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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.)  no.46 São Paulo dez. 2008

 

Menopausa, homens e imaginário: reflexões sobre uma intervenção fílmica realizada no centro da cidade de São Paulo

 

 

Belkis TrenchI; Rafael Tadashi MiyashiroII

IPsicóloga, Mestre e Doutora em Pesquisadora Científica do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Contato: belkis@usp.br
IIArtista Gráfico e Mestrando em Artes Visuais da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Contato: raftz29@yahoo.com

 

 

A partir de 2002, dentro do Projeto Ondas1, estivemos envolvidos em diferentes campos de pesquisa, investigando o tema "Menopausa e Envelhecimento". Buscávamos compreender o imaginário construído sobre a menopausa em nossa cultura, privilegiando o discurso de mulheres que, por suas condições sócio-econômica e cultural, distanciavamse das "mulheres-target" das campanhas de medicamentos.

Fossem índias, caiçaras ou mulheres da periferia de São Paulo, compreendíamos, através de suas falas, que suas marcas não vinham de ondas de calor, depressão ou da falta de libido e, sim, de suas condições de vida (ou sobrevivência) e das particularidades de seu cotidiano - o que evidenciou claramente uma diversidade de discursos, de vidas e, por quê não?, de menopausas (TRENCH, 2003; TRENCH; SANTOS, 2005; TRENCH; ROSA, 2008). Já na fase final dessa pesquisa, foi surgindo e se construindo o desejo de realizar uma intervenção num espaço público, que tratasse do tema. Tínhamos algumas perguntas como pontos de partida: o que aconteceria se uma pessoa ocupasse um espaço público da cidade e desse visibilidade à menopausa? Será que conseguiríamos filmar o que eventualmente poderia acontecer? A partir dessas divagações iniciais, fomos amadurecendo o projeto e demos início aos primeiros preparativos para concretizá-lo. Neste presente relato, decidimos dar visibilidade a um acontecimento que para nós foi inesperado nessa experiência: a manifestação e o discurso dos homens sobre o tema menopausa2.

 

Contextos

Entre os espaços públicos localizados no centro da cidade de São Paulo, a Praça da Sé foi a nossa escolhida; em visitas anteriores, à praça e ao seu entorno, tentamos entender a sua dinâmica. Ao contrário de outras praças conhecidas, cuja vida vai se renovando ao longo dos diferentes períodos do dia, a Sé parece pulsar um coração inchado durante o dia, para à noite, contrariamente, cair no esquecimento dos seus transeuntes diários. O local que contém o Marco-Zero da capital não é um lugar particularmente acolhedor, embora, na diversidade de seus usuários, possamos compreender a multiplicidade de castas, costumes, tensões e conflitos presentes no Brasil. Prostitutas dividem seu espaço com camelôs de negócios variados, engraxates, bancas de revistas, policiais, "homens-faixa" e pastores. Dentre os transeuntes, há de tudo: estudantes de diversas idades, mendigos, advogados, religiosas etc.

Em meio a esse quadro tão diverso, a questão da intervenção foi lentamente tomando forma. Optamos por aquela que parecia ser a melhor forma de abordagem naquele espaço público: decidimos nos tornar camelôs de menopausa, "com direito a banca de madeira e tabuleiro".

Mas o que venderia um camelô de menopausa? Como as pessoas seriam atraídas para a nossa "banquinha"? Pensamos em livros, mas logo desistimos. Decidimos, enfim, utilizar cartões coloridos, que seriam espalhados por todo o tabuleiro. Neles, estariam escritos os principais sintomas associados à menopausa, junto com outros que, baseados na pesquisa do Projeto Ondas, comumente a ela associados, mas não têm ligação com ela. Ao todo, foram nove os tipos de cartão: pressão alta, insônia, dor de cabeça, quentura, secura vaginal, ondas de calor, falta de libido, chorar sem motivo e diabetes. Os cartões não seriam vendidos - a idéia era que eles suscitassem "coisas" em quem os visse: Belkis, a pesquisadora, estaria ali para conversar mais com os transeuntes; Rafael, o bolsista FAPESP, para registrar em vídeo essa interação. Para atrair nossos clientes - e enfrentar a grande concorrência da Praça - fizemos cartazes inspirados nos lambe-lambe, em cores vermelho e rosa, com os dizeres:

"O que você quer saber sobre a menopausa? Estou aqui para responder".

