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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.) v.12 n.1 São Paulo abr. 2010

 

Comunicação e saúde: por uma política ético-estética

 

 

Marli FernandesI; Mário César da SilvaII

IMarli Fernandes (marlif@isaude.sp.gov.br) é psicóloga, pesquisadora do Instituto de Saúde e mestre em esquisoánalise pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. É membro da revista eletrônica Cadernos de Subjetividade do Núcleo de Estudos da Subjetividade da PUC-SP.
IIMário César da Silva (marioscesar@yahoo.com.br) é psicólogo, profissional do projeto Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD Itaquera-São Paulo).

 

 


RESUMO

O presente artigo, que tem como tema Comunicação e Saúde - por uma política ético-estética, apresenta tendências de duas vertentes do pensamento contemporâneo. Ambas cartografam dispositivos distintos, porém semelhantes: analisar a resultante dos modos de criação e possíveis saídas (modos de resistência) ao modelo hegemônico de sentido e valor próprios da lógica de mercado, que caracterizam a contemporaneidade, é o que traduz pelo menos uma das vertentes; fazer composições com as resultantes dos modos de criação da cultura e possíveis saídas (modos de resistência) ao modelo do capitalismo atuante, pelo qual todos nós-comunicadores de saúde, ou não-estamos contaminados. Estas questões da comunicação em geral nos circunda e nos afeta em nosso modo de agir. Mesmo de modo breve, percebe-se que "tudo" remonta a uma questão ético-política e estética. Trata-se, portanto, de comunicar, difundir e identificar os recursos (des) potencializadores da qualidade de vida, os sinais da cultura, os modos de existência frente aos fatos adversos e cotidianamente ativados pelos organismos socioculturais coexistentes e na comunicação do mundo globalizado (foto 1). Salta-nos aos olhos esta questão, que talvez seja o caráter inovador do tema: os efeitos imediatos dirigidos ao papel do profissional e do trabalhador da saúde que, diante das sensibilidades da produção de subjetividades no mundo contemporâneo, percebe estas multiplicidades e se pergunta a respeito destas configurações, de um mundo de velocidades infinitas, virtuais, nem por isso irreais e que nunca cessam de produzir o real.

 

Palavras-chave: Ética; estética; subjetividade


ABSTRACT

This article, themed Communication and Health - for an ethical-aesthetical posture, provides trends from two contemporary lines of thought. Both record distinct however similar devices: analyze the result of the development methods and ways out (resistance methods) of the hegemonic model of meaning and value that are typical from the market logic, that feature the contemporaneity, is what at least one of the lines of thought translates; to make compositions with the outcomes of the development method for culture and possible ways out (resistance methods) of the prevailing capitalism model, which we are all infected, either health communicators or not. These communication issues generally surround and affect our actions. Even briefly, one can notice that "it all" goes back to an ethical-political and esthetical issue. Therefore, it deals about communicating, spreading and identifying the (un) intensifying life-quality resources, the cultural signs, the existence modes upon the adverse facts and regularly activated by the coexisting social- cultural organisms and in the same communication of the globalized world (picture 1). This outstanding issue could be considered the innovating feature of the theme: The immediate effects driven to the role of the health professional and worker that, facing the sensibilities of the production of subjectivities in the contemporary world, observes such multiplicities and is wondered about such configurations, of a world of infinite, virtual speeds, which are not unreal and never cease to produce the real.

Key words: Ethics; esthetics; subjectivity


 

 

Diante da amplitude do tema Comunicação e Saúde e das múltiplas possibilidades de suas abordagens conceituais, faz-se necessário reconhecermos a impossibilidade de se discutir estes macrotemas em seus aspectos globais.

Destaco, aqui, duas vertentes de pensamento, ambas inovadoras, mas distintas: a primeira questão problemática, em especial, está sobre o cogito da comunicação na sociedade contemporânea, explicitada no pensamento de Deleuze e Guatarri quando afirmam que: "(...) não nos falta comunicação, ao contrário, temos comunicação demais, falta-nos criação. Falta-nos resistência ao presente (...)"I.

Marquemos esta enunciação, que nos servirá de alicerce à consistência dos conceitos envolvidos pelos temas. O segundo campo de pensamento, o qual também nos provoca inquietação, seria a forma de veiculação em que a comunicação em saúde tem surgido e é produzida nos últimos tempos, na esfera pública, no campo da pesquisa em comunicação e saúde e, sobretudo, em seus efeitos práticos, nos serviços de saúde, no dia a dia do pesquisador e do trabalhador da área da saúde.

