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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.)  no.44 São Paulo abr. 2008

 

Atuação de grupos juvenis no combate a epidemia do HIV/aids

 

 

Fabiana Pitanga

Estudante de Graduação em Serviço Social da PUC de São Paulo e Membro do Núcleo Cultural Força Ativa e Agente de Prevenção. Contato: biatrotsky@yahoo.com.br

 

 

"A pessoa que lê desfaz o nó que está em seu cérebro"

(Núcleo Cultural Força Ativa)

"Sei que vou morrer.
Aliás, todo mundo vai.
Só não quero que olhem pra mim e pra minha mãe como se nós fossemos morrer de Aids.
Só não quero que tirem de mim o que tenho de mais caro,
o que ninguém no mundo, nem mesmo a minha mãe, tem o direito de tirar: a esperança.
Eu posso conseguir, posso pular o muro deste labirinto.
Posso mudar o rumo da embarcação e encontrar a ilha mais bonita e paradisíaca
do Arquipélago da Esperança..."

(Jonas Ribeiro, 2001)

 

Apresentação

O presente artigo tem como objetivo fazer uma reflexão crítica sobre o trabalho de grupos juvenis que atuam na área temática DST/aids, que desenvolvem ações educativas de prevenção e ao longo do tempo vem perdendo forças diante das transformações do mundo do trabalho contemporâneo e seu reflexo nas Políticas Públicas de Saúde.

 

A Prevenção Dialogada

O envolvimento de grupos juvenis no enfrentamento da epidemia do HIV/aids, parte de um modelo de prevenção dialogada entre os pares, ou seja, de jovens para jovens. São referenciais juvenis para outros jovens, pois partilham das mesmas linguagens e vivências cotidianas no mesmo contexto social.

Este trabalho possui uma dimensão ético-política que propõe um outro modo de discutir as particularidades da população jovem, em busca de adotar práticas seguras e preventivas diante da epidemia de aids. Este novo modo de discutir a prevenção entre os jovens tem ido além do acesso à informação sobre HIV/aids e o uso do preservativo. A proposta é discutir as experiências que incidem nas relações interpessoais, políticas, afetivas e institucionais, que permeiam a vida dos jovens, quanto à temática da sexualidade.

O diálogo entre os pares tem possibilitado o reconhecimento dos jovens como sujeitos que fazem história e que são capazes de modificar e tomar decisões próprias referentes a sua própria saúde. De nada adianta que os adultos reconheçam a importância da prevenção na vida dos jovens, se eles próprios não conseguirem perceber o significado da prevenção em suas vidas (UNESCO, 2002).

Com a explosão da epidemia se expandindo por todas as classes sociais é impossível dissociar esta discussão das desigualdades econômicas, de gênero e étnico raciais, que perpassam as relações sociais. Este processo é um condicionante fundamental para compreender como o acesso às informações, aos serviços e recursos vão repercutir diretamente no impacto das respostas ao HIV/aids nas ações de prevenção e controle da epidemia voltada para população, inclusive para os jovens.

 

A Educação como Instrumento de Diálogo e Transformação Social

O modelo educativo hegemônico no campo da Saúde é fortemente marcado pelo paradigma biomédico, a doença enquanto entidade biológica materializada num corpo biológico, universal e atemporal, calcado na postura vertical: aqueles que sabem ensinam quem não sabe e estes, como decorrência, mudam seus comportamentos e atitudes que o expõem a riscos de doenças (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). Diante desta concepção de educação tradicional, prescritiva e autoritária associa-se a doença à falta de saber e responsabiliza o indivíduo colocando os sujeitos sob égide da tirania (ABATE, 2003).

Esse modelo limita a compreensão das complexidades das quais estão envolvidos os indivíduos não levando em conta os aspectos que não estão explícitos aparentemente no âmbito das relações sociais, uma vez que:

"A sociedade não é simplesmente o agregado dos homens e mulheres que a constituem, não é um soma tório deles, nem algo que paira acima deles... não há sociedade sem que estejam em interação os seus membros singulares, assim como não há seres sociais singulares isolados, fora do sistema de relações que é a sociedade" (NETTO; BRAZ, 2006).

