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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.) vol.13 no.2 São Paulo out. 2011

 

Corpos na prostituição: práticas de saúde

 

Bodies in prostitution: health practices

 

 

Elisiane Pasini

Elisiane Pasini (lispasini@themis.org.br) é Doutora em Ciências Sociais – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Coordenadora Geral da Organização Não Governamental Themis Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero (Porto Alegre – RS).


RESUMO

Neste artigo refletirei sobre a atividade da prostituição de mulheres e, ao mesmo tempo, refletirei sobre concepções e agenciamentos de saúde, seus corpos e suas práticas. Levanto questões para uma reflexão sobre a maneira como as prostitutas com quem convivi expressavam práticas de saúde na organização da sua profissão, bem como, na divisão entre sua vida pessoal e profissional, a partir de minhas pesquisas em ruas centrais de Porto Alegre - RS, na Região da Rua Augusta de São Paulo – SP12 e na Vila Mimosa, localizada no centro do Rio de Janeiro – RJ16,17.

Palavras-chave: Prostituição; Gênero; Sexualidade


ABSTRACT

In this article I will reflect about the women’s prostitution activity and, at the same time, I will reflect about health conceptions and policies, their structures and practices. I raise questions for a reflection involving the way in which the prostitutes with whom I have been acquainted expressed their health practices in their professional organization as well as in their personal lives. The work is based on my research in the central streets of Porto Alegre – RS, in the Augusta Street area, in the city of São Paulo12 and in Vila Mimosa, in the center of the city of Rio de Janeiro16,17.

Key words: Prostitution; Gender; Sexuality


Ao longo dos últimos anos, tenho me debruçado a estudar o tema da atividade da prostituição, a partir de pesquisas etnográficas em diferentes universos: em ruas centrais de Porto Alegre – RS, na Região da Rua Augusta de São Paulo – SP12 e na Vila Mimosa, localizada no centro do Rio de Janeiro – RJ16,17.

Apesar das especificidades de cada uma das pesquisas, sempre tive como principal preocupação discutir os sentidos de gênero e das sexualidades entre os sujeitos sociais que compõem o mundo no exercício da prostituição. Apesar do tema da saúde não ter aparecido como tema central, foi um tema com que estive impulsionada a dialogar. As prostitutas com quem convivi expressavam práticas de saúde na organização da sua profissão da prostituição, bem como, na divisão entre sua vida pessoal e profissional, temas que fizeram parte dos meus estudos.

Neste artigo, refletirei sobre alguns dados, análises e provocações a respeito da atividade da prostituição de mulheres e, ao mesmo tempo, sobre concepções e agenciamentos de saúde, seus corpos e suas práticas. Mais especificamente, terei como base das discussões propostas dados coletados para minha dissertação de mestrado, realizada entre os anos de 1998 e 1999. Acredito que, mesmo que essa pesquisa esteja datada, seus escritos permanecem atuais, construtores e desafiadores para os estudos de gênero, de sexualidades e da atividade da prostituição.

A pesquisa realizou-se na rua, um espaço preciso onde a prática da prostituição acontece em um tempo específico de ocupação. Em outros horários, as ruas que pesquisei, como ambientes sociais, são constituídas por outras pessoas e por outras práticas. Assim, é nessa parcela de espaço re-significado pelo período de tempo e da prática da prostituição em que concentrei a pesquisa. Durante o trabalho de campo, conheci cerca de quarenta prostitutas, as quais transitavam de um ponto para outro ponto, conversei com cerca de vinte, mas, para fins de delimitação, o trabalho se ateve à análise das informações de treze delas. Eu convivi intensamente com as mulheres pesquisadas, observando além do discurso, suas práticas, em uma parcela da vida cotidiana, para então coletar o máximo possível de dados referentes ao grupo e dessa forma “captar” a particularidade do contexto estudado.

