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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.)  n.47 São Paulo abr. 2009

 

RESENHA

 

O que vale a pena... - A sabedoria de quem viveu 100 anos*

 

Tereza Setsuko Tom

Médica Pediatra e Pesquisadora Científica do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Contato: ttoma@isaude.sp.gov.br

 

 

Esta é uma resenha possível. Certamente, há outras possibilidades de leitura e reflexão sobre o livro. Eu o ganhei de uma amiga há dois, três anos atrás e, na época, não fui além das primeiras páginas. A leitura de hoje, sob encomenda, me levou a esta abordagem enviesada para métodos de pesquisa, uma vez que trata de histórias de vida.

A autora é uma repórter norte-americana que tinha 45 anos quando realizava este trabalho jornalístico. Ela comenta que sempre achou que iria viver 100 anos, mas que só recentemente começou a pensar em como seria sua vida nesta idade. Em 1997 teve permissão para fazer uma série de rádio contando histórias do século vinte e então veio a idéia de entrevistar pessoas centenárias e perguntar sobre seu passado. No entanto, depois de algum tempo, começou a ficar curiosa sobre a vida atual delas. Sentia que a maior parte dos entrevistados "era modelo de perseverança e pensamento positivo, com mentes e corações abertos, curiosos, generosos e divertidos".

Tratava-se de um grupo de pessoas que ela nem imaginava existir, pessoas que apesar dos 100 anos continuavam ligadas ao mundo. Nas primeiras conversas com elas, relata que estava concentrada demais nos problemas físicos, sempre com pressa, buscando fatos, com vergonha de perguntar sobre sexo, com medo de perguntar sobre a morte e que se sentia desconfortável quando ocorriam longos períodos de silêncio. Ela sente que foi melhorando e percebendo que as respostas vinham mais facilmente ao esperar e não ao fazer mais perguntas. Percebia os centenários "misteriosos como crianças, cheios de promessas e surpresas, mesmo que às vezes confusos".

No livro são apresentados relatos das entrevistas realizadas com 15 pessoas centenárias, sendo 9 mulheres e 6 homens. Há também um entrevistado que não é centenário, um pesquisador que a ajudou a esclarecer as sensações que ela tinha junto a alguns dos centenários. Percebe-se a diversidade de situações que podem ser encontradas com relação ao local de moradia dessas pessoas, grau de deficiência física e mental, grau de dependência e de cuidados. A maioria das pessoas entrevistadas morava em instituições, que as privavam ou não de liberdade, mas há também uma mulher que morava sozinha. Uma parte importante do livro são os comentários que a autora faz sobre os sentimentos e reflexões que as entrevistas e o contato com essas pessoas provocaram nela mesma. Por isso, tais relatos são também didáticos, uma aula sobre a importância de pensar a prática e a responsabilidade do entrevistador.

Para apresentar o projeto, ela fez duas entrevistas. Isso foi o suficiente para que o mesmo fosse aprovado, porém sentiu que seria necessário usar uma estratégia melhor para obter histórias e não apenas frases soltas. Embora fosse uma profissional autoconfiante, com experiência de vinte anos como repórter, ela se viu frente a um novo fator - a senilidade dos entrevistados. A primeira entrevistada morava em um lar para idosos e foi trazida em cadeira de rodas. Nesse momento a autora comenta "Não é o tipo de lugar que eu escolheria para morar. As ajudantes pareciam cuidadosas, mas bastante impotentes. Fui levada para um salão onde os residentes ficavam sentados em silêncio, alguns assistindo televisão, outros em estupor. Não me surpreendi ao me ver lá para a primeira entrevista". Aquela situação encaixava-se nos estereótipos e ela esperava encontrar mais lugares e pessoas centenárias semelhantes. A segunda entrevistada morava em um apartamento mais agradável que uma residência para idosos. Embora parecesse mais independente, também se mostrou confusa durante a conversa.

Ela comenta que seria necessário "reaprender o que sabia a respeito de técnicas de entrevista para poder editá-las de um modo que desse coerência às palavras dos centenários sem, no entanto, eliminar os sinais do estado mental deles". Por isso, no livro, as falas e pensamentos da autora entremeados nas entrevistas são fundamentais para uma aproximação dos leitores à realidade de vida desses idosos.

