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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.)  no.46 São Paulo dez. 2008

 

Comportamento sexual e preventivo de adolescentes de São Paulo - um estudo com estudantes do ensino médio

 

 

Regina FigueiredoI; Lígia Rivero PupoII; Neuber José SegriIII

ISocióloga, Mestre em Antropologia da Saúde e Pesquisadora Científica do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Contato: reginafigueiredo@uol.com.br
IIPsicóloga, Mestre em Medicina Preventiva e Pesquisadora Científica de Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Contato: ligia@isaude.sp.gov.br
IIIEstatístico, Mestre em Saúde Pública. Contato: nsegri@gmail.com

 

 

Introdução

Este artigo apresenta um resumo dos resultados da pesquisa "Contracepção de Emergência entre Estudantes de Ensino Médio e Público do Município de São Paulo"1, realizada pelo Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, que permitiu descrever:

- as práticas sexuais de adolescentes;

- o uso de contraceptivos, inclusive o preservativo, por este público;

- a forma como está sendo feito o uso da camisinha e da contracepção de emergência (pílula do dia seguinte);

- o impacto do conhecimento e uso da contracepção de emergência sobre o uso de preservativos.

O aumento dos casos de infecção de DST/aids entre adolescentes e jovens, desde a década de 90 (DATASUS, 2008), tem promovido pesquisas que realizam o levantamento das práticas sexuais deste público para a promoção de estratégias preventivas mais efetivas e que se adeqüem a seus comportamentos. A essas estratégias, soma-se a promoção da prevenção de gestações entre este público que, segundo a UNICEF (2002), atinge 16%, com 3% de experiências de aborto, apesar de se observar um uso crescente e significativo do preservativo masculino, por 51%.

Cabe, ainda, salientar que, por razões culturais de nãoorientação para o início das práticas sexuais, principalmente para as meninas, juntamente com fatores de ordem psicológica e de relacionamento social típicos da idade, as experiências sexuais se iniciam entre adolescentes, na maior parte das vezes, de forma desprevenida e há uma média de até 1 ano para o início do uso de algum contraceptivo (ANDALAFT NETO, 2003). Como a gravidez ocorre, em geral, nos primeiros 6 meses, explicam-se os altos índices de gravidez na adolescência brasileiro, de mais de 20% (DATASUS, 2008).

Por este motivo, não apenas, a intervenção com estratégias preventivas se faz fundamental entre esta população, mas também o monitoramento dos comportamentos de risco e práticas sexuais, além dos hábitos a eles relacionados. Essa necessidade é premente quando são introduzidas novas tecnologias preventivas, como é o caso da contracepção de emergência (pílula do dia seguinte), que possibilitam alterações no comportamento preventivo e na oferta de recursos para ele utilizados.

 

Metodologia

O levantamento foi calculado de forma a representar todos os estudantes do Ensino Médio público da cidade de São Paulo, realizado através de inquérito escolar de abrangência "Contracepção de Emergência na rede pública estadual localizada na cidade, pelo Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo no final de 2006 (FIGUEIREDO et al, 2008). O objetivo do estudo foi verificar comportamentos sexuais e reprodutivos de risco, além de fatores a eles associados. Os alunos foram representados, proporcionalmente, divididos em 5 macro-regiões de análise: Centro-Norte, Sul, Sudeste, Leste e Oeste), num total de 151 classes sorteadas de 38 escolas, dos três períodos de estudo (matutino, vespertino e noturno). Os alunos responderam questionário auto-aplicável em sala de aula após consentimento livre informado.

 

Resultados

- Práticas Sexuais e Conhecimentos Preventivos:

Dos 4.929 alunos pesquisados, 55,6% já tiveram relações sexuais, com início em média, aos 14,98 anos (14,61 entre rapazes e 15,40 para as meninas). Essa prática sexual ocorreu, para 1,1%, apenas com pessoas do mesmo sexo e, em 98,9% das vezes em relações heterossexuais.

Atualmente, 72,7% têm relações com parceiros fixos e 9,1% já mantêm residência estabelecida com esse(a) parceiro(a) fixo(a):

Há conhecimento por todos os estudantes de formas de prevenção à gravidez. A camisinha masculina foi citada espontaneamente por 98,3% deles, seguida pela pílula anticoncepcional, por 90,5%.

 

 

A contracepção de emergência foi o quarto método espontaneamente mais citado, por 24,3% e, em pergunta dirigida, 85,4% afirmaram conhecê-la.

Todos os métodos contraceptivos e a diversidade deles são mais referidos por meninas, com exceção do coito interrompido, que tem o dobro de citação entre rapazes (2,8%), do que por meninas (1,4%) (P = 0,0068).

Estudantes de todos os períodos referem-se igualmente ao conhecimento dos contraceptivos, com exceção da injeção hormonal que é mais citada e, também, mais utilizada entre estudantes do período noturno e de menor escolaridade.

A contracepção de emergência é mais conhecida, conforme o aumento da faixa etária e do nível de chefia familiar. Entre quem tem prática sexual e já usou contraceptivos; seu conhecimento também é maior (P = 0,0000): 90,0%, contra 76,2% de quem nunca os utilizou.

Dos alunos, 55,2% conhecem alguém que já utilizou a contracepção de emergência e, em 76,1% dessas vezes, a pessoa referida era outro adolescente.

