, independentemente do sexo que se tenha.

Por mais que avancemos, por maiores as modificações sociais vivenciadas, há ainda uma tendência enorme em tentar adequar sexo biológico, gênero, desejo (orientação sexual) e prática sexual (materialização do ato sexual) como se essa equação tivesse que seguir a lógica da heterossexualidade normativa: sexo masculino, gênero talhado como masculino (valentia, força, vigor, agressividade, intolerância, ausência de duvidas etc.), desejo por mulheres e prática sexual com mulheres. Essa equação seria o êxtase para a sexualidade heteronormativa. Mas ela não é uma possibilidade para todos de forma igual e indistinta. Em muitas das vezes, nosso desejo segue caminhos aos quais não conseguimos deliberar; o mesmo dizemos em relação ao nosso sexo biológico, o qual não escolhemos2,3.

Laerte, o cartunista, Laure/Mickael, personagem do filme discutido, minha filha, eu, quem sabe todos nós, estejamos somente à procura de um lugar ao sol no qual possamos existir para além das regras e moldes durante tanto tempo impostos como única forma possível de ser e se apresentar em sociedade. Ser o que se é! Simples e complexo assim. Se este artigo ajudou na reflexão do que seja identidade de gênero, da importância da desconexão naturalizada do sexo x gênero x desejo x prática sexual e da importância da construção dos corpos como forma de expressão das identidades de gênero, um bom caminho já teremos percorrido.  

 

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