Uma das principais especificidades no trabalho do antropólogo é o tipo de material produzido no e através do campo; um trabalho que requer um envolvimento de longo prazo, em que a participação e a contextualização são elementos fundamentais. Os dados coletados nos possibilitam “... pensar não apenas realista e concretamente sobre eles, mas, o que é mais importante, criativa e imaginativamente com eles”8. Isto não significa que o antropólogo terá a realidade daquelas pessoas, mas antes uma interpretação de uma realidade, “o que chamamos de nossos dados são realmente nossa própria construção das construções de outras pessoas”8. Dessa forma, permanecia horas compartilhando do espaço da rua, quando elas estavam a espera de seus possíveis clientes, em festas, em tempos inusitados... Em todo o tempo, estive preocupada em diferentes experimentos etnográficos, em fazer perguntas, em ter coragem de não me satisfazer com algumas respostas, em escapar de respostas binárias, em escutar e observar os silêncios, as lacunas, aos barulhos, as caminhadas sem rumos, à noite, aos cotidianos comuns. Reforço, assim, o intuito que sempre acompanhou a pesquisa: realizar uma análise interpretativa através de etnografia que estaria calcada em uma interação entre a pesquisadora e as pesquisadas.

Corpos na prostituição

A maneira como as prostitutas com quem convivi, durante meu trabalho de campo, elaboram e vivenciam a prática da prostituição pode ser compreendida através de regras estabelecidas nos pontos – termo usado pelas prostitutas para denominar o lugar onde permanecem quando estão na atividade da prostituição – e nas relações com os clientes. Vamos a elas: o tipo de roupa, a maquiagem, a abordagem ao cliente, o tempo e o valor cobrado no programa e as ofertas de serviços. E as regras na relação com o cliente: limitar o tempo, não beijá-lo, não deixá-lo encostar em seus seios, não fazer sexo anal, não gozar, não dormir com ele, usar preservativo nas relações sexuais e cobrar pelo programa. A compreensão dessas regras é fundamental, pois, inscritas nos corpos, darão visibilidade tanto para sua performance na prostituição como para distinções em suas relações sociais. Essas mulheres organizam suas relações na prostituição e fora dela, justamente porque essas regras são constituídas a partir de diferenças entre as práticas realizadas com os clientes e com os não clientes. São os corpos dividindo esses dois mundos. Nesse sentido, cabe analisar como esses corpos que realizam a atividade da prostituição expressam diferentes práticas e indicam a diversidade sobre suas relações sociais.

Inspirada no autor Csordas5, compreendo o corpo como o lugar das sensações, das experimentações, mas através dele e não sobre ele. O corpo é negociado socialmente, concepções culturais são incorporados nele, informado pelas experiências vividas dos sujeitos, as quais são específicas de cada grupo. Assim, entendo o corpo enquanto uma construção social e cultural de um contexto específico, no qual estão incorporados elementos socioculturais, que comunicarão significados e simbologias do grupo. Ele aparece como um “lugar da práxis social, como texto cultural, como construção social” (Jaggar; Bordo, 1997, p. 11).

É no ponto que ocorrem os contatos e as negociações com os clientes e, ao mesmo tempo, é onde a prostituta agencia suas relações sociais, tanto com as pessoas envolvidas na vida da prostituição como com aquelas que convivem no entorno do ponto (em alguns lugares, como na Vila Mimosa, esse ponto pode ser o estabelecimento onde acontece a atividade da prostituição). O ponto é um local de trabalho, bem como de sociabilidade entre essas mulheres.

Através da maneira como as prostitutas se colocam corporalmente nos pontos, é possível identificar regras que encaminharão a forma como elas realizam a prostituição. Os corpos dessas mulheres impregnados de regras sociais agenciam distinções entre a vida no local da atividade da prostituição e fora da prostituição, especificam suas relações, justamente porque foram investidos de ação, vestidos, maquiados, incorporarados numa performance de prostituta. Nesse processo de socialização, no contexto específico de cada ponto de prostituição, são apreendidas normas e valores sociais, os quais são reelaborados e comunicados através dos corpos. Afinal, o corpo é dotado de agenciamento sendo, ao mesmo tempo, objeto de controle e sujeito da experiência. Vejamos estas práticas “in-corporadas”, as quais darão pistas para o tema aqui proposto.