A educação como práxis humana, em um modelo contra-hegemônico de educação, é um processo de reflexão, de consciência, de sentimentos e de ação, que exige uma relação de igualdade entre os pares, onde ambos ensinam e aprendem (FREIRE, 1996).

A atuação de diversos grupos juvenis tem ido ao encontro desses fundamentos provenientes do campo da educação popular, como uma alternativa a superar e romper com a imposição das determinações de classe, culturais e morais que estão postas na sociedade capitalista. Essa reflexão vai além de uma relação permanente de diálogo; exige um compromisso efetivo, de participação ativa de pessoas, grupos, movimentos e comunidades direta e/ou indiretamente afetadas pelo HIV/Aids no combate e no controle da epidemia.

Questionamentos, indagações e denúncias das desigualdades em todos os níveis de opressão e violações de direitos se fazem necessário para que os agentes da mudança possam legitimar o embate político na sociedade, lutando pela execução das políticas públicas e garantias de direitos assegurados pela legislação de nosso País.

 

Políticas Públicas X Neoliberalismo

Diante dos desafios que estão colocados não só para os jovens, mas para toda humanidade é muito importante fazer uma nova releitura do contexto social que estamos vivendo hoje.

As variantes sociais engendradas pelo neoliberalismo serviram como facilitadoras à rápida expansão da infecção HIV na população brasileira de um modo geral, e na população pobre de um modo especial (SOU-ZA; LEITE, 2006.). Esta configuração remete ao aumento do desemprego e à ampliação da precarização das relações de trabalho, afetando diretamente as condições de vida e de saúde da população mais pobre. Os consecutivos cortes nas políticas sociais e uma acentuada deterioração dos serviços públicos de moradia, previdência, assistência, educação e saúde, só vem a tornar mais aguda a chamada "questão social". O neoliberalismo vem por eliminar a intervenção estatal, promovendo a desregulamentação das atividades econômicas e a privatização dos setores públicos, fomentando a idéia de que o Estado controlador é uma violação à atividade econômica, política e moral (LAURELL, 1995).

As profundas mudanças na esfera do Estado, consubstanciadas na Reforma do Estado, transferem para a sociedade civil, através da filantropia empresarial ou do terceiro setor, as mazelas sociais derivadas dessas transformações. A Saúde virou mercadoria dentro da onda neoliberal, reforçando descaso dos governos com a saúde ficando incumbido ao Estado pelas ações básicas de saúde enquanto o restante deverá ser assumido pelo setor privado sobre as rédeas do mercado.

 

Jovens: Fazendo História

Nas periferias da cidade de São Paulo, muitos grupos juvenis, sem dispor de recursos financeiros, estão desenvolvendo ações educativas no campo da prevenção do HIV/aids. Apesar das condicionantes acima mencionadas, muitos se apóiam na preservação e valorização da vida. Por meio desses trabalhos realizados em diversos espaços, inclusive na escola, apostam na politização, através da leitura e participação ativa de outros jovens na comunidade no enfrentamento da epidemia do HIV/aids e de outras circunstancias que abarcam este público, trazendo para o bojo da discussão as desigualdades sociais que afligem os jovens da periferia constantemente em seu cotidiano.

Dos 60 milhões de pessoas no mundo inteiro que foram infectadas pelo HIV nos últimos 20 anos, mais da metade, tinham entre 15 e 24 anos à época da infecção. Hoje, 12 milhões de jovens estão vivendo com o HIV/aids. Os jovens têm sido apontados, no mundo todo, como população-alvo para a prevenção do HIV/ aids, a partir da idéia de ser esta faixa etária mais suscetível à epidemia porque expressa diferentes graus de vulnerabilidade em relação à aids, às outras DST, ou às drogas (UNESCO 2002).

Em Cidade Tiradentes, o Núcleo Cultural Força Ativa (NCFA) é um grupo organizado de jovens que desenvolve um trabalho de incentivo a leitura no bairro e tem como um dos eixos de atuação a sexualidade e a prevenção DST/aids. Este trabalho é desenvolvido utilizando oficinas, a partir de uma prevenção dialogada por pares, propiciando momentos de escuta e de troca que levam os jovens a refletirem sobre o conhecimento que já possuem e a adquirir novas informações, para que possam, a partir dessa bagagem, tomar decisões seguras em suas vidas, com responsabilidade.

