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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.) v.12 n.1 São Paulo abr. 2010

 

Imersões, reciclagens e singularidades

 

 

Fabiane BorgesI; Marc EtlinII

IFabiane Borges (catadores@gmail.com) é psicóloga, ensaísta, pesquisadora de saúde, arte, mídia e comunicação.
IIMarc Etlin (marcetlin@gmail.com) é escritor e pesquisador, atual editor da revista bianual É- misférica, do Instituto Hemisférico de Performance e Políticas nas Américas.

 

 


RESUMO

Neste texto, a questão da imersão é trabalhada como um modo de perceber/sentir um determinado espaço/tempo, casual ou produzido voluntariamente, usada aqui segundo o conceito de Deleuze para acontecimento, ou seja, trata-se de extrair, de seus entremeios, uma viva ideia de ativismo, uma disposição individual/coletiva para criação de situações de resistência aos paradigmas ambientais-político-sociais da contemporaneidade. Uma imersão coletiva é a circunstância rítmica com atuação incisiva sobre os corpos. Desse modo, nossa especulação gira em torno das potencializações que o encontro entre ação, corpo, tecnologia e tempo depreendem, e também como se constituem as relações rítmicas internas e externas à imersão. É um recorte específico, mas não restritivo. Interessa-nos pensar práticas de relação entre redes sociais diferentes entre si, em contextos imersivos coletivos, a fim de testar linguagens e deflagar processos de coconstituição de realidades e subjetividades, considerando as singularidades temporais, espaciais, territoriais e culturais de onde se está, pois imergir coletivamente em um local sem dar a devida atenção ao ambiente como um todo é ignorar a força, a sabedoria e o poder do ambiente, o qual determina os graus de relacionamento, ativando ou restringindo potencialidades.

Palavras-chave: Espaço-tempo; redes sociais; contemporaneidade 


ABSTRACT

Within this context, the immersion issue is dealt as a way of perceiving/feeling a certain space/time, occasional or voluntarily produced, used here according to a concept by Deleuze for happenings, that is, it is about extracting, its insertions, a vivid idea of activism, a individual/collective arrangement for the creation of resistance situations targeting the environmental- political- social paradigms of the contemporaneity. A collective immersion is the rhythmic circumstance with incisive acting upon the bodies. Thus, our speculation surrounds the intensifications that the encounter among action, body, technology and time infer, and also how the rhythmic relations internal and external to the immersion are established. It is an important clipping although not restrictive. It is important for us to think of relation practices within social networks that are inwardly distinct, in collective immersive contexts, targeting the testing of languages and triggering co- constitution of realities and subjectivities, considering the temporal, spatial, territorial an cultural singularities of where one is, for, collectively undergoing a location without paying the due attention to the environment as a whole is to ignore the strength, the wisdom and the power of the environment, which determines the relationship levels, triggering or restricting the potentialities.

Key words: Space-time; social networks; contemporaneity 


 

 

Imersão é uma disponibilidade, um engolfamento, um mergulho e, se bobear, um afogamento. Trata-se de um modo de perceber/sentir um determinado espaço/tempo casual ou produzido voluntariamente. Utilizamos a palavra imersão no rastro do conceito de Deleuze: acontecimentoI, extraindo de seus entremeios, uma viva ideia de ativismo, pois estamos falando de uma disposição individual/coletiva para criação de situações de resistência aos paradigmas ambientais-político-sociais da contemporaneidade.

Uma imersão coletiva é circunstância rítmica com atuação incisiva sobre os corpos dispostos a vivenciarem a experiência; nossa especulação gira em torno das potencializações que o encontro entre ação, corpo, tecnologia e tempo depreendem, e também como se constituem as relações rítmicas internas e externas à imersão. É um recorte específico, mas de modo algum restritivo.