"O que você quer saber sobre a menopausa ? Estou aqui para falar com você".

 

Alocamentos

- No primeiro dia:

Decidimos ficar no "corredor" que se forma no caminho entre a saída do metrô no meio da Praça e a Rua Benjamin Constant, ao lado de uma banca de jornais. Era nosso dia de estréia e não fazíamos a menor idéia do que aconteceria. As pessoas pareciam curiosas, lendo os dizeres das faixas, enquanto andavam apressadas. Mas pareciam tímidas (ou desconfiadas?) o suficiente para não parar.

Para nossa surpresa, os únicos corajosos a se aproximarem foram aqueles que menos esperávamos: os homens. Eles se aproximaram espontaneamente da nossa banca e fizeram perguntas ou responderam às nossas, das maneiras mais diversas. Os homens com os quais nos relacionamos neste dia pareciam ser freqüentadores habituais da Praça, possivelmente desempregados, e eram de diferentes faixas etárias. O primeiro rapaz que se aproximou era bastante jovem. Quando perguntamos o que era menopausa, ele não titubeou e seguiu-se o diálogo:

Rapaz 1: "Menopausa é quando a pessoa esquece de qualquer coisa. (...) Esquece (...) Quando ela tá perdida na vida. Menopausa!"

Belkis: "Esquece as coisas? Me dá um exemplo."

Rapaz 1: "O que você acabou de perguntar pra mim agora?"

Ainda ríamos quando se aproxima da banca um segundo homem, um pouco mais velho. Começa a mexer nos cartões e Belkis lhe pergunta:

Belkis: "Menopausa... você sabe o que é?"

Homem 1: "Menopausa... é quando a mulher passa dos 50, né?... Sei só um pouquinho, também."

Ele parece interessado nos cartões com os sintomas escritos.

Belkis: "E homem, tem menopausa?"

Homem 1: ''Vou chutar... Tem!"

Belkis: "Tem?"

Homem 1: "Acho que tem... Deve ter sim (...) Será que é bom ou ruim, isso aí?"

Pouco depois, outro rapaz junta-se ao grupo em torno da banquinha:

Belkis: "Você acha que homem também tem menopausa?"

Rapaz 2: "Não! Que é isso!..."

Homem 1: "Errou, mesmo."

Belkis: "Só mulher?"

Rapaz 2: "Homem não tem isso não."

Belkis: "E o que você acha que é menopausa?"

Rapaz 2: "Não tenho nada a declarar, não... [eu] não tenho isso!"

Não demorou muito, no entanto, e o recém-chegado logo pergunta:

Rapaz 2: "Oh, senhora... Menopausa também pode ser o equilíbrio do cigarro, quando você fuma e dá cansaço? Pode ser???"

Em geral, em perguntas como essa, Belkis respondia brevemente sobre o assunto. Pouco tempo depois, decidimos mudar de lugar, porque ficamos em dúvida se não estaríamos ocupando o espaço de algumas prostitutas que trabalham na Praça, pois nos sentíamos muito observados por elas. Nos movemos em direção à rua e obtivemos espontaneamente o depoimento de outro homem, que dizia ser casado com uma mulher "coroa" e "muito gostosa":

Homem: "A menopausa da mulher acho que acontece por causa dos hormônios... O homem é que tem mais hormônio masculino que feminino... vamos supor o seguinte: hoje existe viado, existe sapatão, existe mulher. A maioria dos homens tem a metade dos hormônios masculino, metade feminino. Uns puxam pro lado viado, outros pro lado masculino, outros pro lado sapatão. Por isso existe o viado, o sapatão, existe tudo. Só que é o seguinte: na vida, a gente tem que ver que todo mundo tá aqui, todo mundo tem que existir. A gente não pode negar. Tem que dar respeito a todo mundo que tá na terra. Se nós nascemos pra ser aquilo, tem que ser aquilo. Tem que gostar do que seja. (...)