Corpos dividindo mundos

Sempre que trazia o tema de práticas de saúde para as conversas cotidianas com as prostitutas, de imediato elas falavam sobre o uso do preservativo masculino, o que, inclusive, gerava uma imensa empolgação. À primeira vista, acreditava que era resultado de uma atuação eficaz e constante de diversos setores sociais para a obrigatoriedade do uso de preservativos nas relações sexuais, principalmente no trabalho da prostituição. As prostitutas precisavam afirmar que cumpriam essa nova regra sexual-social. Apenas depois de muito tempo em trabalho de campo, entendi que o uso de preservativos era realmente a mais importante regra, mas do grupo, visto que “organizava” a relação entre prostitutas e clientes.

As prostitutas, ao falarem sobre o motivo de usarem preservativos com os clientes e não usarem com os não clientes, apontavam diferentes motivos em que estava embasada essa prática. Perpassava a ideia da doença e saúde a partir de uma cuidadosa higiene corporal, da distinção de sentimentos (afeto e fidelidade com os não clientes, e desconfiança, nojo e medo com os clientes) e da demarcação entre a vida profissional e particular. Falemos dessas diferentes motivações.

Havia uma forte preocupação dessas mulheres com a higienização e a aparência de saúde em seus corpos. Contavam das tentativas de convencer o cliente a se lavar antes de começar o programa, que se lavavam com ducha, que cuidavam pra ver se o homem não estava com alguma doença visível, faziam grandes desinfecções, buscavam quartos menos sujos e faziam uso do papel higiênico. A preocupação com a higiene também estava ligada a afastar de si uma possível “sujeira”. Ao se tornar uma mulher “limpa”, afirma-se que o agente transmissor da sujeira é o cliente2,7,11.Uma passagem de um diário de campo em que Angélica relata sobre sujeiras dos clientes:

Falando alto e gesticulando muito, ela [uma prostituta] diz que “os clientes fedem muito”. E continua: “É preciso lembrar que a maioria dos homens saiu de casa às 8h da manhã e passaram o dia colocando o pinto para fora, mijando e guardando o pinto”. Enquanto ela fala, demonstra com a mão o movimento de abrir uma calça, colocar o pênis para fora e depois colocá-lo novamente para dentro das calças. Com uma expressão de quem não gosta da situação, relata que, por vezes, “quando o cara tira a cueca”, ela sentia vontade de ir embora, pois por mais limpo que ele esteja, depois de um dia inteiro qualquer pessoa estaria fedorenta. Na continuidade da conversa afirmava o quanto as prostitutas são sempre as cheirosas, limpinhas e saudáveis. (Rua Augusta, São Paulo)

Também era comum as prostitutas conversarem demoradamente sobre remédios tomados, consultas e exames em explícitas exposições de que eram prostitutas saudáveis. Para além disso, contavam que mantinham um grande cuidado para que não se contaminassem com alguma DST, principalmente a Aids, pois usavam preservativos masculinos nas relações sexuais com os clientes. Interessante que, quando eu perguntava a respeito de outras doenças, as respostas sempre me pareciam vagas e imprecisas. Cíntia, em andanças pela Rua Augusta (São Paulo), chamou atenção para o herpes, mas nunca ouviu alguém falar de outras doenças sexualmente transmissíveis além da Aids. Além disso, a pesquisa realizada pela Universidade de Brasília (UNB) apresentou dados que apontaram para a alta incidência de testagem sorológica anti-HIV. Entretanto, um baixo índice para outros exames rotineiros como, por exemplo, prevenção de câncer do colo do útero.