A seguir um breve resumo de algumas das entrevistas:

Ella Miller: Ela recebia cuidados em casa porque vivia com a sobrinha, que gerenciava uma empresa de prestação de serviços de enfermagem em domicílio. Ela disse que sua mente não era muito clara em questões do passado. Não escutava bem; os aparelhos auditivos que usava e que diziam ser bons não atendiam ao que ela pensava ter.

Anna Wilmot: Ela ainda remava todos os dias quando o tempo estava quente. Foi a primeira entrevistada que não tinha dificuldade de falar ao telefone. Ela morava sozinha e ainda dirigia seu próprio carro.

Abraham Goldstein: Sobre este professor, a autora pensou "Que tipo de homem ainda vai ao trabalho aos 101 anos? Ele está ensinando há setenta anos!" Ele estava aposentado da sala de aulas, mas tinha duas responsabilidades - uma era ser orientador e a outra, preparar resumos para os colegas a respeito de regras recentes relativas ao direito comercial.

Margaret Rawson: Ela vivia em uma casa de fazenda e organizou sua vida de maneira a contar com três acompanhantes, em turnos de 8 horas cada.

Sadie e Gilbert Hill: Encontrar uma pessoa de 100 anos ainda casada foi uma surpresa. Segundo a autora, uma pesquisa diz que as chances de duas pessoas casadas chegarem juntas aos 100 anos são de uma para seis milhões. Este casal estava junto há 80 anos!

Ruth Ellis: Ela era um modelo para a comunidade de lésbicas, uma ativista também por uma melhor qualidade de vida dos idosos e muito requisitada para falar em público.

Thomas Lewis: Em certo momento, a autora lê o livro "Uma teoria geral do amor", que parece responder às inexplicáveis sensações e comportamentos que ela tinha quando conversava com alguns dos centenários. O Dr. Lewis, com quem ela teve um encontro, explicou:

"Emoções ou estados sentimentais são contagiosos, porque as pessoas têm a tendência natural para detectar o estado emocional de outra pessoa e se alinhar a ele ou de se aproximar dele". E ainda, "A única coisa que faz as pessoas felizes é passar o tempo com aqueles que lhes são emocionalmente próximos. Outras coisas não os fazem felizes. Na verdade, a maioria das coisas que nossa cultura diz que trazem felicidade não a traz... Aquilo que vai fazer você feliz, ninguém vai dizer. Vai ter que descobrir sozinha, se tiver sorte".

Agradeço as pesquisadoras que me convidaram para escrever esta resenha. Sem isto, talvez eu nunca tivesse resgatado este livro da crescente pilha dos que aguardam uma brecha nas minhas muitas atividades diárias. Este tipo de série - O que vale a pena - sugere algo breve, pouco aprofundado. E de fato assim é, o que, no entanto, não diminui seu valor. Sobre "idosos" sou leiga e este livro me fez pensar nos estereótipos, preconceitos e idéias errôneas que podem ser construídos quando desconhecemos um determinado assunto. É importante aclarar que embora eu tenha dado um viés de pesquisa a esta resenha, o livro é resultado de um trabalho jornalístico.

Para encerrar esta resenha, escolhi esta fala de Ruth Ellis, uma das centenárias entrevistadas, que nos faz refletir sobre a importância da solidariedade:

"Eu gostaria que as pessoas mais jovens se interessassem mais pelas mais velhas. É um pouco sobre isso que falo. Eu sei que todos são ocupados, que o mundo anda rápido demais, acho, e vocês não têm muito tempo para diversão, mas há muitas pessoas mais velhas que perderam as famílias, que não têm ninguém. Há muitas pessoas solitárias. E eu acho que se os mais jovens simplesmente escolhessem uma pessoa mais velha para visitar, para levar a um show ou para almoçar, alguma coisa assim... Algumas delas estão confinadas, não vão a lugar algum e, isso não é nada bom."

 

Neenah Ellis (tradução de Danielle Cordeiro Soares Marins)
Rio de Janeiro: Campus, 2003. 237p.

 

 

*Visite o site www.ifilivetobe100.com para ver fotos e ouvir os arquivos de áudio dos centenários.