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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.)  no.45 São Paulo ago. 2008

 

Experiência artística no desenvolvimento de projetos de autonomia: possibilidade de resistência à repetição de significações

 

 

Ana Lúcia Gondin BastosI; Maria Elisa Rizzi CintraII

IPsicóloga, Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Contato: alugonbas@terra.com.br
IIPsicóloga com Aprimoramento em Saúde Coletiva pelo Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e Mestranda em Saúde Coletiva na Universidade Federal de São Paulo. Contato: elisa.rizzi@gmail.com

 

 

Hannah Arendt (2003, p.15), logo no início de sua obra "A Condição Humana", lembra-nos que o idioma romano tem como sinônimos os termos "viver" e "estar entre os homens" (inter homines esse), da mesma forma que "morrer" é sinônimo de "deixar de estar entre os homens". A existência humana é um acontecer num mundo de tantos outros, qualquer recorte existencial feito na vida de um indivíduo revelará a impossibilidade intrínseca de um ser não marcado por uma sociedade, já que:

"... a produção do indivíduo isolado fora da sociedade - uma raridade que pode muito bem acontecer a um homem civilizado transportado por acaso para um lugar selvagem, mas levando consigo já, dinamicamente, as forças da socie dade - é uma coisa tão absurda como o desen volvimento da linguagem sem indivíduos que vi vam juntos e falem entre si" (MARX, 1978, p.104).

Assim, o ser em sociedade, como aquilo que melhor caracteriza o existir humano, fica materializado não apenas na linguagem (como o exemplo latino nos mostra), mas no fato de que o anúncio da chegada de um novo indivíduo é para ele próprio, assim como para todos os que o cercam, o momento de inseri-lo em um mundo pleno de significados que, em larga medida, o configuram como daquela cultura. Esta é a condição básica que o habilita não só a viver no mundo, como a ser agente transformador do mesmo. Isto é o que faz Arendt afirmar: "O novo começo inerente a cada nascimento pode fazer-se sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo, isto é, agir" (ARENDT, 2003, p.17).

O desenvolvimento individual num mundo previamente habitado e repleto de referências, também é bastante explorado na obra de Winnicott. Este autor dá particular atenção à relação estabelecida entre bebê e mãe - aquela que o recebe, que o segura, presta os cuidados iniciais e, aos poucos, vai apresentandolhe o mundo - considerando que esta é a primeira representante da cultura na qual, e com a qual, aquele bebê vai viver. No dizer de Winnicott:

"Não podemos deixar de notar a necessidade humana de ter um círculo cada vez mais largo proporcionando cuidado ao indivíduo, bem como a necessidade de inserir-se num contexto que possa, de tempos em tempos, aceitar uma contribuição sua nascida de um impulso de criatividade ou generosidade. Todos esses círculos, por mais vastos que sejam, identificamse ao colo, aos braços e aos cuidados maternos" (WINNICOTT, 1999, p.131).

O acolhimento deste bebê na chegada a um espaço completamente diverso ao intra-uterino, no qual ele se encontrava até então, marca importante momento para a sua organização: o encontro com o corpo materno. As primeiras experiências são de ordem sensorial, o encontro com texturas, temperaturas, rítmos, odores e sons. De acordo com Safra:

"O importante é que este caleidoscópio de sensações capacita a criança a ter um corpo, que paradoxalmente é a presença de um outro. Não é um corpo coisa, mas torna-se um corpo humano: é o soma com pegadas de alguém devotado" (SAFRA, 1999, p.74).

Este encontro inaugura o descobrimento de uma nova forma, particular e singular, de acontecer num mundo, mundo este que já existe, assim como constitui e é constituído por muitas outras subjetividades e que tem, também, uma dimensão histórica, espacial e temporal determinada.

É a partir dessa primeira relação com o mundo que o recebe, no qual passa a agir, e com o qual se constitui como indivíduo (dotado da dupla condição de ser e fazer), que os lugares e possibilidades de criação se ampliam e a capacidade de reconhecimento do nãoeu começa a se estabelecer. Com isto ocorre o estabelecimento da terceira área da experiência humana: o que, para o observador externo se traduz num espaço no qual realidade interna e realidade externa coabitam, mas que não se resume numa nem na outra. Para o sujeito, esta terceira área se materializa como espaço de leitura e expressão subjetiva do mundo, cuja compreensão vai ficando cada vez mais complexa:

"Tentei trabalhar na localização da experiência cultural; fiz essa formulação de modo provisório: ela se inicia no espaço potencial entre uma criança e a mãe, quando a experiência produziu na criança um alto grau de confiança na mãe, no fato de que ela não vai faltar quando da criança dela tiver necessidade" (WINNICOTT, 1999, p.20).

Assim, a capacidade desenvolvida de confiar no ambiente inaugura uma nova capacidade: a de poder distinguir-se do ambiente. Neste momento é criado um espaço entre realidade externa e interna, não sendo domínio exclusivo de nenhuma das duas, ao contrário, articula essas duas dimensões existenciais. Trata-se de um espaço potencial, no qual cessa a cansativa tarefa de distinção constante entre realidade interna e externa e, desse modo, o indivíduo pode criar, brincar. É aí, também, que toda a experiência cultural, artística e simbólica encontra seu lócus:

"A experiência cultural começa como um jogo e conduz ao domínio da herança humana, incluindo as artes, os mitos da história, a lenta marcha do pensamento filosófico e os mistérios da matemática, da administração de grupos e da religião" (WINNICOTT, 1999, p.19).