Agora, sobre a menopausa, [que] a partir dos 40, a mulher não pode ter mais filhos... é mentira! Tem uma mulher em Pernambuco que teve filho com 57 anos. Mas isso depende do organismo da pessoa e tudo. Que a partir dos 40, pode causar até a morte. A minha mãe morreu, eu tinha 3 anos de idade. [E] eu estou com 33 anos...".

- Segundo dia3:

Voltamos ao mesmo local. Com uma mudança: a banca estava agora toda decorada, por iniciativa de Simone, dona de um brechó na Rua do Carmo. O tabuleiro estava revestido de chitão, florido, e nas pernas, havia adesivos com motivos florais, deixando a banca bem mais charmosa.

Neste dia, parece que a banca chamou a atenção de mais pessoas, mas, novamente, nem todas tinham a coragem de abordar ou perguntar mais a fundo. Um engraxate passou um tempo observando os cartazetes e, em seguida, deu uma bela gargalhada.

Diferente do primeiro dia, desta vez apareceram, igualmente, homens e mulheres. Suas perguntas foram algumas vezes relacionadas a outra pessoa. Por exemplo, enquanto conversávamos com um senhor de idade, um homem de meia idade se aproximou e perguntou sobre remédios homeopáticos para menopausa de sua mulher. No meio da conversa, o senhor de idade interveio:

Senhor de Idade: "Desculpe a minha intromissão, mas... quais são o sintomas que a sua mulher tem?"

Homem: "Olha, é mais caloria... calor mesmo. Ela sente aquele [gesticulando com as mãos]... até mal estar."

Belkis: "E calor no corpo todo, ou em algum lugar localizado?"

Homem: "Mais assim pra cima, né... Mais no rosto."

Senhor de idade: "A respeito dessa questão, o homem tem o inverso da mulher. O homem sofre de andropausa."

Belkis: "Mas o que é andropausa?"

Senhor de idade: "Também é complicado." Homem: "É... andropausa é o inverso, como ele falou... o inverso. Tá ok, muito obrigado."

- Terceiro Dia:

Ao assistir o material que havia sido gravado, notamos que às vezes o som se mostrava alterado. Pela Praça ser um local de bastante movimento e barulho, muitas vezes os ruídos atrapalhavam o registro do diálogo, o que exigia, da parte do câmera, estar bastante próximo tanto da pesquisadora quanto dos entrevistados. Neste dia, resolvemos testar o som em diversos locais, tendo como única motivação resolver questões técnicas. Entretanto, ao testarmos o som com outras pessoas, alguns depoimentos foram muito ricos e por isso foram incorporados ao vídeo, de modo que consideramos esse dia como um dia "de campo":

Belkis: "Testando... som e ruído. Perto da banca... Ahn... seria bom se alguém aparecesse." [Belkis vira-se para o lado e vê um homem perto da banca.]

Belkis: "Tudo bom? (...) Você não quer conversar um pouco comigo para a gente testar o som?"

Homem: "Converso, sim. Se eu tiver assunto e resposta!... Qual a finalidade?"

Belkis: "Nós estamos fazendo um vídeo... sobre menopausa."

Homem: "Menopausa?... Prossiga então às perguntas... E homem tem menopausa?"

Belkis: "Eu é que te pergunto, eu não sou homem. Tem?"

Homem: [rindo] "Certo... é ... acho que não, né?"(...) "A mulher tem, sim... o homem eu não sei."

Belkis: "E o que é menopausa para as mulheres?"

Homem: "É quando a mulher entra em fase, não desce mais menstruação... dos seus 40 anos acima... (...) a minha mulher - hoje somos separados -, ela falava que sentia um calor violento. Tava na menopausa, se separou cobertas. Eu cobria com a minha, ela com a dela. (...) Doze anos a gente dormindo de cobertas separadas. Ela não tinha mais vontade de sexo..." (...)

Belkis: "Por que você acha que acontece a menopausa?"