Existia uma obrigatoriedade do uso de preservativos ao realizarem o programa e davam diversas indicações quanto ao seu uso com os clientes. Ouvi inúmeras discussões sobre a melhor marca, o melhor jeito de colocar e sobre a eficácia dos preservativos como método para evitar transmissão de DST/Aids. Elas falavam de uma forte resistência ao uso dos preservativos masculinos pelos homens. Os motivos eram diversos: inexperiência, desconforto, dificuldade de obtenção do prazer, mau desempenho sexual, pressa, entre outros. Sem falar das infinitas histórias sobre a oferta de quantia maior de dinheiro com o intuito de compensar a falta do uso do preservativo. É interessante refletir também sobre trabalhos de intervenção, de campanhas e de serviços de saúde. Quase sempre ao tratarem de relacionamentos heterossexuais na prostituição, têm como alvo preferencial as mulheres, fazendo com que recaia sobre elas a responsabilidade do uso do preservativo na relação sexual. Parece haver, dentro desta lógica, um esquecimento em relação aos homens, como uma parte significativa da relação. Em época do trabalho de campo na Vila Mimosa, quando observava uma das distribuições de materiais informativos, presenciei uma cena que me chamou a atenção. Uma prostituta, ao ver seu possível cliente lendo um panfleto com explicações sobre Aids e sobre a sua prevenção, indignada o sentencia: “Você veio aqui para trepar ou para ler?”. O homem, silenciosamente, largou o panfleto sobre a mesa, passou seu braço em torno dos seus ombros e a encaminhou para um dos quartos do estabelecimento onde, imagino, realizariam o programa. Nestas diferentes ordens de questões, temos, por um lado, a resistência dos homens frente ao uso e, por outro, quando estes manifestam um interesse sobre o assunto, há uma resistência das próprias prostitutas em relação ao interesse manifestado. A meu ver, há, como pano de fundo destas questões, uma dificuldade na distribuição das responsabilidades sobre o ato sexual. É preciso estabelecer uma corresponsabilidade quanto ao uso de preservativos masculinos entre homens e mulheres e, fundamentalmente, desenvolver medidas preventivas em saúde. Diversos autores6,10,11, ao investigarem o universo da prostituição feminina sob o ponto de vista das profissionais do sexo, também encontraram a referência a esta resistência dos homens ao uso do preservativo masculino quando numa relação sexual com mulheres (prostitutas ou não prostitutas).

Nas conversas comigo, afirmavam que preferiam “perder clientes a abrir mão do preservativo”. Eu mesma presenciei cenas em que elas retornavam aos seus pontos após negociações mal-sucedidas com os seus possíveis clientes, explicando que eles não queriam usar o preservativo. É evidente que podem existir prostitutas que realizam programas sem o uso de preservativos. Neste caso, os motivos mencionados são o baixo movimento e o aumento de valor por um programa sem o uso do preservativo. Moraes11 afirma que as prostitutas sabem da importância do uso de preservativos, mas que algumas o realizam sem a proteção, principalmente por problemas financeiros. Acredito que o mau humor, depois de um programa não fechado pelo fato do cliente não querer usar preservativo, a busca intensa por preservativos gratuitos e as conversas referentes aos preservativos estourados são boas indicações da importância que elas atribuem ao uso do preservativo nas relações sexuais com os clientes.

Naqueles contextos, o preservativo masculino virou um símbolo central da saúde da mulher, esperança de proteção contra as diversas doenças que acompanham a atividade profissional, principalmente a Aids, que, nos últimos anos, teve maior destaque.

