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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.)  n.47 São Paulo abr. 2009

 

EDITORIAL

 

 

Tereza Etsuko da Costa RosaI; Tania Margarete Mezzommo KeinertI; Marília Cristina Prado LouvisonII

IPesquisadoras do Instituto de Saúde, Editoras responsáveis por esta edição
IIDiretora Técnica de Serviço de Saúde da Área Técnica de Saúde da Pessoa Idosa do Grupo Técnico de Ações Estratégicas (GTAE)/SES-SP, Editora responsável por esta edição

 

 

"Vitrine de Paradoxos" e "Fraga emociona ao colocar modelos idosos" são as manchetes publicadas na Revista SPFW 2009 e no Jornal O Estado de São Paulo (ESP, Caderno Cidades/Metrópole, 20/01/2009, p.C8), respectivamente, por ocasião do desfile no "São Paulo Fashion Week", um dos eventos mais importantes da moda latino-americana. Ronaldo Fraga, conhecido estilista mineiro, colocou na passarela idosos de 65 a 90 anos como modelos, cada um com seu estilo, seu andar e sua dignidade.

Apresentou "sonhos" que mesclam passado e futuro, representados por marionetes do espetáculo "Giz" (1988), do Giramundo Teatro de Bonecos1. "Giz" é um dos espetáculos mais curiosos já criados pelo Giramundo: não há linearidade de roteiro, o texto é composto por uma sucessão de situações isoladas e, aparentemente, sem ligação entre si. Estas pequenas histórias ocorrem em torno de uma família típica, onde pessoas nascem, pessoas morrem, em um processo incessante, perturbador e freqüentemente cômico. Um tênue fio condutor une as cenas: o abandono2.

Assim, o desfile, inspirado no espetáculo "Giz", foi um dos destaques da última edição do "São Paulo Fashion Week", emocionando a platéia. Com o título "Tudo é Risco de Giz"3, falou do novo e do velho, retratando a passagem do tempo como o começo e o fim de um traço de giz.

Em que pese tratar-se de uma estratégia mercadológica, não deixa de ser importante o reconhecimento do Idoso como modelo de beleza, de "sua" própria beleza, com cabelos grisalhos e marcas de expressão no rosto, sem a preocupação de apagar os sinais do tempo vivido.

O Idoso, como protagonista na sociedade, já vinha sendo percebido, por exemplo, nos estacionamentos exclusivos em supermercados e shoppings centers para maiores de 60 anos, no atendimento preferencial em bancos e outros estabelecimentos, na reserva de assentos nos transportes públicos, na constituição de associações de aposentados, nos grupos de convivência de idosos, nos cursos das Universidades da Terceira Idade, em espaços especiais para a prática de exercícios nos parques da cidade, serviços públicos especiais para esta faixa etária, dentre outros.

  A Folha de São Paulo publicou interessante caderno em 15/03/2009, denominado "Maioridade: O Velho-Novo", apresentando uma bela panorâmica sobre essas mudanças (FSP, Caderno Equilíbrio, 15/03/2009)4.

Sob o impulso, principalmente, da necessidade de definição de um novo mercado consumidor, a Velhice vem, insistentemente, sendo apresentada nos amplos meios de comunicação como uma fase privilegiada para a realização pessoal dos indivíduos. Reforçam essa tônica, pesquisas (SEADE, 20065; IPEA, 19996) que mostram que a renda familiar per capita média das famílias com idosos é maior do que a das famílias sem idosos - o que indica, para surpresa de muitos, que os idosos tendem a ser menos pobres do que a população em geral.

Além disso, não se pode negar a visibilidade política que os idosos passaram a ter, a partir dos anos 90, com a constituição do movimento reivindicativo unificado de aposentados ("Movimento dos 147%"), independente dos sindicatos e centrais sindicais.

Em oposição a esse panorama otimista, o entendimento da Velhice, como uma etapa da vida onde se destaca o caráter de decadência física e ausência de papéis sociais, vem sendo assumido pelas sociedades modernas desde os meados do século XIX, sustentado pela ideologia produtivista. Nesse sentido, o avanço da idade como um processo contínuo de perdas e de aumento da dependência, responsável por um conjunto de imagens negativas associadas à velhice, ainda permanece relativamente forte no imaginário social, até os dias atuais.

A Medicina e a Saúde Pública, principalmente nos países da América Latina, também trazem à tona as modificações nos padrões de morbi-mortalidade como um problema gerado pelo aumento da população de idosos. O ponto central para esse debate é a sobreposição de padrões epidemiológicos, ou seja, por um lado, o surgimento das doenças crônicas e degenerativas como grupos importantes de causas de óbitos e, por outro, a relativa redução das doenças infecciosas.

Nessa perspectiva, ganham destaque, tanto os idosos, quanto os especialistas da Geriatria e da Gerontologia, os últimos como porta-vozes dos primeiros, dando legitimidade à velhice como uma questão pública e à Geriatria/Gerontologia como campo científico.

