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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.)  no.44 São Paulo abr. 2008

 

Algumas considerações sobre seminário "Juventude Negra: Preconceito e Morte"

 

 

Suzana KalckmannI; Marisa FeffermannII

IBióloga, Mestre em Epidemiologia e Doutora em Ciências e Pesquisadora Científica do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde São Paulo. Contato: suzanak@isaude.sp.gov.br
IIPsicóloga, Mestre e Doutora em Psicologia e Pesquisadora Científica do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde São Paulo. Contato: marisaf@isaude.sp.gov.br

 

 

O Seminário "Juventude Negra: Preconceito e Morte" foi realizado em 17 de maio de 2007, promovido pelo Instituto de Saúde (IS), em parceria com Movimento Negro Unificado e o Grupo Força Ativa e apoio do Memorial da América Latina. O evento se inseriu no ciclo de atividades desenvolvidas pelo Grupo Juventudes e Vulnerabilidades e pela linha de pesquisa Raça/ etnia, Gênero e Saúde do IS, vindo, também ao encontro à demanda dos movimentos sociais de ampliação e reforço da campanha "Mano não morra, não mate"1.

A proposta do seminário foi buscar uma alternativa para sensibilizar os profissionais para a questão e para ampliar a instrumentalização dos jovens e militantes, propiciando espaços de troca de conhecimentos, experiências e vivências. Partiu-se do pressuposto que a discussão sobre a mortalidade e morbidade da juventude negra transcende a área da Saúde estrito censo.

Os dados de mortalidade do SUS apontam que a morte por causas externas é um dos motivos mais recorrentes na vida destes jovens. Isso ocorre, tanto por violência impetrada a estes jovens por agentes de segurança do Estado, como pela violência exercida pelo grupo que os cercam.

A violência simbólica é outro fator emergente, no que tange à realidade destes jovens negros, o preconceito é a sua expressão mais emblemática.

Desta forma, refletir sobre a saúde destes jovens ultrapassa a atenção de serviços específicos de saúde. Pensar a saúde é refletir sobre a forma e condições de vida, seus pares, suas opções de lazer e de cultura. Estes jovens buscam os serviços de saúde esporadicamente e em casos de emergência. Só as jovens chegam a tais serviços, de modo geral, grávidas.

Neste sentido, as duas mesas-redondas que compuseram a programação do Seminário debateram questões relacionadas à construção social do preconceito, juventude negra, preconceito institucional, violência policial, aspectos legais e mortalidade da população negra jovem. Foram, também, realizadas três apresentações culturais do grupo de dança TEMBUA, do Grupo de Rap Comuna Força Ativa e do Grupo AMANDLA.

Do total do número estimado de participantes (cerca de 700), 587 preencheram o cadastro de inscrição, o que possibilitou traçar um breve perfil desse público. Apesar da expressiva maioria residir em São Paulo (432, 73,6%), participaram também residentes de Osasco (27, 4,6%), Santo André (24, 4,1%), Guarulhos (22, 3,7%), São Bernardo (10, 1,7%) e em mais 35 cidades - a maioria da Grande São Paulo -, demonstrando a abrangência do evento.

Quanto à cor/raça, 24,7% (145), 15% (88), 45% (264) se auto-declararam de cor branca, parda e preta, respectivamente. Poucos se auto-declaram de cor amarela (7, 1,2%) e indígena (4, 0,7%). Se considerarmos, em conjunto, os de cor parda e preta, vê-se que 60% (352) eram negros, proporção acima da população geral; fato que evidencia a participação diferenciada deste grupo.

A idade dos participantes confirma a adesão específica dos jovens ao evento. A predominância foi pessoas com até 20 anos. Mesmo considerando a ampla diversidade quanto à faixa etária (10- 71 anos), a idade média dos participantes foi de 27,6 anos e mediana de 25 anos.

Parte-se do pressuposto que a saúde deve ser pensada como um conhecer a si, cuidar de si, respeitar a si e ao outro, reconhecer-se como parte integrante de uma comunidade, buscando preservar a vida, tanto a própria quanto a do outro. Por isso, seminários como este, em que o indivíduo torna-se protagonista da própria História, utilizando sua linguagem, sua forma de estar e perceber o mundo, são alternativas importantes para promover a saúde.

A motivação principal para a participação foi referida como a necessidade de ampliar, adquirir e atualizar os conhecimentos. Alguns também explicitaram o desejo por um espaço de reflexão, troca de experiências, discussão e decisões políticas.

Conhecer a História, entender como o preconceito foi construído historicamente, pode produzir um efeito transformador na subjetividade destes jovens, possibilitando a percepção do real problema e de inúmeras alternativas criativas para revertê-lo.

 

 

1 Campanha que vem sendo desenvolvida desde 2000, pelo MNU com apoio de vários parceiros, inclusive dos racionais MC. Objetiva o combate à violência e alta mortalidade de jovens, especialmente os negros.