Cada singularidade tem seu próprio ritmo-base e, quando desafiada a imergir coletivamente numa determinada situação, necessariamente vai sofrer modulações de seus dados e interferência dos ritmos existenciais alheios, alternando entre sua própria base rítmica e a disritmia (noise)II. Sincronização rítmica é a mais difícil tarefa de uma imersão coletiva, por isso ela é um processo experimental antes de um objeto melódico. O objetivo consensual harmônico pode facilmente se tornar ideológico, no pior sentido da palavra. O consenso não é lógico. Isso não quer dizer que seja ilógico. Ele é constitutivo e por si só um acontecimento. Interessa-nos pensar práticas de relação entre redes sociais diferentes entre si, em contextos imersivos coletivos, a fim de testar linguagens e deflagar processos de coconstituição.

Processos de coconstituição de realidades e subjetividades. Para qualquer inventiva imersiva, tem-se que levar em conta as singularidades temporais, espaciais, territoriais, culturais de onde se está. Essa abertura para o local é nosso maior foco de experiência e aprendizagem, porque conta com a radicalidade da alteridade. Imergir coletivamente em um local sem dar devida atenção ao ambiente como um todo, é ignorar a força, sabedoria e poder do local. O ambiente determina os graus de relacionamento, as alianças, e ativa ou restringe potencialidades. Imergir ativamente num ambiente ou criar um ambiente para imersão é trabalho de feiticeiro. É magia. E nosso trabalho se baseia muito em pressupostos mágicos, xamânicos e em técnicas de intensificação de consciência, porém sem nenhum vínculo transcendente/religioso. A mistura dos diversos ritmos, somada aos atributos locais, é suficiente para essa mudança de frequência, mas pode-se ir mais longe nessa intensificação. Podemos entender ambientes no seu sentido macro ou micropolítico, pode ser tanto uma ocupação sem teto, uma pequena associação de lavadeiras cantoras ou uma cidade como o Rio de Janeiro. O local não está confinado na geografia, há também os espaços públicos da linguagem, da subjetividade, os espaços virtuais, as redes sociais, em última instância, tudo o que está ou que devêm.

Recombinações de redes em espaços/tempos imersivos são dispositivos de fomentação de novos modos de fazer política e de existir no mundo. Por traz de qualquer aparato social ou tecnológico estão os sujeitos e é sempre dessa dobra e desdobra do mundo em si e o si inundado que se trata nosso assunto. Essas novas bases digitais tem se tornado um importante foco de pesquisa e experimentação para o nosso trabalho. Uso de tecnologias digitais artísticas e midiáticas e técnicas corporais advindas do teatro, performance, dinâmica de grupos, têm colaborado para criarmos ambientes imersivos mais eficazes no tocante ao descongelamento de papéis fixos, de trocas afetivas e conceituais baseadas numa experiência coletiva altamente concreta, apesar de sua virtualidade imersiva.

A interferência DST/AIDS e MultimídiaIII foi feita em dezembro de 2005 junto à rede que atua com DST/Aids e moradores de rua em São Paulo. Participaram do workshop cerca de 40 pessoas, representando 40 instituições diferentes como ONG´s, instituições de saúde, casas assistenciais, etc. Nesse dia, realizamos uma imersão produzida a partir de 1 - materiais utilizados por moradores de ruas (papelão, lonas pretas, cobertores cinzas, elementos de uso doméstico, marmitas), 2 - materiais multimídicos (projeção, programas de som - emissores e receptores - microfones distribuídos, iluminação com luz e velas, etc), 3 - materiais humanos (programador sonoro, vj, video maker). Todos esses materiais eram responsáveis pela produção de ambiente, que se transformou de uma sala simples, em um ambiente imersivo (mágico) desviando totalmente a ideia de reunião institucional. Os sons e imagens de rua, previamente captados, misturavam- se às novas imagens que estavam sendo produzidas e eram lançadas nas paredes e sobre os corpos das pessoas. Uma pessoa começava a dar um discurso no microfone, e esse discurso era trocado por uma fala de uma moradora de rua, que se misturava com o dela e, dessa forma, já não se sabia quem era o emissor da informação, enquanto algumas outras palavras se produziam no ambiente, formando uma espécie de espiral sonoro de repetição, amplificação, cadências, cortes, etc.

