SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 número44A criminalização da juventude popular no Brasil: histórias e memórias de luta na cidade do Rio de JaneiroDos navios negreiros aos dias de hoje: a violência e a juventude negra índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Artigo

Indicadores

  • Não possue artigos citadosCitado por SciELO

Links relacionados

  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

Bookmark


BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.)  no.44 São Paulo abr. 2008

 

Genocídio da juventude negra: da acumulação primitiva a superfluidade

 

 

Weber Lopes Góes

Bacharel em História, Integrante do Núcleo Cultural Força Ativa e ativista do movimento hip-hop. Contato: wafrican@ig.com.br

 

 

Estou partindo do pressuposto de que este é um encontro político, mas não é loby, nem palanque. Estamos vivendo em um momento de plena ofensiva da "direita explosiva", não só no Brasil, mas no mundo. Então o que nos cabe é, pelo menos, nos reunirmos e tentarmos construir uma reflexão que se aproxime da realidade na qual estamos inseridos. Estamos aqui para fazer uma reflexão de como poderemos combater essa ofensiva e percebermos que isso é resquício, na verdade, dessa sociedade autocrática em que estamos inseridos

Vamos fazer uma reflexão sobre o conceito de útil/supérfluo em relação aos africanos, desde dos primeiros que foram trazidos até a diáspora, pois sabemos que o africano foi útil na época da acumulação primitiva do capital (MARX, 1980), pois os europeus colonizadores traficavam africanos para todo o globo, transformaram o mundo numa grande África. Os africanos foram utilizados durante quatrocentos anos como trabalhadores escravizados. Neste período, do ponto de vista do capital, o africano foi útil, foram "coisificados", contribuíram para o enriquecimento da Europa e dos colonos daqui da América. Em suma, os povos provenientes da África tornaram ricos aqueles que hoje têm uma quantidade significativa de bens concentrados, tanto no Brasil, como na Europa. Esses exploradores que hoje são contrários aos quilombolas, aos movimentos sociais, à reforma agrária, etc. Do ponto de vista e da perspectiva do capital, nós fomos úteis nesse momento - período em que o capital precisava de trabalhadores para abastecer o mercado europeu e acelerar o processo de desenvolvimento do capitalismo.

Historicamente após a abolição da escravatura, as elites brasileiras construíram um projeto de nação onde os descendentes de africanos escravizados não estavam inseridos. Isto se deu porque as elites brasileiras tiveram como escopo uma sociedade baseada nos valores da Europa; desse modo, o Brasil teria de ser civilizado, branco e cristão (MOURA, 1988). Dentro desse projeto, o negro entrou, mas na perspectiva de genocídio criada pelas oligarquias brasileiras, porque as elites estavam influenciadas por teorias racistas. É aí que o Estado racista, autoritário e autocrático, vai construir uma série de medidas, com o intuito de completar esse projeto de nação.

Então, hoje estamos vivendo num período de plena ofensiva da "direita explosiva" do Brasil, do capital mundial; onde somos, do ponto de vista do capital, supérfluos, inúteis, pois, já completamos a fase de acumulação primitiva. Criaram uma nova política, a política de extermínio, nós nos tornamos para a elite brasileira e para esse projeto autocrático apenas ralés.

Recentemente, estive no Encontro Nacional da Juventude Negra (ENJUNE), na região do ABC, onde estava programado, para o período da tarde, uma manifestação contra a violência policial e contra a desigualdade social. Quando a manifestação já estava chegando ao final, fomos surpreendidos pela Policia: pararam a manifestação e levaram alguns companheiros para a delegacia, argumentando que estávamos fazendo acusações falsas contra a instituição policial.

Essa atitude abusiva dos policiais tem a ver com a própria natureza da formação histórica do nosso país. Ou seja, é característica do Estado brasileiro colocar na ilegalidade segmentos sociais quando as elites se sentem ameaçadas. Neste caso, o fato ocorrido na região central de São Bernardo do Campo, nada mais foi, do que uma demonstração de como o Estado se materializa; isto é, de como o Estado se manifesta de forma autoritária. Por isso precisamos entender sua natureza, perceber suas contradições e denunciar que este Estado é o aparato da classe que está no poder e, concomitantemente, manifesta as ideologias do grupo que controla a política e a economia. Essas ideologias são como o lema: "prospere individualmente"!