Nesse contexto, a expressão artística se traduz como possibilidade de abrir espaço para que sentidos possam ser revisitados, ampliados, transformados, numa resistência à homogeneização de efeitos, repetição de significações, em suma, à imobilidade de possibilidade de interpretação de uma história. O sujeito, ao expressar-se plasticamente, usa de sua espontaneidade e ao usar sua espontaneidade, aprende a se colocar como membro do grupo social e se desenvolve definindo seus próprios papéis.

A arte possibilita a construção de um cenário que prima pelo modo como são transmitidas e captadas as experiências afetivas, enriquecendo a vivência pessoal da experiência relacional do aqui e agora, colaborando para a percepção e para a compreensão da arte como expressão de valores de uma civilização.

"... a arte tem o papel de tornar o mundo digno de ser vivido, reencantando-o, tornado-o um lugar não apenas de luta pela sobrevivência cotidiana, mas um lugar de imaginação criadora, de sonho e de utopia. É fundamental reafirmar a importância da arte como impulso transformador de pessoas portadoras de uma nova visão do ser humano, capaz de elevar sua autoestima, de humanizar e emancipar o espírito" (FARIA; GARCIA, 2003, p.23).

É importante salientar que, quando falamos, aqui, em resistência ou mesmo em "reencantamento do mundo" referimos-nos à conduta social, afetiva e política que viabiliza reconhecer, como no dizer de Paulo Freire (1999, p.19) "que a História é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro (...) é problemático e não inexorável". Neste sentido, a resistência não se volta para um fechamento em si mesma, mas, inversamente, abre-se a um conjunto aberto e sempre renovado de possibilidades de trocas significativas com o mundo e das quais resultam transformações mútuas "é um complexo político-afetivo mediante o qual um sujeito constrói, significativa e criticamente, sua relação com o mundo que lhe é dado e, mesmo sob as condições que lhes são oferecidas, participa conscientemente do processo histórico" (cf. BASTOS, 2005).

Ainda na discussão proposta por Faria e Garcia (2003), a arte proporciona vivencias da diversidade cultural e possibilita que nos (re)conheçamos nesse processo criativo. Afastando o etnocentrismo que nos conduz a visões estereotipadas do outro, incorporamos, pela arte, a nossa pluralidade, com suas diversas formas de construir e reconstruir o mundo. Ao passo que o indivíduo ao perceber a própria existência como lançado para dentro do mundo sem ser integrado num destino ou outro plano não-contingente; e na impossibilidade de explicar a própria finitude através de referências ao infinito ou categorias absolutas; vemos o desabrochar da condição humana ao mesmo tempo em caráter pessoal e intrínseco, que é a experiência subjetiva do princípio da incerteza, quanto nítida a inscrição em caráter coletivo e social da sociedade moderna, que é o não saber lidar com as questões mais básicas do ser humano. Para Abreu (2002 in: SANTANA, 2004), a Arte reflete a busca do homem na conquista de seu meio, seja ele urbano ou rural em qualquer momento histórico; registra os interesses, as especulações, o comportamento, as perspectivas, os sentimentos do homem em sua época. É a outra maneira de compreender a vida; é uma forma de organizar e espelhar a realidade; lida com os valores de belo.

Aqui chegamos ao que podemos chamar de projetos de autonomia, dos quais a percepção do mundo em termos originais, portanto a experiência artística (seja ela plástica, corporal ou intelectual), é elemento fundamental. Os projetos de autonomia constituem-se empreendimentos que somente na relação constitutiva entre sociedade e indivíduo, tem chance de sucesso e que se alimentam dos sonhos e das utopias quanto ao mundo que queremos construir. O sentido de liberdade, associado aos projetos de autonomia, desta forma, vincula o sujeito ainda mais à sua coletividade, ao invés de desvencilhá-lo ou desresponsabilizá-lo das preocupações do grupo social do qual faz parte.

Acreditamos, portanto, que é possível entendermos como experiência artística toda aquela que oferece ao sujeito, apropriado de seu potencial criativo e senso estético, a oportunidade de organizar-se e de desenvolver limites éticos, de resgatar e desenvolver sentidos a partir da sua produção, da análise de conteúdo e da contextualização, de ampliar as dimensões individuais trazendo oportunidades de quietude nos momentos intuitivos e de, por fim, refletir sobre a realidade física e social, individual e coletiva.

 

Referências Bilbiográficas

ARENDT, H. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.         [ Links ]

BASTOS, A.L.G. Tecendo a trama das relações, dos afetos e dos sentidos nas práticas educacionais. Tese [Doutorado]. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2005.         [ Links ]

FARIA, H.; GARCIA, P. Arte e identidade cultural na construção de um mundo solidário. São Paulo: Instituto Polis, 2003. 2ª edição.         [ Links ]

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2004.         [ Links ]

MARX, K. Para a crítica da Economia Política. MARX, K. Manuscritos econômicos e filosóficos e outros textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1978.         [ Links ]

SAFRA. G. A face estética do self. São Paulo: Unimarco, 1999.         [ Links ]

SANTANA, C.L.A. Avaliação de resultados em arteterapia. Tese [Doutorado]. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2004. 279p.         [ Links ]

WINNICOTT, D. Família e desenvolvimento individual. São Paulo: Martins Fontes, 1999.         [ Links ]