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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.) v.12 n.1 São Paulo abr. 2010

 

Ata-me: entrelinhas na comunicação de adolescentes e jovens

 

 

Maria Helena Santos

Maria Helena Santos (mhele@terra.com.br) é psicóloga, educadora, mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, docente do SENAC, pesquisadora e membro do Grupo de Pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), sob coordenação do Profº Dr. Paulo César Endo.

 

 


RESUMO

Este artigo é resultante de trabalhos de arte-educação realizados em instituições na cidade de São Paulo com adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade. A tônica central desta reflexão é a contribuição da escuta analítica como possibilidade de relembrar histórias e memórias, possibilitando observar outros atributos a partir de palavras que permitam revelar um movimento subjetivo perdido nesses jovens, dando espaço a um movimento capaz de impulsioná-los a falar de suas histórias, mas com marcas de singularidade apropriadas à sua capacidade. A partir dessas experiências, percebemos que, mais do que uma intervenção para atender às necessidades biológicas desses jovens, é necessária uma ação que gere sentido aos atos por eles produzidos. Sendo assim, uma escuta analítica, que considere uma frase ou palavra enunciada pelo participante, pode atribuir luz a alguma marca que tenha a capacidade de conectar esse jovem à sua própria história, algum traço no qual ele possa se reconhecer. Assim, com essas intervenções, pode-se concluir que crianças, adolescentes e jovens que vivem em situações precárias e expostos a diversas violências tentam, aos seus modos, preservar algum fio condutor de saúde psíquica.

Palavras-chave: Arte-educação; escuta analítica; saúde psíquica


ABSTRACT

This article results from art-education projects performed in institutions at São Paulo with adolescents and youngsters who are in vulnerable situations. The core approach of this reflection is the contribution of the analytical perception as a possibility of remembering stories and memories, allowing to observe other attributes as from words that enable the disclosure of a subjective action lost in such youngsters, furnishing space to an attitude capable of stimulating them to speak of their stories, but with singularity traces that are proper to their capacity. As from such experiences, we have noticed that, more than an intervention to care for the biological needs of those youngsters, an action generating meaning for their acts is necessary. Thus, an analytical perception that considers a phrase or word mentioned by the participant might enlighten a certain mark that has the capability of connecting this youngster to his own history, some trace which he can self-recognize. Therefore, with such interventions, it is possible to assume that children, adolescents and youngsters that live in harsh situations and are exposed to several types of violence attempt to, according to their own criteria, preserve some connecting thread of psychic health.

Key words: Art-education; analytical perception; psychic health


Este artigo é resultante de trabalhos de arte-educação realizados em instituições na cidade de São Paulo com adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade. A tônica central desta reflexão será a contribuição da escuta analítica como possibilidade de relembrar, de renomear histórias e memórias. Em alguns contextos, as comunicações feitas pelos participantes são evidências de saúde psíquica.

Freud (1913/1969), no texto "Sobre o início do tratamento", observa a importância da utilização da transferênciaI no início de tratamento4 com seus pacientes, e esta se dá sem nada ser feito pelo analista, a não ser ter uma postura que demonstre interesse pelo que o paciente diz. Essa fala poderá adquirir construção de sentido quando um OutroII pode escutá-la. Enrique Kaës5 refere que a construção de sentidos acontece quando cada participante pode reconhecer valor nas ações que realiza. Nesse particular, interessa-nos pensar a fala e seus fragmentos como algo de valor, mesmo sendo aparentemente sem valor e sem sentido, como assinala Miller7: "O sem sentido é, justamente, o criador da significação" (p.21). Citarei agora alguns exemplos para precisar ao leitor onde a escuta pode se mostrar estruturante.

Em experiências realizadas com crianças e adolescentes em situação de rua na cidade de São Paulo, faziam parte do projeto pedagógico os cuidados básicos com a saúde: banho, higiene dental, cuidados com os cabelos e lavagem das roupas. Geralmente, após essas ações iniciais, os presentes participavam de oficinas de arte realizadas no espaço institucional. Certa vez, juntamente com a equipe de educadores, foi realizada uma brincadeira com um grupo de adolescentes antes de o banho ser iniciado. Formou-se uma roda e cada um deveria falar o nome de uma fruta. Um dos adolescentes que frequentavam pela primeira vez o espaço mencionou a fruta maracujá. Finalizada tal brincadeira, iniciou-se o banho dos presentes. No tanque, durante a lavagem das roupas, lá estava o adolescente que havia pronunciado a palavra maracujá. Ali, em diálogos com outros meninos(as), aquela mesma palavra se repetia em sua fala. Por perto, tentando não me fazer notar, observava a conversa do grupo. A repetição da palavra maracujá me chamou a atenção, parecia existir aí algum fio de sentido. Aproximei-me e perguntei ao menino se ele conhecia pé de maracujá. Respondeu que sim. Prossegui e questionei onde ele viu um pé de maracujá. Ele respondeu: "No sítio que eu morava com o meu avô".