Entretanto, quando nos deparamos com a situação concreta, não há oportunidades e condições favoráveis para aquela população historicamente escravizada e que não foi indenizada. Assim, quando o indivíduo cansa de agir dentro da "ordem" estabelecida pelos dominantes e opta pelo lado mais "fácil", o capital denomina essa ação de "ato infracional" ou "delito" e, como a classe dominante já sabe que situações como estas e outras podem vir à tona, cria presídios dirigidos aos que não quiseram se enquadrar dentro da sua lógica.

Então, podemos perceber como esse antagonismo de classe está entre nós: quando a pessoa procura prosperar agindo fora da ordem, o Estado a põe na ilegalidade, criminalizando-a e criando aparatos para instituir seus projetos, como por exemplo: a criação de presídios, as medidas a favor da redução da idade penal e, até mesmo, a política de extermínio - cuja origem está contida desde o final do século XIX. Verificamos que tais medidas têm seu marco a partir de 1850, quando o Brasil começa, na verdade, a se modernizar. A gênese de tudo está no processo de industrialização.

Portanto, a atitude policial contra a manifestação, em São Bernardo do Campo, nada mais é do que a lógica da criminalização do Estado autocrático em que nós estamos inseridos. Fizemos uma manifestação pacífica, denunciando o genocídio propagado pela "direita explosiva" mundial e ainda fomos questionados pelos policiais que "afirmaram" que não tínhamos provas para dizer se a Polícia era racista ou não. Fomos tratados, assim, como inúteis.

Para que possamos entender essa inutilidade que estou frisando, é preciso verificar as mudanças ocorridas no universo da sociabilidade do capital; assim, veremos que o capital tem modificado todos os seus mecanismos de controle, inclusive no que tange ao processo produtivo. Estamos presenciando a mudança nos processos produtivos, onde a chamada "terceira revolução" (a microeletrônica) não requer mais aquele trabalhador da época fordiana, das fábricas clássicas, que estão sendo implodidas; as fábricas estão acabando.

A cidade agora está se "fabricalizando" (FERRARI, 2005) e uma quantidade de jovens que não está no processo de produção, do ponto de vista do capital, tem de ser exterminada. Somos vistos sob a ótica do capital como inúteis e supérfluos e isso se materializa, também, por meio do Estado. Por isso, nos destroem por meio da venda de drogas, dizimando a nossa população, argumentando que estão combatendo o tráfico de drogas; nos exterminam por meio da fome e das doenças e resgatam os cienticífismos lombrosianos de Nina Rodrigues (BENEDITO, 2005), reproduzidos nos programas televisivos que dizem que temos má índole, difundindo ideologias, afirmando que fazemos parte de um grupo populacional denominado de "sub-raça", que não temos História, dentre outras argumentações usadas para justificar a destruição daqueles que não valem nada para o capital. Essa é uma das questões que precisamos antentar: o Estado está nos dizimando. Em nossa atualidade, após as mudanças do mundo do trabalho, isto é, com a ofensiva do capital: as pessoas do mundo inteiro tornaram-se inúteis. É por isso que a classe dominante cria essas políticas de genocídio.

Outra coisa é o modo como o Estado vai mantendo esses aparatos: Acompanhei recentemente essa "Virada Cultural"1, onde após o grupo de rap Racionais Mc's entrar no palco, houve interrupção da apresentação por policiais. Este evento explicita como se dá a culpabilização, a criminalização, pois sabemos o que aconteceu lá, diferente do que o divulgado pela grande mídia. Reprimir os trabalhadores é uma prática que está introjetada em nossa História e na estrutura social de nosso país; é só verificarmos as leis como a lei "contra a vadiagem" (MOURA, 1988).

Os negros, historicamente, nunca puderam se reunir em um lugar para discutir suas questões; sempre foram impedidos de colocar em questão sua condição social, por serem descendentes de africanos escravizados. Em última análise, nunca puderam questionar o porquê de não terem sido indenizados até os dias de hoje. Também as escolas de samba foram reprimidas (nas as décadas de 1960 e 1970), a música rap hoje é questionada, o movimento hip-hop em sua totalidade e o funk são reprimidos. As religiões de matriz africana, entre outras formas de organização dos descendentes de africanos, sofrem perseguições até a nossa atualidade. Todas aquelas formas que o africano construiu para se reunir, para questionar, foram colocadas na ilegalidade.