Homem: "Acho que isso é uma coisa que já vem do começo do mundo... A menopausa entra na mulher depois dos seus 40 anos... agora o homem eu não sei."

- Quarto dia:

Desta vez, nos colocamos em frente à escadaria da Catedral da Sé. A partir desse dia, mudamos nossos cartazes, deixando mais explícito o porquê de estarmos ali:

"O que você acha que é a menopausa? Dê seu depoimento."

Este novo local, próximo à saída do metro Sé para a lateral da Catedral, é ponto de passagem para diversas pessoas que vão para o Largo São Francisco. As pessoas, aqui, no entanto, eram bem mais apressadas: ou não viam a banca, ou apenas olhavam para ela e seguiam seu percurso. Diante disso, resolvemos assumir uma postura mais ativa e ir atrás dos que estivessem na praça. Guardamos nossa banca no Posto da Guarda Municipal e entrevistamos algumas pessoas.

Sentados na mureta de um dos jardins da Sé estavam vários homens. Quando confrontados com o tema, um pequeno silêncio os cobriu, até que um deles resolveu falar:

Homem 1: "É, eu acho que chegou o tempo certo da mulher, né. Chegou o tempo determinado. Porque para tudo há um tempo, não é verdade? A menopausa, acho que o significado, o objetivo dela... é que chegou aquele tempo, aquele prazo determinado, como pode ser a vida do ser humano, que é de 120 anos... então tudo aqui na terra tem um limite, né? Então ali chegou o limite dela. Então ela vai passar a não produzir mais, a não reproduzir mais. Esse é meu ponto de vista..."

(...)

Belkis: "Mas o que o senhor sabe sobre a menopausa?"

Homem 2: "Sei que... segundo dizem, é que venceu o tempo dela e ela não tem mais condições, né?... de... como se diz? ... se comunicar com homem, com outra pessoa. É isso que eu sei dizer."

Logo depois, perto do Marco-Zero da praça, fomos atrás de uma senhora evangélica que conversava com um rapaz. Ao ser abordada, a mulher consentiu em dar a entrevista, mas o homem, talvez tenha sido o único durante todo o projeto, que fez reservas quanto a ser filmado. Ela disse que tinha sido bom para ela a menopausa, já que não precisava mais lavar suas "roupinhas". O homem, no entanto, disse que ela tinha confundido menopausa com a menstruação. Ela logo respondeu ao rapaz:

Senhora Evangélica: "O homem tem andropausa. Quando chegar a sua hora você vai ver!"

- Quinto Dia

Mudamos de local novamente e nos dirigimos à Praça do Carmo, vizinha à Praça da Sé. O Poupa-Tempo (central de atendimento do Governo do estado), a Igreja do Carmo, a Polícia Militar o Corpo de Bombeiros são as referências nas proximidades. Perto da praça, há vários estabelecimentos, como o SESC, e lojas, como o brechó "Vó Maria", da Simone, responsável pelo design da nossa banca.

Diferente da Praça da Sé, que nos parece mais intimidante, a Praça do Carmo é bem mais tranqüila. Também nela, há um fluxo constante de pessoas indo e vindo, mas os perfis parecem diferentes. Houve muitas recusas, mas algumas pessoas pareciam vir bastante abertas:

Rapaz: "Isso é o quê?"

Belkis: "Sobre o que você quiser falar... O que você sabe sobre a menopausa?"

Rapaz: "Menopausa [riso]... (...) a menopausa corta o prazer, né?"

Belkis: "Qual o prazer?"

Rapaz: "É... ahn... [um pouco constrangido]... até do sexo, mesmo. [sério] acho que a pessoa tem uma perda desse prazer... essa coisa de tesão: acredito assim."

Belkis: "Mas você já transou com alguma mulher com menopausa pra dizer isso?"

Rapaz: "[pensativo]... Não! [risos]... não! [risos]."

Neste dia, o câmera Rafael também interferiu e foi atrás de algumas pessoas para pegar depoimentos. Uma senhora idosa, com seu acompanhante, foi bastante solícita:

Rafael: "A senhora acha que homem tem menopausa?"