Navarro9, um inovador do tema em comunicação, prenuncia, de certo modo, uma mesma questão problemática quando afirma que "as tecnologias têm cada vez mais impacto na vida cotidiana e na sociedade. Mas o que se observa, em geral, são apenas as características quantitativas deste processo: o grande número de pessoas e máquinas envolvidas, sua penetração em cada vez mais setores, o caráter generalizado, os recursos envolvidos, etc."

A ascensão da mídia e da indústria de propaganda, por exemplo, remodelam incessantemente, ao mesmo tempo, os macro e microuniversos individuais e coletivos, como família, profissão, trabalho, classe social, saúde. Neste ponto, ambos os autores, a princípio, se inter- relacionam, apesar das diferenças conceituais. E, mais ainda, apontam para a mesma questão problemática, o que nos leva a redimensioná-la. Se por um lado, há um excesso de comunicação, a segunda vertente diz: "fabrica-se invenções tecnológicas de caráter instrumentalista, reforçando uma comunicação que deveria recriar as demandas sociais e mais que apenas traduzi-las"9, ressaltando que estas demandas, em sua recriação, exigem uma reaproximação do campo estético-cultural, territorial, religioso, das lideranças comunitárias, etc.

Como em toda revolução e ruptura, a prática empírica prevalece sobre a consciência, e é neste ponto que devemos nos ater. Somos, hoje, uma aldeia global informatizada, e o advento da informática certamente produziu mudanças no modo de existência de todas as criaturas do planeta. A maior prova disso é que hoje podemos categorizar seres, para além da ideia de animados ou inanimados, também como sendo plugged ou unplugged. Outro exemplo empírico, tendo esgotado os horizontes visíveis para a expansão capitalista, é o plano da invisibilidade, no qual o Capital passa a extrair as fórmulas de recriação em suas diferentes manifestações. Assim, o neocapitalismo convoca e sustenta modos de subjetivação singulares, porém, apenas para serem reproduzidos, separados de sua relação com a vida, reificados e transformados em mercadoria: clones fabricados em massa, comercializados como identidades despotencializadas. Para exemplificar esta configuração, basta observar as pesquisas genéticas que resultam num banco de dados de DNA, o qual alimenta a indústria biotecnológica com matrizes a serem reproduzidas, até mesmo num futuro remoto ou talvez inexistente, de acordo com a exigência de seus consumidores12.

 

 

As transformações que nós vivemos envolvem processos cognitivos, práticas estéticas e educativas, aparatos de cultura, dispositivos de interação, suportes técnicos, estruturas comunicativas, todos os elementos capturados pela produção de subjetividades. Faz-se necessário relembrar o equívoco epistemológico sobre o conceito de subjetividades: o termo subjetividade, tão aberto a várias composições na expressão do senso comum, trata, na verdade, do campo do desejoII como manifestação de produção de subjetivação de potencialidades, dos planos de pluralidade, de diferenciações. São engendramentos com o modo de agir ou mesmo com a própria lógica do sentido da vida, não apenas efeitos das configurações do subjetivo, ou do psicológico - a forma identitária do psicológico como força reasseguradora do eu (psicológico).

Cabe-nos, dentro dessa concepção, saber que qualquer ação humana é produzida não por um sujeito autônomo, mas por uma conjuntura singular de forças2. Dentro desse contexto em que estamos mergulhados pelas comunicações com as ondas do tele-tudo ou espaços protovisuais, o ciberespaço: computadores, ondas de satélites que vão substituir as normas, as leis, a ordenação direta, a ética13, não há exagero em afirmar, nas redecodificações em escala nunca vista, os ditames capitalísticos mercadológicos se alimentando e reativando estes mecanismos.

Neste ponto, é interessante citar a noção de cibercultura que vem se delineando nas últimas décadas de maneira exponencial. Refletindo a partir da questão suscitada por Levy: "o que acontece com a distinção bem marcada entre o sujeito e objeto do conhecimento quando nosso pensamento encontra-se profundamente moldado por dispositivos materiais e coletivos sociotecnicos"7, surge o questionamento sobre quem ou qual sujeito se fala. Não é difícil compreender que, se existe uma singularidade, sem dúvida, há uma modulação engendrada pela produção de subjetividades.

Levy defende a tese de que a cultura atual "seria um coletivo pensante homens-coisas, coletivo dinâmico povoado por singularidades atuantes e subjetividades mutantes"8, para desenvolver seu conceito de ecologia cognitiva. Para ele, a cibercultura promove uma alteração na essência da cultura em si, a qual denomina "Universo sem totalidade".