Dessa forma foi feita a discussão principal, que era sobre contágio e vulnerabilidade. Os participantes demoraram um pouco para perceber que estavam diante de um novo paradigma de encontro, que atualizava um discurso múltiplo, que não cabia somente no discurso lógico individual e, aos poucos, começaram (alguns) a sentir curiosidade por aprender um pouco mais sobre a aparelhagem, o que era também disponibilizado. Cada um dos proponentes sabia da sua função de compartilhar o segredo da máquina. Cabe lembrar aqui que, inclusive nós, proponentes, submergimos à imersão e não tínhamos controle total sobre a modulação das novas informações.

Foi inevitável algum tipo de direção, pois se tratava de uma experiência nova para nós, e não tínhamos experiências suficientes para diminuir o papel de controle, apesar de o trabalho ser inspirado em toda uma tradição vanguardista do sec. XX, que vai desde o futurismo, dadaísmo, surrealismo, movimento beat, hippie, wave, punk, rave, happening, peformance, até as últimas experimentações eletrônicas, que já atuam há muito tempo com esses questionamentos sobre o papel da modulação. Mas, no que tange a trabalhos clínicos, desconhecemos.

Esse é um dos mais caros questionamentos, é possível abrir mão do papel da modulação incisiva para confiar mais na construção do espaço como dispositivo disparador do elemento com o qual se quer trabalhar? Ou seja, é relevante confiar mais nos signos, nos materiais, nas longas pesquisas/vivências prévias sobre os conteúdos comuns ao evento, a disponibilização para vivenciar literalmente o tema em questão, de forma aberta e imersiva sem ficar controlando inteiramente a comunicação? Os trabalhadores dessas redes tiveram que lidar com um evento que abria mão de seus raciocínios lógicos, suas queixas profissionais, seus consensos sobre inclusão social e o papel do estado e instituições, para serem, eles próprios, desafiados a incluírem-se num contexto de amplificação, no qual tudo que tocavam, mexiam ou falavam ampliava-se ou até sucumbia no espaço imersivo. No final, abrimos um tempo para elaboração do acontecimento, mas desconfiamos que não fosse a melhor forma de acabar com o encontro, pois, com a palavra, parece que a experiência se concretiza e ameniza a potência do estranho, do incompreendido, amenizando também, nesse caso específico, a premência do assunto debatido: contágio e vulnerabilidade.

Amplificações de realidades complexas pressupõem certa fidedignidade aos acontecimentos, pois dependem de um sistema de integração entre transmissores e receptores, de modo a fazê-los imergir e expandir-se, ao mesmo tempo. O agigantamento dos sinais fracos emitidos por determinado aparelho (tech-social) tem a função de inscrever esses sinais (desejo-energia) de forma mais potente, e sua abrangência depende dos sistemas de modulação. Os moduladores não são dispositivos neutralistas, mas sim aparelhos irradiadores atentos ao transporte das ondas portadoras de conteúdos. São capazes de transmitir e fazer variação desses conteúdos de acordo com as vontades internas e externas à ação. A modulação nada tem a ver com governabilidades ou estatutos, mas com a intensidade e frequência do sistema integrado de amplificação. Sua conexão é temporária, não pressupõe nenhuma forma de permanência pra além do seu próprio tempo de duração, mas é necessário pressupor certa nitidez na irradiação que não se refere aos sistemas de inteligibilidade padrão, mas à confluência dos diversos conteúdos.

A amplificação desses sinais, quando eficiente, cria uma rede ampliada sonoro-existencial, que conecta superfícies interativas, promovendo ampliação de sentidos e alianças para além do evento/acontecimento. Não pretende abarcar o mundo inteiro, mas cria um espiral transversal, no qual as alianças podem ser produzidas com maior facilidade, amplificando notoriamente a experiência e suas linhas interativas. A amplificação pode ser considerada uma ferramenta tecnológica e esquizoanalítica, cujo funcionamento desdobra- se em operações técnicas, táticas e terapêuticas.

Ao longo do nosso percurso, temos tentado criar espaços/tempos producentes, com caráter imersivo, que permitam que a crônica social se manifeste e que o diálogo dos diferentes se expresse, a partir de propostas artísticas, estéticas e políticas. Não atuamos com um espaço público que está lá, esperando nossa intervenção, mas o criamos a partir de eventos recorrentes que se tornem pontos específicos e eficientes de produção, criação e amplificação de códigos, sistemas de interação corpóreos e espaciais. Imergir no espaço público da cidade, mas, ainda mais, criar um espaço comum de coconstituição de realidades, reciclagens e singularidades.