Senhora: "Não, não... homem não tem menopausa. Homem tem andropausa. Homem também tem. Não tem mais a... a ereção como devia ter. Tem menos ereção. Então são obrigados a tomar essas [rindo] bobagens que aparecem aí: andropausina, viagra... essas coisas." (...)

Rafael: "A senhora é casada?"

Senhora: "Não... sou amigada. Amigada só com ele."

Rafael: "O que que é 'amigada'?"

Senhora: "Amigada é uma pessoa que tá junto mas não tá casada [risos]".

Rafael: "Vocês são 'amigados' há quanto tempo?"

Senhora: "[rindo] Uns 20 anos..."

Edição Final

A edição do documentário levou meses e incluiu algumas sessões entre conhecidos que nos serviram para aprimorar o filme. A princípio era difícil, diante de uma diversidade tão grande de depoimentos, pensar em como reduzir o material filmado para que ocupasse um tempo aceitável. Além disso, havia problemas de ordem técnica.

Sendo assim, decidimos que a melhor forma de editar esse filme seria contar o desenvolvimento do projeto, assumindo suas mudanças, suas falhas técnicas, enfim, sua história própria. Os dias de filmagem, com suas características únicas e suas surpresas, também nos davam essa brecha, pois sempre depois de cada filmagem assistíamos a todo material bruto e comentávamos sobre o que tinha sido bom ou não. Alguns depoimentos, embora interessantes, foram cortados, para dar ritmo e coesão ao filme.

 

Conclusões

O filme "Coisa dos Homens" (2004)4 focaliza um tema relacionado a área da Saúde da Mulher, porém, em muitos aspectos, se diferencia dos documentários produzidos neste campo, tanto aqueles direcionados aos especialistas, quanto aos direcionados ao público leigo. Em primeiro lugar, porque privilegia não o discurso do especialista e, sim, o do senso comum. O senso comum, ao contrário do que prega a ciência moderna,

"...não é nem falso, ilusório, ou superficial, ao contrário enriquece a nossa relação com o mundo. Por ser indisciplinar e imetódico, sua prática não é orientada para o produzir e sim para o existir. Transparente e evidente; desconfia da opacidade dos objetivos tecnológicos e do esoterismo do conhecimento em nome do princípio da igualdade do acesso ao discurso, e à competência lingüística" (SOUZA SANTOS, 1996, p.56).

O fato de a menopausa ser vista sobre tantos prismas, tanto positivos, quanto negativos, com mesclas de humor às vezes, mostra o quanto ela é ampla e distinta para cada um.

Na edição, priorizamos essa multiplicidade de vozes, que parece, às vezes, formar um coral dissonante, mas que representa a heterogeneidade que marca os sentidos atribuídos à menopausa. Quando uma pessoa fala que "menopausa é quando a gente esquece" e parece, sinceramente, acreditar nisso, seu depoimento não é escolhido por seu absurdo, mas porque ali se traduz uma das vozes que não têm acesso aos discursos hegemônicos sobre o tema, e isso é representativo. Os homens, especialmente os que nos procuraram no primeiro dia, foram os que mais mostraram esse distanciamento.

A presença dos homens também traz à tona um imaginário que nem sempre é considerado quando se aborda o tema menopausa. Nesse sentido, seus discursos são interessantes, não só por confrontar-se com um tema que não lhes diz respeito diretamente, mas também por levá-los a questionar se existe uma situação equivalente em sua vida: "E homem, tem menopausa?".