Desta forma, tudo nos leva a crer que o mercado, distribuidor de riqueza e pobreza no mundo capitalista, nos impõe "uma modalidade generalizada, em extrema seriação" (o mundo web não está fora desta máquina de captura). "Há uma extrema velocidade, uma hipnose tele-midiática"10. Elas são instáveis e permanentemente submetidas às transformações e atualizações produzidas pelos desafios quase sempre mercadológicos: os avanços tecnológicos, biogenética, convergências digitais, efeitos adversos da mundialização, os novos papéis do Estado e as reflexões das perspectivas do futuro num país de desigualdades econômicas avassaladoras. Estes efeitos provocam mobilidades generalizadas: nas músicas, nas modas, nos comerciais publicitários, na informática, no sistema cultural, no sistema da Saúde, no meio ambiente, etc. Se há evidência de que vivemos "uma crise da civilização, da qual todos fazemos parte, e se ela existe, é também, certo que há uma crise de nossos instrumentais de análise e avaliação", disse Gilberto Gil, quando ministro da Cultura. Como esses autores nos indicam, as forças constituem, pressionam e desestabilizam as subjetividades. Malgrado este tipo de apropriação, a metrópole secreta suas linhas de resistência, configurando novas produções de subjetividades, como, por exemplo, nos espaços-detritos, favelas, terrenos baldios, ocupações nos espaços urbanos deteriorados e ativados pela população dos sem teto - que não são delimitados pelas configurações do dinheiro, da produção ou da habitação, per si, ou mesmo o mercado da informalidade. Podem exibir exemplos não tão significativos destes planos, porém parte dele pode ocupar este "entre", esta fronteira, de possíveis espaços chamados por Deleuze de máquinas de resistência.

 

 

Configurando estas sensibilidades com estas questões problemáticas, é lógico nos perguntar qual é o papel da pesquisa na comunicação da saúde, da comunicação para além da informação per si, ou da comunicação como geradora de sentido da vida, conectora de informações relevantes à população em suas necessidades mais intensivas e afetivas.

 

 

Talvez, a maior contribuição em pesquisa de comunicação e saúde, e na avaliação dos serviços de saúde implantados pelo SUS, seja a pesquisa participante ou de ação, pois, em si mesma, ela traduz uma metodologia de confiabilidade, de vínculos entre os participantes e de uma possível gestão da própria comunidade. De outro modo, pode-se afirmar que estas pesquisas deveriam reafirmar o papel das redes socioculturais de saúde, de arte, etc e efetivar as ações necessárias que potencializassem a criação da população participante. Este papel de ativar as redes sociais, sejam elas ativadas no campo da saúde ou não, é fundamental do pesquisador ou comunicador nas ações públicas ou privadas. Mas, não se esgota aqui o papel do comunicador da saúde.

Uma das principais diferenças da pesquisa tradicional e da pesquisa participativa/ação é que o objeto da pesquisa deve ser definido pela população envolvida, pelas necessidades emergentes. É a este compartilhamento que o investigador da comunicação e saúde deve dar atenção. Além disso, os profissionais, pesquisadores e trabalhadores, devem tomar conhecimento da realidade na qual vão trabalhar, através de estudos prévios, dados secundários e entrevistas com as lideranças locais. Portanto, não existe uma fase de trabalho de campo como na pesquisa tradicional, mas uma geração de conhecimento dentro da ação de pesquisa, em que pesquisador-comunicador profissional e população interessada se beneficiam mutuamente da experiência um do outro.

Ressaltamos, aqui, que não nos detemos, neste artigo, nas variações das teorias da comunicação em geral, na captura dos fatos somados à isenção subjetiva, por exemplo, extremamente difundida entre os jornalistas representantes dos chamados "fatos em si dos noticiários da TV, etc".

Voltemos às questões problemáticas mais concretas e atuais realizadas em recentes pesquisas na área da saúde e de gestão nas políticas públicas, e à noção de rede substitutiva em saúde mental, por exemplo. Em VenâncioIII e Fernandes3, observou-se uma enorme discrepância comunicacional pontuada pelas análises qualitativas, em vários níveis, na construção do sistema de referenciamento das ações em saúde. Dentre alguns deles, temos: os instrumentos de avaliação são insuficientes e inadequados ao considerar os aspectos de integralidade e de universalidade em que gestores possam identificar e divulgar estes diagnósticos, internamente e nas esferas regional e estadual de saúde; ou, ainda, criar e ativar o sistema de comunicação, inclusive na priorização de escolhas temáticas nos colegiados regionais.