Portanto, se por um lado, o envelhecimento, por sua representação de decrepitude, fragilidade, pobreza e privação, é reafirmado como problema social, econômico e de saúde pública; por outro, é o que leva a velhice ao reconhecimento e à legitimação de diversos direitos sociais para a crescente população de idosos.

No Brasil, a outorga aos idosos de direito à liberdade, à dignidade, à integridade, à educação, à saúde, a um meio ambiente de qualidade, entre outros direitos fundamentais (individuais, sociais, difusos e coletivos), ganha instrumentos legais para a sua efetivação com a promulgação, em 2003, da lei do Estatuto do Idoso.

Especificamente no campo da Saúde, a concepção do envelhecimento, como um percurso natural muda para uma concepção onde as explicações do processo de envelhecimento são mais complexas e o resultado final depende muito mais das condições ambientais do que de determinações genéticas. Corroboram para essa visão diversos estudos, preponderantemente norte-americanos e europeus, que, com a identificação de grupos de pessoas sem incapacidades e com alto nível de funcionalidade até idades bastante avançadas, sugerem que os declínios na função dos órgãos não são necessariamente uma parte inerente do envelhecimento.

A Política Nacional de Saúde do Idoso, já em 1994, acompanha esse avanço conceitual enfocando seus esforços especialmente na questão de se evitar perda das capacidades funcionais. Na sua versão reformulada, em 2006, como Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, incorpora a estratégia do "Envelhecimento Ativo" da Organização Panamericana de Saúde (OPAS)7, ampliando a visão de envelhecimento como um processo de otimização das oportunidades para a saúde, a participação e a segurança. A ênfase é a qualidade de vida das pessoas que envelhecem baseada nos direitos de igualdade de oportunidades e de tratamento e nos direitos e deveres de cidadania.

No âmbito do estado de São Paulo, em 2007, a Secretaria de Estado da Saúde, em seu Plano Estadual de Saúde, concordante com a visão da Organização Panamericana de Saúde (OPAS) e do Ministério da Saúde, focaliza o envelhecimento ativo, a rede de atenção e a educação permanente como eixos estruturantes das políticas de saúde da pessoa idosa. Simultaneamente, o governo do Estado, com o objetivo de possibilitar e incentivar ações para o cumprimento do Estatuto do Idoso, estrutura um Plano Estadual para a Pessoa Idosa, denominado "FUTURIDADE". Sob a coordenação da Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social, o Plano, também implicado com o "Envelhecimento Ativo", se estrutura em dois elementos básicos: educação (mudança cultural com a inclusão do tema do envelhecimento na rede de ensino) e formação de Redes de Atenção à Pessoa Idosa.

É claro que não se pode deixar de fazer uma diferenciação entre as condições de vida da grande parte dos idosos e de uma minoria, cuja possibilidade de trocas sociais amplas sempre esteve acessível por suas condições econômicas. Não obstante, paradoxalmente, um elevado contingente de idosos encontra neste momento, talvez mais do que em qualquer outro de suas vidas, possibilidades de exercício de cidadania pelo acesso a certas condições sociais e econômicas que lhe vem sendo conferido pelas políticas sociais e de proteção e como direitos fundamentais.

Este número especial do BIS "Envelhecimento & Saúde", resultado de um esforço conjunto do Instituto de Saúde e da Área Técnica de Saúde da Pessoa Idosa, ambos da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, revela uma pequena parte, porém significativa, no que diz respeito a pesquisas, reflexões e práticas do lidar com a velhice, que se têm produzido, fundamentalmente, no âmbito de nosso estado.

Esta coletânea, longe de esgotar os temas envolvidos no fenômeno do envelhecimento populacional, percorre um amplo arco de tópicos que torna visível a potencialidade de questões que este campo suscita e sobre as quais ainda há pouca reflexão. Todavia, pretendemos contribuir para ampliar o leque de perspectivas de análise e de propostas inovadoras e alternativas de ação, componentes de um projeto ético-político, capaz de agregar saúde, dignidade e felicidade às pessoas em processo de envelhecimento.

Trata-se de mais um imenso desafio exposto, por meio dessa publicação, nessa "vitrine de paradoxos"

 

 

1. Para mais detalhes e informações sobre Giramundo Teatro de Bonecos, ver: http://www.giramundo.org. Contato: giramundo@giramundo.org

2. Para mais detalhes sobre o Espetáculo "Giz", ver: http://www.giramundo.org/teatro/giz.html

3. Para detalhes do espetáculo no desfile da "São Paulo Fashion Week 2009", ver:http://www.giramundo.org/not_090115_fashionweek.htm

4. Ver http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u534970.shtml

5. Pesquisa de Condições de Vida - PCV - 2006, SEADE.

6. BARROS, R.P; MENDONÇA, R.; SANTOS, D. Incidência e natureza da pobreza entre idosos no Brasil. In: CAMARANO, A.A. Muito além dos 60: os novos idosos brasileiros. Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 1999. p.221-49.

7. OPAS. Envelhecimento ativo: uma política de saúde. Brasília: Organização Pan-Americana de Saúde, 2005.