Ao abrirmos nossa escuta a esses discursos, percebemos que, nos deixando penetrar por sua polissemia, também assumiríamos que todas as falas sobre a menopausa que aparecessem no documentário seriam tratadas sem diferenciação de valor ou hierarquia. Assim, as noções de certo ou errado, falso ou verdadeiro foram aos poucos sendo destituídas de sentido. O fato do documentário não se propor a dar uma resposta oficial ou médica sobre este acontecimento da vida das mulheres é um outro fator que o distancia dos documentários da área da Saúde. A nossa não-resposta, de outro lado, também não significa que o documentário assuma uma postura de neutralidade, muito pelo contrário, já que é a multiplicidade de sentidos, e não um sentido fechado e único, que possibilita a criação de vários "espaços" a serem preenchidos por quem o vê. Umberto Eco, no livro "Obra aberta" (1968), mostra que esses espaços ampliam as leituras possíveis ao expectador, pois é na fruição que o expectador constrói sentidos e questionamentos. Isso pode ser comprovado nas exibições do filme: as pessoas, em geral, acompanhavam o filme com atenção; em alguns trechos, riam; em outros, mais sérios, prestavam atenção; mas os comentários e as impressões que ouvimos, após a exibição, eram tão variados quanto o público presente nelas.

De outro lado, e por mais paradoxal que seja, já que apontamos algumas diferenças entre o nosso documentário e os documentários educativos da área de Saúde, sendo exatamente essas diferenças que abrem perspectivas para que ele possa ser utilizado de forma criativa nesse campo. A multiplicidade de discursos sobre o tema, a relação do pesquisador e do entrevistado com o espaço, as diferenças de falas entre os gêneros, poderão incentivar e fomentar uma maior aproximação entre os especialistas e os usuários dos serviços, assim como, poderão, ainda, provocar nas pessoas uma reflexão sobre o poder dos discursos biomédicos e um questionamento da medicalização dos diferentes ciclos do corpo feminino, relativizando sua sintomatologia, ou mesmo, a relação estabelecida entre a menopausa e falta de libido, depressão, etc.

Uma obra aberta nunca estará fechada à criação de novos sentidos e poderá ser constantemente re-significada.

 

Referências Bibliográficas

COISA DOS HOMENS. TRENCH, B.; MIYASHIRO, R.T. (Direção). São Paulo: Instituto de Saúde, 2004. Apoio: FAPESP. 42min..Formato digital.         [ Links ]

ECO, U. Obra aberta. São Paulo: Perspectiva, 1976.         [ Links ]

SOUSA SANTOS, B. Um discurso sobre as Ciências. Porto: Edições Afrontamentos, 1996.         [ Links ]

TRENCH, B.; SANTOS, C.G. Menopausa ou menopausas. São Paulo: Revista Saúde e Sociedade, v.14, n.1, , jan.-abr. 2005. p. 91-100.         [ Links ]

TRENCH, B.; MIYASHIRO, R.T. Menopausa e imaginário: o discurso das mulheres sem voz. Caracas: Colección Monografias: Programa Cultura, Comunicación y Transformaciones Sociales, n.39, 2005, p.46. CIPOST, FaCES, Universidad Central de Venezuela, Disponível em [http://www.globalcult.org.ve/monografias.htm]. Acesso em 26 fev. 2008.         [ Links ]

TRENCH, B.; ROSA, T.E.C.. Menopausa, hormônios. envelhecimento: discursos de mulheres que vivem em um bairro na periferia da cidade de São Paulo, Estado de São Paulo, Brasil. Recife: Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil/IMIP, v.8,n.2, Abr-Jun.2008. p.207-216        [ Links ]

TRENCH, B.; MIYASHIRO, R.T. Coisa dos Homens: relatos de uma intervenção fílmica sobre a menopausa no centro de São Paulo. São Paulo: Revista do Imaginário, n.16, jan.-jun. 2008 [no prelo]         [ Links ].

 

 

 

1 Pesquisa "Projeto Ondas", coordenada por Belkis Trench, durante o período de junho de 2002 a agosto de 2004, com financeiro da FAPESP e participação, como bolsista, de Rafael Tadashi Miyashiro
2 O processo de construção desse vídeo-documentário, chamado "Coisa dos Homens" (2004), foi registrado num trabalho a ser publicado brevemente (TRENCH; MIYASHIRO, 2008), porém com um enfoque mais amplo
3 Os dias de filmagem não foram seqüenciais, ocorrendo em espaços de semanas.
4 O documentário foi apresentado na Mostra do Audiovisual Paulista, em 2005 (MIS/ São Paulo), e no Festival Viaxes na Lusofonia, em 2006, na Espanha, entre outros.