Mesmo sabendo que seus relacionamentos afetivos estáveis também continham a possibilidade da contaminação, as prostitutas afirmavam que o maior risco10 de contaminação estava com o cliente. No caso das prostitutas e dos clientes, essa relação acontece no trabalho da prostituição, então é necessário prevenir-se contra doenças, pois eles são homens desconhecidos, não fazem parte de sua vida particular e, portanto, os mais possíveis transmissores de doenças. As relações com clientes e com os não clientes tinham valores diferenciados. Com as parcerias afetivas a prevenção perde mais facilmente a importância, afinal são pessoas com as quais se trocam sentimentos de afeto, confiança, fidelidade e a busca de uma vida em comum. Em outras palavras, o risco da contaminação existe em ambos os relacionamentos. No entanto, a possível contaminação pelas parcerias afetivas é considerada legítima9. Outras autoras, que estudaram o tema do HIV e das mulheres, também discorreram sobre a contaminação ser compreendida como legítima, visto que a infidelidade faz parte da identidade masculina e, portanto, a contaminação torna-se uma consequência natural.

Notou-se que o ideal de uma relação para as prostitutas estudadas estava calcado na fidelidade e no cuidado da sua prole. As prostitutas mantêm relações fiéis e monogâmicas com suas parcerias, sendo esse o único relacionamento no qual não usam preservativos. Uma prostituta da Vila Mimosa (Rio de Janeiro), ao falar sobre por que não usava preservativo masculino com o companheiro, comentou que este poderia pensar que ela tem “outro homem na rua, fora os meus clientes”. As prostitutas tinham como valor conjugal a fidelidade.

O importante é compreender que, para essas prostitutas existe uma diferença entre estar com um cliente e estar com um não cliente, a separação entre sua vida na prostituição e sua vida no âmbito da casa, da família, dos relacionamentos afetivos. Nisso, a necessidade da comprovação de serem companheiras fiéis aparece como fundamental na construção de suas relações. Na prática, essa comprovação se traduz, principalmente, no uso de preservativos masculinos com os clientes e no não uso do preservativo com as parcerias afetivas. O relevante está no fato de que são as prostitutas reforçam constantemente sua fidelidade em relação às parcerias afetivas. Também a evitação do toque dos clientes em algumas partes do seu corpo, o fato de não gozar e de permanecer secas nessas relações sexuais são elementos importantes nessa divisão de mundos No universo pesquisado, a boca, os seios e o ânus dificilmente serão tocados pelos clientes. Como já foi colocado, esse tipo de interdição é uma reserva que as prostitutas estabelecem, mais uma vez com o intuito de realizarem diferenças, através do corpo, entre as parcerias que estabelecem na prostituição e fora dela. Mas, apesar desse discurso (de práticas não realizáveis na relação prostituta e cliente) ser comum nas falas das mulheres, é necessário dar conta da heterogeneidade do universo pesquisado. Constatei que as informantes que não têm um relacionamento fixo são aquelas que comentam sobre a possibilidade de “transgredirem”, em algum momento, as regras constituídas no ponto. Algumas delas contam que, dependendo do cliente e de como elas estão no dia, até poderão beijá-los na boca, deixá-los passar a mão em seus seios e, inclusive, gozar em uma relação sexual com o cliente. Na ausência de uma relação fixa, tornam-se desnecessárias as práticas para separar a vida na prostituição e fora da prostituição. Ou seja, a prostituta não precisa marcar uma diferença nessas relações, então também não precisa estabelecer essa diferença entre as práticas com os clientes e com os não clientes. A princípio, a questão parece contraditória, no entanto expressa a lógica específica e a heterogeneidade do universo.

Mesmo que algumas vezes algumas dessas regras sejam transgredidas, a lógica da questão permanece a mesma: a necessidade de o corpo comunicar diferenças entre relações afetivas e relações comerciais.

É importante considerar, nessa análise, que algumas delas estabelecem relacionamentos afetivos, na maioria das vezes contínuos e sempre monogâmicos. Para manter essas relações, é necessário, ainda mais por estarem na prostituição, provar constantemente fidelidade às parcerias afetivas. Assim, as prostitutas, na sua vivência cotidiana, reelaboram suas práticas e, na medida do possível, distinguem suas ações com seus sentimentos (essas separações, na vida cotidiana, podem não ser tão esquematizadas quanto nos seus discursos).