 

 

Referências

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2. Artaud A. Linguagem e vida. São Paulo: Perspectiva; 1995.         [ Links ]

3. Artaud A. O teatro e seu duplo. 2 ed. São Paulo: Martins fontes; 1999.         [ Links ]

4. Beckett S. O inominável. Rio de Janeiro: Nova fronteira; 1989.         [ Links ]

5. Cohen R. Performance como Linguagem. São Paulo: Perspectiva; 2002.         [ Links ]

6. Cohen R. Work in progress na cena contemporânea. São Paulo: Perspectiva; 1998.         [ Links ]

7. Deleuze G e Guattari F . Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Ed 34; 1995.         [ Links ]

8. Deleuze G e Guattari F . O Que é Filosofia? Rio de Janeiro: Ed 34; 2000.         [ Links ]

9. Deleuze G. Crítica e Clínica. Trad. São Paulo: 34; 1997.         [ Links ]

10. Deleuze G. O Pensamento do Exterior. São Paulo: Princípio; 1990.         [ Links ]

11. Deleuze G, Parnet C. Diálogos. São Paulo: Ed Escuta; 1998.         [ Links ]

12. Hardt M e Negri A. Império. Rio de Janeiro: Record; 2001.         [ Links ]

13. Hardt M e Negri A. Multidão: Guerra e democracia na era do Império. Rio de Janeiro: Record; 2005.         [ Links ]

14. Machado R. Zaratustra: tragédia nietzscheana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 1997.         [ Links ]

15. Nietzsche F. Ecce Homo. São Paulo: Companhia das Letras; 1995.         [ Links ]

16. Nietzsche F. Além do Bem e do Mal: Prelúdio a uma Filosofia do Futuro. São Paulo: Companhia das Letras; 1992.         [ Links ]

17. Preciado B. Testo Yonqui. Madrid: Espasa; 2008.         [ Links ]

18. Virno P. Virtuosismo e revolução: a idéia de "mundo" entre a experiência sensível e a esfera pública. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2008.         [ Links ]

19. Virno P. Gramática da multidão: para uma análise das formas de vida contemporâneas. Santa Maria; 2003. Disponível em: http://es.wikipedia.org/wiki/Paolo_Virno.         [ Links ]

 

 

Sites Consultados

http://pub.descentro.org/

http://metareciclagem.org/drupal/

http://submidia.radiolivre.org/submidialogia/

http://www.radiolivre.org/

http://cassandras.multiply.com

http://transversality.blogspot.com

http://www.interfaceg2g.org/

http://blogs.metareciclagem.org/efeefe/

http://www.midiatatica.info/

http://www.midiaindependente.org/

http://hemi.nyu.edu/

http://integracaosemposse.zip.net/

http://mapeia.blogspot.com/

http://picasaweb.google.com.br/catadores

Para EIA (Experiência Imersiva Ambiental) http://mapeia.blogspot.com

 

 

I. Acontecimento como algo além do que é atualizado, algo que escapa à narrativa individual, mas que é compartilhado como realidade. Acontecimento como algo que está entre as coisas, que apesar de sua incorporalidade, se manifesta. A imersão apresenta esse dado de virtualidade também, incorporal, porém experimentada. Para aprofundar o assunto, procurar: Deleuze G e Guattari F.

II. A música noise é conhecida por sua cadência não rítmica, não obedece a escalas musicais, não se utiliza de conceitos como sons harmônicos ou melódicos. Sua grande difusão começou com as experimentações da música industrial nos anos 1970, assim como tem forte influência do movimento punk, underground dessa mesma época. É som experimental que utiliza o ruído para construção da obra sonora, muitas vezes abrindo mão da ideia de instrumento musical, tornando qualquer som, advindo de qualquer lugar como propício para criação.

III. Feito pelos coletivos Catadores de Histórias, Bijari, Tzzzá e Oráculo Tecnológico a pedido do Programa DST/Aids do Ministério da Saúde do Governo Federal. Organizado por Fabiane Borges. 12/2005.