Este excesso de fragmentação, bem como certa falta de visão de totalidade do território pesquisado, fragiliza todo o sistema e produz elementos de alienação social e cultural vitalizados. Outro exemplo de fragilidade e de alienação social vimos no Programa Integrado de Inclusão Social 1- PIIS11.: "depois de um ano e meio de desenvolvimento dos 14 projetos em ações integradas, o diagnóstico participativo apontou uma questão fundamental: as pessoas continuavam percebendo esse conjunto de ações que nós estávamos fazendo, na favela, com uma atitude de benemerência do poder público para com ela", afirmou o secretário de Participação Cidadã da Prefeitura de Santo André, Pedro Pontual.

Isto vai exatamente no sentido contrário do que deveria ser uma produção de pesquisa participativa em comunicação e saúde, que é desenvolver a potência de agir, de revitalizar os sinais da criação da cultura local, de dar sustentação para a reinvenção subjetiva e coletiva, de desenvolver a consciência de que a esfera pública, privada ou terceiro setor, seja qual for o nível de atuação, é agente da construção de direitos e não a representação da ideia de benemerência. E todas estas questões devem ser comunicadas e acessadas para a população. Desta forma, surge a seguinte questão: por que aquelas pessoas não conseguiram internalizar a ética do direito que lhes pertence e a possibilidade de manifestarem seus desejos, mesmo que não referentes a equipamentos de alta complexidade? Este é o ponto nodal ao que se refere Deleuze, pois é preciso dar voz e escuta para a resistência local, para a construção da alteridade e o acesso à comunicação em geral, reverberando a potência da vida, o poder da vida. Eis o nosso desafio.

  

 

Referências

1. Deleuze G e Guattari F. Coversações 1972-1990. Rio de Janiero: Ed 34; 1992.         [ Links ]

2. Fernandes M. A produção de subjetividades: o poder da vida e o poder sobre a vida. In: Vilella W, Kalckmann S, Pessoto UC, organizadores. Investigar para o SUS: construindo linhas de pesquisa. São Paulo: Instituto de Saúde; 2002.         [ Links ]

3. Fernandes M, et al. Desafios e Perspectivas do SUS na saúde mental e as suas ocorrências em álcool e drogas: uma análise qualitativa. Recife: Abrasco; 2009.         [ Links ]

4. Fernandes M, Rosa TE. As Práticas da Cultura e da Saúde: um rastro nas produções de subjetividades. BIS 2007; (41):4-5.         [ Links ]

5. Gattari F. Oralidade maquimínica e ecologia do virtual. In: Caosmose, São Paulo: Ed 34; 1992. p.115.         [ Links ]

6. Karruz AP, organizador. Qualidade de vida, observatórios, experiências e metodologias. São Paulo: Annablume; 2002.         [ Links ]

7. Levy P. Cibercultura. São Paulo: Ed 34; 1999.         [ Links ]

8. Levy P. As Tecnologias da Inteligência. Rio de janeiro: Ed 34; 1993.         [ Links ]

9. Navarro E, Marteleto M. Informação, saúde e redes sociais, diálogos de conhecimetos nas comunidades da Maré. Fiocruz; 2009.         [ Links ]

10. Pelbart P. Vertigem por um fio: políticas da Subjetividade. São Paulo: Iluminuras; 2000. p. 15         [ Links ]

11. Pontual P. Qualidade de vida, participação e percepção da população, In: Keinert T, Karruz AP, organizadores. Qualidade de vida, observatórios, experiências e metodologias. São Paulo: Annablume; 2002.         [ Links ]

12. Rolnik SB. Festejada Indisciplina. In: Hoffmann J, Vanderlinden B, organizadores. It is Happening Elsewhere: Indiscipline, "Bruxelles/Brussels 2000, European City of Culture of year 2000". Bruxelas; 2000.         [ Links ]

13. Rolnik S. Subjetividade e globalização. Folha de São Paulo (Caderno Mais!) 1996 maio 19.         [ Links ]

 

 

I Pelbart P. Um mundo em que acreditar. [Aula do curso de pós- graduação do núcleo de subjetividades - PUC; 2008; São Paulo, Brasil].

II Para Deleuze G e Guatarri F1, a noção de desejo não restringe a noção de "falta", descrita por Freud na sua teoria da sexualidade infantil.

III Venâncio V, et al. Referenciamento regional: compatiblizando, universalidade e integralidade no SUS- SP. [Projeto do Instituto de Saúde da Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo financiando por convênio FPESP/CNPQ- Processo 2005/58542].