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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.)  n.47 São Paulo abr. 2009

 

RESENHA

 

Envelhecimento Ativo: desafio do século

 

Renato Barboza

Cientista Social, Mestre em Saúde Coletiva, Pesquisador Científico do Núcleo de Investigação em Práticas de Saúde do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Contato: renato@isaude.sp.gov.br

 

 

Compreender o fenômeno do envelhecimento, no contexto da pós-modernidade, considerando a sua integralidade e multideterminação é um grande desafio para pesquisadores, profissionais de várias áreas e gestores, responsáveis pela implementação de políticas públicas.

Segundo a Organização das Nações Unidas, atualmente, o número de pessoas com mais de 60 anos, corresponde a mais de 12% da população mundial e até 2050, atingirá 20% da população do planeta. Estima-se no cenário nacional, segundo estudos sócio-demográficos desenvolvidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que até 2020 os idosos representarão 31,8 milhões de pessoas. Projeta-se que o país ocupará o sexto lugar no ranque mundial nesse segmento populacional.

A autora, assistente social e gerontóloga, concluiu seu doutorado em Ciências, em 2005, no Programa de Fisiopatologia Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), apresentando a tese "Envelhecimento ativo: desafio dos serviços de saúde para a melhoria da qualidade de vida dos idosos". O presente livro, é um recorte de alguns aspectos abordados em sua tese ao teorizar sobre a interdependência dos conceitos: qualidade de vida, envelhecimento ativo e promoção da saúde.

Nessa perspectiva, realizou um estudo, cuja metodologia foi desenvolvida por meio das abordagens quantitativa e qualitativa, no intuito de investigar e avaliar a qualidade de vida de idosos vinculados a dois programas, reconhecidos como referências técnicas na atenção à saúde do idoso e na formação de equipes multiprofissionais, na cidade de São Paulo: o Grupo de Atendimento Multidisciplinar ao Idoso Ambulatorial (GAMIA), do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas; e o Grupo de Atendimento ao Idoso do Centro de Saúde Geraldo Paula Souza (CSGPS), da Faculdade de Saúde Pública da USP.

O livro apresenta uma boa revisão da literatura acerca dos conceitos referidos anteriormente, iluminando a complexidade que envolve o objeto estudado pela autora, apresentando-o em suas diversas dimensões. Também traça um panorama das causas e conseqüências, associadas à vulnerabilidade da população idosa, no que se refere à busca e auto-percepção da qualidade de vida, problematizando os desafios intersetoriais a serem enfrentados para implementação e operacionalização da Política Nacional de Saúde do Idoso, instituída pelo Ministério da Saúde ao publicar a Portaria 1395 de dezembro de 1999.

Dentre as discussões apresentadas pela autora, vale destacar a relevância - para os profissionais da saúde e pesquisadores da área - da compreensão do processo de substituição do paradigma do "envelhecimento saudável" para o "envelhecimento ativo", cuja concepção sustentadora, reconhece esse fenômeno como uma experiência positiva. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e Organização das Nações Unidas (2002), o envelhecimento ativo está "baseado no reconhecimento dos direitos humanos dos idosos e dos princípios de independência, participação, dignidade, cuidados e autodesempenho" (p.27).

Essa visão ampliada desdobra-se, segundo a OMS, em seis fatores determinantes do "envelhecimento ativo". Tais fatores são essenciais para orientar o desenho e a implementação de políticas públicas, programas e projetos voltados à integralidade da atenção e à redução de vulnerabilidades nos planos, social e programático e consequentemente individual dos idosos em nosso país. São eles: serviços de saúde e sociais focados na promoção da saúde e acesso na atenção primária e longo termo; determinantes pessoais e biológicos; determinantes comportamentais orientados para adoção de estilos de vida saudável e participação ativa no autocuidado; ambiente físico adequado para prevenção de acidentes; determinantes sociais com ênfase em ações preventivas ao abuso de idosos; e determinantes econômicos, valorizando a participação dos idosos no setor informal, em casa e na comunidade (p.27).

Considerando-se o número reduzido de estudos dirigidos à população idosa nessa temática, o livro também apresenta elementos importantes e inovadores para a compreensão da qualidade de vida nesse grupo, especialmente quando a autora apresenta os resultados dos grupos focais e entrevistas realizadas. Utilizando-se de categorias como ‘envelhecimento', ‘saúde' e ‘qualidade de vida', ao dar voz aos sujeitos da pesquisa, apresenta categorias relevantes para apreensão do objeto de estudo.  Nos grupos focais destacam-se: a pertença ao grupo, a empregabilidade e as funções dos gamistas e pós-gamistas; e nos depoimentos: a reinvindicação de benefícios, a satisfação com os benefícios, a generosidade, a espiritualidade e os problemas familiares.

Em relação à categoria ‘saúde', as narrativas dos sujeitos enfatizam a importância das atividades físicas, como a natação e a caminhada; o não uso de medicamentos; a alimentação saudável; a associação entre condições econômicas e boa saúde física e mental; a mudança de atitude e a preocupação de viver bem.

Em suas considerações finais, a autora enfatiza que a revelação mais importante do estudo foi apreender que "envelhecer com boa qualidade de vida é possível" (p.190). Nesse sentido, os idosos representam uma parcela significativa da população brasileira, sendo atores-chave na definição de parâmetros para formulação e operacionalização de políticas, programas e projetos. Cabe ao poder público e aos profissionais que atuam em diferentes setores dar voz a esses protagonistas!

O livro "Envelhecimento Ativo: desafio do século" de Sandra Albuquerque trilhou esse caminho e certamente poderá afetar outros profissionais, pesquisadores e gestores que queiram enveredar nesse percurso.

 

Sandra Márcia Lins de Albuquerque
São Paulo: Andreoli, 2008. 200p.