Então, aquele episódio da "Virada Cultural", ocorrido na região central de São Paulo, na Praça da Sé, foi uma das práticas da autocracia do Estado. Foram eles que nos convidaram, pois eu poderia estar em casa lendo um belo livro ou fazendo outras coisas; mas me convidaram; chegando lá, fomos surpreendidos. Isso é uma política desse Estado autoritário e autocrático, anti-negro, anti-pobre e que tem como perspectiva a hegemonia do capital sobre o trabalho, como elemento base dessa sociedade.

O jornalista, Marcio Alexandre, editor do Portal DuBIG e dos blogs "Atentos à Mídia" e "Palavra Sinistra" e colunista do "Afropress" e do "Crônicas Cariocas", relatou:

"Desesperado para levar o pai a um hospital, Bruno correu para a avenida para tentar parar um táxi. Depois de algumas tentativas, sem êxito - quem vive no Rio de Janeiro sabe o quanto o motorista escolhe passageiro nessa cidade -, finalmente, um carro parou e Bruno nervoso, gesticulando muito, foi explicando ao motorista o que estava acontecendo. Neste momento, tomou um tiro de um policial que achou que Bruno estava roubando o táxi. Bruno era entregador de pizza, tinha 19 anos e era negro. No dia seguinte, Bruno e seu pai foram enterrados juntos, um foi vítima de sua velhice, das tristes condições da Saúde Pública do país; o outro, jovem, foi vítima do que, de fato, mais mata jovens negros no país: a discriminação e a indiferença".

Esse fato é para entendermos como essa política de Estado autoritário está pautada, ou seja, está presente em nossa sociabilidade. Vivemos numa sociedade onde há uma autocracia institucionalizada (MAZZEO, 2007).

A lição que temos hoje e que estamos vivendo e somos forçados a aprender a partir de nossas atuais condições econômicas e políticas, é que há um capitalismo que quer nos ludibriar com "projetinhos", que têm como objetivo nos convencer que "estamos vivendo numa sociedade sem classes", conforme Vera Malaguti Batista menciona ao discutir o papel das ONGs, que denomino "organizações neo-governamentais".

Um capitalismo humano, social, verdadeiramente democrático e igualitário é mais irreal e utópico que o socialismo (WOOD, 2003). Porque agora há discursos cheios de "verborragias", tais como: "já pintou a favela, não há mais problema para resolver... É isso que temos de combater; não podemos nos ludibriar com ações isoladas e "mistificatórias", porque na realidade falta tudo: falta investimento na saúde, na educação, moradia e, sobretudo, emancipação - que terá de ser conquistada por nós trabalhadores.

Nossas mães estão morrendo cedo, nossas crianças e jovens estão morrendo cedo... Para o capital, é isso, o que resta é dizimar aqueles que não estão consumindo e, tampouco, estão no processo de produção, seja branco, negro, japonês e entre outros povos.

 

Referências Bibliográficas

BENEDITO, D. Os deserdados do destino: construção da identidade criminosa negra no Brasil. Revista Palmares Cultura Afro-Brasileira; 52: 63. Brasília, Fundação Palmares, 2005. Disponível: http://www.palmares.gov.br/sites/000/2/download/revista2/revista2-i52.pdf . Acessado em fevereiro de 2007.         [ Links ]

FERRARI, T. Fabricalização da Cidade e Ideologia da Circulação. São Paulo: Terceira Margem, 2005.         [ Links ]

RODRIGUES, N. Collectividades Anormaes. Rio de Janeiro: civilização brasileira, 1939.         [ Links ]

MARX, K. O Capital (Capítulo XXIV). Livro I vol. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.         [ Links ]

MAZZEO, A.C. Estado e burguesia no Brasil: origens da autocracia burguesa. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 1997.         [ Links ]

MOURA, C. Sociologia do negro brasileiro. São Paulo: Ática, 1988.         [ Links ]

WOOD, E.M. Democracia contra capitalismo - a renovação do materialismo histórico. São Paulo: Bomtempo, 2003.         [ Links ]

 

 

 

1 Atividade cultural que concentra apresentações de shows e espetáculos gratuitos em vários pontos da cidade, promovida pela Prefeitura Municipal de São Paulo, em maio de 2007.