Outro objetivo desse trabalho é formar agentes multiplicadores de prevenção em DST/aids, com o propósito de estimular os jovens a conhecer o seu corpo, desenvolver a auto-estima, cuidar de si mesmo, ter acesso à informação sobre as formas prevenção das DST/aids e sobre os serviços públicos que podem acessar, bem como os insumos de prevenção.

O NCFA diante deste trabalho desenvolvido nas escolas, associações de bairros, na biblioteca organizada pelo próprio grupo, impulsionou a implantação de um serviço público no bairro, realizado pela Secretaria Municipal de Saúde - Área Temática DST/ Aids: o Centro de Testagem e Aconselhamento em DST/ Aids o (CTA), uma unidade de saúde que visa orientar a população sobre os riscos das DST/aids, seu modo de transmissão, tratamento e controle, através de oficinas, palestras educativas, aconselhamento pré e pós testes HIV, distribuição de preservativos masculinos e femininos e materiais informativos. Dentro do CTA há um projeto especifico de atendimento aos jovens referente à prevenção, chamado "Plantão Jovem", que teve a Cidade Tiradentes como projeto piloto para a posterior ampliação em demais regiões de São Paulo. O Força Ativa atuou neste projeto durante quatro anos.

Atualmente, esse projeto continua sendo executado pela Secretária Municipal de Saúde. O Força Ativa esta atuando fora deste projeto, devido o "Plantão Jovem" ter tomado outro rumo no campo da prevenção, não sendo mais uma porta de entrada para o jovem no serviço público de saúde sem precisar estar doente.

A atuação de grupos juvenis, como o Força Ativa, tem um significado diferencial e tem um impacto importante na vida não só dos jovens, mas da comunidade. Até hoje, muitos jovens que freqüentavam o CTA/Plantão Jovem perguntam sobre a nossa ausência no projeto e relatam a dificuldade que encontram de ir à unidade de saúde, devido a falta de referência.

Hoje o projeto em Cidade Tiradentes conta com um número reduzido de plantonistas jovens, que só fazem o trabalho externo, não mais atendendo os jovens no CTA - espaço por excelência de prevenção - este trabalho precarizado é realizado em troca de uma bolsa-auxilio que tem o mesmo valor mensal de R$ 300,00 desde 2003 e não se configura como vínculo empregatício.

 

Considerações Finais

O trabalho com jovens no âmbito da prevenção, utilizando uma didática reflexiva/preventiva, é um caminho possível de diálogo, participação e mudança de comportamento diante da incidência do HIV/aids presente em nossa sociedade.

 

Referências Bibliográficas

ABATE, M.C. No lugar da tutela, o diálogo e o protagonismo. São Paulo: Editora Raiz e terra, 2003.         [ Links ]

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários á prática educativa. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1996.         [ Links ]

LAURELL, A. C. Avançando em Direção ao Passado: a política social do neoliberalismo. LAURELL, A. C,(Org.). Estado e Políticas no Neoliberalismo. São Paulo: Cortez, 1995.         [ Links ]

MESQUITA, F. DST/Aids: A nova cara da luta contra a epidemia na cidade de São Paulo. São Paulo: Editora Raiz e terra, 2003.         [ Links ]

NETTO, J.P.; BRAZ, M. Economia Política: Uma introdução Crítica. São Paulo: Editora Cortez, 2006.         [ Links ]

RIBEIRO. J . A Aids e alguns fantasmas no diário de Rodrigo. São Paulo: Elementar, 2001.         [ Links ]

SOUZA, Z. Serviço Social X Aids: Abandono, inviabilização e descaso na saúde. Congresso; 10o. CBAS; CFESS - CRESS 7a. região, ABEPSS, e ENESSO. Rio de Janeiro, UERJ , 2001.         [ Links ]

UNESCO - AIDS: O que pensam os Jovens, Políticas e práticas educativas. Brasília: UNESCO BRASIL, 2002.         [ Links ]

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA): Integrando prevenção e Assistência. Programa Nacional de DST/Aids.Brasília, 2004.         [ Links ]