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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.)  no.44 São Paulo abr. 2008

 

Movimento Negro Unificado: reflexões sobre dominação e opressão

 

 

Milton Barbosa

Fundador e Coordenador Nacional das Relações Internacionais do Movimento Negro Unificado. Contato: nfo@hi5.com

 

 

Temos que construir um mundo novo. Negros e negras do Brasil, com certeza, serão grandes agentes históricos da humanidade. Os negros no mundo estão esperando esta ação de negros e negras do Brasil. Mais ainda, a humanidade, como um todo, está esperando.

Eu, enquanto um "nego velho de Movimento Negro", vou debater alguns fundamentos da nossa luta, que é uma luta de curto, médio e longo prazo, uma luta de libertação, uma guerra de libertação, que não é mais como as feitas no século passado. Vamos ter que desenvolver novas técnicas para a construção desse mundo novo.

Lógico que vamos beber nas fontes anteriores: o Movimento Negro se guia pela história da humanidade, uma história de arianismo. O racismo não surge com o Capitalismo, o arianismo já está presente há milhares de anos, no Egito, na forma como que a Grécia se apossou do conhecimento do povo egípcio, na forma como Roma desenvolveu o conhecimento da Grécia, na forma como o mundo ocidental se apropriou desses conhecimentos.

O europeu desenvolveu técnicas de guerra, técnicas de um mundo novo em termos de organização econômica, e "partiu para cima do resto do mundo", sobre a Ásia, sobre as Américas dos indígenas, sobre a África dos negros: domina e oprime. Vamos ter que pensar sobre esta dominação e opressão.

Com a revolução no Haiti, o Imperialismo criou um processo para que, no mundo, o dinheiro não flua na mão dos negros; porque viram que os negros se organizaram economicamente no Haiti e fizeram uma revolução, matando os brancos e tomando o poder. Foi à luz do que aconteceu no Haiti, que foi desenvolvido um processo para marginalizar a população negra no Brasil. Já havia um processo de exploração, dominação, escravização; porém, com a revolução do Haiti, eles começaram a sofisticar sua ação.

No período pré-abolição da escravatura brasileira, os negros eram figuras presentes na arte nobre, eram escritores, poetas, músicos, pintores, políticos. Haviam vários políticos negros inseridos no processo, já que a História do regime escravocrata é também uma história de conflitos sociais, de avanços e atrasos, e incluía negros em determinadas esferas do poder. A própria sociedade criava formas para tentar dividir essa luta dos negros.

A História da humanidade é uma História de contradições. São nas contradições, que as revoluções avançam, que os avanços surgem. Temos que nos dar conta disso, é importante pensar sobre o papel da educação, porque não adianta ir a uma escola onde o negro vai estudar muito bem, mas estudar de acordo com os interesses de outro povo, outra comunidade, de determinado grupo opressor. Por isso, temos que desenvolver processos autônomos para trabalhar nossos conhecimentos, temos que exigir escolas de qualidade nas periferias, mas também, temos que levar em conta o que vamos aprender.

O racismo brasileiro é extremamente sofisticado e mais avançado do que em outros países, porque aqui não está nas leis, está impregnado nos costumes, na cultura do país. Dizemos que os negros na África do Sul tinham uma arma apontada para a sua cabeça; o negro no Brasil tem uma arma apontada para suas costas.

Hoje, com o avanço tecnológico dos países desenvolvidos, com a informatização, com a robotização, uma máquina produz por 100, 1.000, 10.000 pessoas. Há um contingente populacional que não será absorvido pelo mercado produtivo e, conseqüentemente, pelo mercado de consumo. Existem setores reacionários no mundo que falam abertamente: há uma população excedente que tem que ser eliminada. Os países desenvolvidos usam uma linguagem sofisticada para realizar esta eliminação: controle de natalidade, desregulamentação do trabalho, enxugamento do Estado. Com estas ações, querem retirar conquistas históricas da humanidade para ampliar a exploração sobre os oprimidos. A hora máxima por semana, hora máxima por dia, hora extra, décimo terceiro, licença maternidade e licença médica são conquistas que custaram muito sangue aos trabalhadores.

O enxugamento do Estado é outro ponto importante a ser discutido. A História colocou nas costas dos estados determinadas tarefas, na área da educação, saúde, moradia, transporte e outras. Com o neo-liberalismo, a pressão dos órgãos internacionais, do Fundo Monetário Internacional (FMI), Organização Internacional do Comércio (OIC), da própria Organização das Nações Unidas (ONU), é utilizada para oprimir países pobres e exigir que sigam leis e convenções restringem seu desenvolvimento. Há uma pressão muito grande para a privatização de setores essenciais, como educação, saúde, cultura, moradia e transporte.

Nossa ação, enquanto movimento organizado, terá que responder a todas estas questões colocadas na ordem do dia. E nós somos um movimento, sim, em construção, um movimento que avança, que cresce. Fazer esse tipo de trabalho que nós estamos fazendo aqui não é fácil não.

Mas eu tenho absoluta certeza que todos nós estamos saindo melhores do que quando nós entramos aqui. É uma grande satisfação saber que tantos jovens podem contribuir nesta construção, tendo refletido melhor sobre a nossa história, inclusive na necessidade das reparações.