Até então, o único dado que se tinha desse adolescente era sua vivência em situação de rua. Agora, o menino do maracujá, o "menino de rua", tem outro atributo, uma história: ele morava num sítio com seu avô. A escuta da repetição, sem valor em um primeiro momento, começa a imprimir um contorno no corpo do sujeito. Em uma brincadeira de roda, sem que soubéssemos, a pronúncia da palavra maracujá o lançaria para sua história. Era como se dali, daquela pequena palavra, outras marcas pudessem advir.

Em outra experiência profissional com jovens privados de liberdade na antiga FEBEM de São Paulo, durante uma oficina de grafiteIII realizada com um grupo de 20 jovens, foi apresentado ao grupo um CD produzido nas oficinas do projeto Fique Vivo. O jovem que produzira o CD havia sido morto numa discussão de bar. Um jovem presente na oficina ressaltou que o importante é "manter a moral", mesmo que isso custe a própria vida. Ao final do encontro, saí conversando informalmente com esse jovem. Perguntei o que fazia antes de estar privado de liberdade, e ele respondeu: "Eu roubava, senhora". Então inquiri: "Bom, o que mais você fazia?". Ele disse: "Ah, eu tirava um lazer, eu brincava, jogava uma bola, eu organizava um time de futebol, tinha patrocínio, era legal, senhora. Dá até saudade daquela época".

Ouvir "dá até saudade daquela época" faz acreditar que há um movimento subjetivo perdido nesse jovem que cometeu um ato infracional. Um movimento que, nesse trecho do diálogo, o impulsiona a falar de sua história com marcas de singularidade apropriadas à sua capacidade: "Eu organizava um time de futebol".

O que une as duas cenas citadas? No texto "Projeto para uma psicologia científica"3, Freud comenta a necessidade da existência de um OutroIV para tornar possível a constituição da criança. Não se trata de uma intervenção somente para atender às necessidades biológicas, mas de uma ação que gere sentido aos atos produzidos pela criança. Desse modo, um gesto, uma fala, um grito, será transformado por um Outro numa mensagem, na qual a criança poderá se identificar ao ser introduzida na rede comunicacional. Sendo assim, nos exemplos citados, ocupamos a função desse Outro com uma escuta analítica, para pinçar uma frase ou palavra enunciada pelo participante. Faz-se necessário atribuir luz a alguma marca que possa conectá-lo à sua própria história, algum traço no qual ele possa se reconhecer. Escutar por esse canal pode ser um esteio que propicie aos participantes seguir falando sobre certos acontecimentos de sua vida, ali onde parecem interrompidos. Diante da "vida nua", aquela desprovida de condições humanas, o que restou foi sustentar a escuta, cujo desdobramento pode ser organizador.

Com essas intervenções, pode-se concluir que crianças, adolescentes e jovens que vivem em situações precárias e expostos a diversas violências tentam, aos seus modos, preservar algum fio condutor de saúde psíquica. Com alguns fragmentos que recordam de suas vidas, há indícios para atar suas histórias. Enlaçar, juntar algo deles mesmos em um momento em que, sozinhos, não podem fazê-lo. Escutar o que não se diz e apostar no que o outro diz pode ser um modo de se comunicar em busca de saúde.

 

 

Referências

1. Fernandes LR. O olhar do engano: autismo e o outro primordial. São Paulo: Escuta; 2000.         [ Links ]

2. Freud S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago; 1996.         [ Links ]

3. Freud S. Projeto para uma psicologia científica. In: Obras completas V. I. Rio de Janeiro: Imago; 1996.         [ Links ]

4. Freud S. Sobre o início do tratamento. In: Obras completas V. XII. Rio de Janeiro: Imago; 1996,         [ Links ]

5. Kaës E. Um pacto de resistência intergeracional ao luto. In: Correa OR, organizador. Os avatares da transmissão psíquica geracional. São Paulo: Escuta; 2000. p.45-59.         [ Links ]

6 . Laplance J. Vocabulário de Psicanálise. Laplance e Pontalis. 4. Ed. São Paulo: Martins Fontes; 2001.         [ Links ]

7 . Miller JA. O percurso de Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 1987.         [ Links ]

 

 

I Transferência é o processo pelo qual o paciente transfere atitudes, sentimentos e fantasias para o analista. Os desejos inconscientes do paciente se atualizam na relação analítica6.

II O projeto Fique Vivo desenvolveu ações de prevenção de DST/AIDS com jovens privados de liberdade na antiga FEBEM (atualmente, Fundação CASA). Realizou pesquisas qualitativas e ações preventivas com jovens por meio da arte-educação.

III Oficina realizada pelo grafiteiro e educador Antonio Duque-conhecido como Tota.

IV Na obra freudiana o conceito de Outro trata do lugar do inconsciente, das memórias encobertas no sujeito que se manifesta no discurso consciente. Para Jacques Lacan o conceito de Outro corresponde à dimensão da linguagem-o "inconsciente estruturado como linguagem" -refere ao lugar, ao conjunto de marcas que um terceiro (o analista, por exemplo), alguém de fora que pode pressentificar algo no sujeito1.