Por certo, o uso do preservativo masculino não representa apenas uma forma de se proteger da contaminação de doenças (apesar de ser entendido e usado também com esse fim). Quando as prostitutas separam o tipo de prática sexual, também estão separando o tipo de relação que estabelecem com os clientes e os não clientes. Em outras palavras, o preservativo masculino é utilizado (em conjunto com os elementos também analisados) como um divisor simbólico de suas vidas: a pessoal e a profissional. Para estabelecer essa diferença entre suas relações, a prostituta elabora, no cotidiano, regras para compor suas práticas corporais, as quais também se tornam regras de vivência tanto na prostituição como fora da prostituição.

Provocando algumas outras reflexões

Neste artigo, pretendi compartilhar alguns significados, a partir do convívio com mulheres que estavam na atividade da prostituição, sobre os temas de gênero, de sexualidade e de saúde. Para além disso, também pretendi nos provocar a discutir o tema da saúde, de maneira específica, partindo de concepções e práticas que prostitutas estudadas expressavam em seus cotidianos.

Discorri, principalmente, sobre uma das principais regras do grupo: o uso do preservativo. De fato, afirmei que o preservativo faz sentido para esse grupo, para além do cuidado com sua saúde, como um símbolo de organização social da vida na prostituição e fora dela. Certamente, compreender os sentidos e significados de cada grupo social é fundamental para que possamos construir políticas públicas identificadas com as pessoas, as quais farão sentido em seus cotidianos. Assim, compreender a lógica da organização de prostitutas contribui para que se possa construir mudanças sociais e uma sociedade mais igualitária. Afinal, não é possível criar regras e códigos sociais sem o diálogo direito com as pessoas, sem suas vozes, seus olhares.

Prostitutas não são apenas suas genitálias, portanto, não é possível construir políticas públicas de saúde sem compreendê-las enquanto sujeitos sociais e, portanto, com direitos ao acesso integral à saúde. As prostitutas devem ter possibilidade de acessar o serviço de saúde como qualquer outra cidadã, entretanto, sendo olhadas a partir de suas especificidades e sendo respeitadas por elas. Acredito em serviços de saúde pública em que todas as pessoas tenham direito ao acesso, com suas diversidades e especificidades. As pessoas não são iguais. Entretanto, as suas diferenças não devem ser tratadas como desigualdades.

Ao mesmo tempo, é preciso reforçar que não basta fazer o que acontece em alguns países, onde a atividade da prostituição de mulheres é legalizada, a partir de políticas de controle corporal, usar uma etiqueta de comprovação de boa saúde, ter uma carteira de identificação com exames físicos semanais... O que de fato reforça o “não lugar” das prostitutas enquanto cidadãs. Ora, sabemos bem que não são apenas as prostitutas que se relacionam sexualmente com várias pessoas e, para além disso, o problema não está no número das relações sexuais, mas, sim, na falta de proteção. E os homens da relação? Não deveriam também eles ser examinados? Afinal, falamos de uma relação entre pessoas, em que todas elas estão implicadas e são protagonistas.

As prostitutas só deixarão de ser invisíveis nas ações da saúde quando forem escutadas, quando a sociedade entender que o trabalho da prostituição é uma atividade que merece ser respeitada, quando dialogarmos sobre a autonomia de seus corpos, de respeito aos direitos sexuais e aos direitos reprodutivos, de saúde integral, de corpos que não são apenas biológicos, mas sim, interpretações e inscrições sociais, de violência contra as mulheres como um problema de saúde pública, de cidadania. Com absoluta certeza, as prostitutas, a cada dia, têm ocupado outro lugar na sociedade: são protagonistas na busca de rever as práticas normativas sociais, na construção de um mundo igualitário, democrático e libertário.

 

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