- Uso de Contraceptivos e Preservativos:

O método mais utilizado entre que já teve relações sexuais foi o preservativo, por 95,4%; seguido pela pílula anticoncepcional, por 37,1%; em terceiro, conforme resposta espontânea, vem a contracepção de emergência, por 9,4%; em quarto, a injeção, por 3,0%.

 

 

A camisinha é mais usada entre estudantes do período matutino, do que do noturno (P=0,0010) e a pílula mais no noturno (P=0,0000), tal como a injeção (P=0,0000):

 

 

Constata-se que a ocorrência de gestações é um fator importante para o uso de todos os métodos contraceptivos, com exceção do preservativo, mais utilizados entre quem não engravidou (P=0,0001).

Atualmente, há igualdade de uso de preservativos entre estudantes de todas as regiões da cidade: 88,7% usam preservativos, sendo que 61,6% afirmam o utilizá-lo em todas as relações sexuais:

 

 

Menos meninas utilizam preservativo (84,3%), do que os rapazes (92,7%) (P = 0,0000) e, também, elas têm menor freqüência neste uso: apenas 51,5% delas utilizam-no em todas as relações, contra 66,2% dos rapazes (P = 0,0000).

Com relação ao período de estudo, verifica-se que a camisinha é menos utilizada entre estudantes do noturno, que o adotam de 15 a 20% a menos que os demais:

A contracepção de emergência já foi utilizada/utilizada por parceiras de entrevistados em relações com eles, por 30,1%. Essa utilização foi feita, após a aquisição em farmácias (73,6%), mas há vários casos em que a obtenção se deu via parceiros. Há maior uso deste método conforme há aumento da faixa etária (P = 0,0093).

O uso da contracepção de emergência é apontado por indivíduos de ambos os sexos de todas as religiões, havendo maior uso entre espíritas (44,6%) (P = 0,0014): pelo menos 12 pontos percentuais a mais do que entre outras religiões. Também, há maior uso quando há relações em parceria fixa (76,2%), do que entre as que não a possuem (uso de 59,9%) (P = 0,0000). A ocorrência de uma gravidez dobra a possibilidade de uso: entre quem já engravidou/engravidou uma parceira, o uso foi de 50,4%, contra 25,6% de quem nunca viveu tal experiência.

 

 

Entre os usuários do método na vida, 46,2% repetiram o uso da contracepção de emergência. Dos que utilizaram nos últimos 6 meses, 56,8% fizeram uso apenas 1 vez; 33,3% de 2 a 3 vezes; e 9,9% acima de 4 vezes, sendo 4,6% acima de 10 vezes, demonstrando um uso praticamente mensal ou freqüente nestes dois últimos grupos.

Dos usuários de contracepção de emergência nos últimos 6 meses, 61,6% alegaram que o uso do método foi motivado pelo não-uso de preservativo e 12,5% afirmaram que o utilizaram devido à realização mal-feita do coito interrompido. O motivo mais alegado para o último uso de contracepção de emergência foi o rompimento do preservativo (apontado por 39,3%), seguido pela ausência deste método de barreira no momento do sexo (22,8%). Explicitamente, não querer utilizar a camisinha foi motivo de uso da contracepção de emergência nos últimos 6 meses por 18,9%.

 

Conclusões

A pesquisa demonstra que adolescentes têm ampla vida sexual ativa e que, portanto, necessitam acesso a contraceptivos e preservativos, já que a maioria já tem informação sobre os métodos, porém 14,1% ainda mantêm pratica sexual de risco sem uso de nenhuma prevenção. Por isso, a escola, por ser o principal local de sociabilidade desta faixa etária precisa participar mais efetivamente da educação em saúde preventiva com relação à Saúde Sexual e Reprodutiva, inclusive orientando a utilização da rede de serviços públicos por adolescentes que já iniciaram a vida sexual, ou que estão para iniciá-la.

As campanhas de preservativo têm se mostrado eficazes entre este público, que conhece e utiliza intensamente o método, porém é necessária que haja uma constância e continuidade das mesmas e uma ação e mensagens dirigidas aos que estabelecem parceria fixa, que tendem a abandonar o uso deste método e trocá-lo pela pílula anticoncepcional e, ou em menor freqüência, pela injeção.

A contracepção de emergência é amplamente conhecida e bastante utilizada entre os adolescentes. Há uma parcela que a usa incorretamente e repetidamente, apesar de não ser maioria, que precisa ser alvo de orientação, inclusive aproveitando o espaço escolar.

O uso da contracepção de emergência costuma ser feito em relações de risco realizadas com parceiro regular, demonstrando que o uso está associado ao mesmo fator (parceria fixa) que predispõe ao não-uso de preservativos.

 

Referências Bibliográficas

ANDALAFT NETO, Jorge. Comportamento sexual na Adolescência - o papel da anticoncepção de emergência. Jornal da SOGIA, Ano 4, nº 6, jan,fev,março/2003.         [ Links ]

FIGUEIREDO, R; PORTO ALVES, M. C.; ESCUDER, M. M.; PUPPO, L. R. Relatório do Projeto Contracepção de Emergência entre Estudantes do Ensino Médio Público de São Paulo. São Paulo, Instituto de Saúde, 2008.         [ Links ]

UNICEF. Relatório Situação da Adolescência Brasileira, 2002. Disponível em: [http://www.unicef.org/brazil]         [ Links ].

DATAS. Ministério da Saúde. Disponível em [http://www.datasus.gov.br]. Acessado em novembro de 2008.         [ Links ]

 

 

 

1 Os resultados completos do estudo estão no relatório final, ver FIGUEIREDO et al, 2008