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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

Print version ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.)  no.43 São Paulo Dec. 2007

 

Seminários de pesquisa em saúde bucal coletiva: uma estratégia para integração de serviços

 

 

Rebeca Silva de BarrosI; Carlos BotazzoII

ICirurgiã-Dentista, participante do Programa de Aprimoramento Profissional em Saúde Coletiva do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo,. Contato: rebeca_usp@yahoo.com.br
IIDoutor em Saúde Coletiva e Pesquisador Científico do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Contato: botazzo@isaude.sp.gov.br

 

 

Breve Histórico de um Percurso na Pesquisa em Saúde Bucal Coletiva

A formação do Observatório de Saúde Bucal Coletiva teve origem no Grupo de Estudos de Clínica Odontológica que se reuniu no Instituto de Saúde a partir de agosto de 2003 com o intuito de problematizar algumas relações entre a clínica odontológica e o Sistema Único de Saúde (SUS), vale dizer, das relações entre Odontologia e Sociedade.

No âmbito do Grupo, emergiram algumas interrogações: seria possível ampliar o exercício da clínica, de modo a torná-la inclusiva de grupos populacionais tradicionalmente excluídos? Seria possível aumentar a competência diagnóstico-terapêutica do cirurgião-dentista que atua na atenção básica? Seria possível formar equipes de saúde bucal, com pessoal auxiliar - técnico em higiene bucal (THD) e auxiliar de consultório dentário (ACD) - no exercício compatível de suas funções? Seria possível incrementar/estimular as relações da equipe de saúde bucal com a sociedade local? E seria, finalmente, possível implementar formas democráticas de gestão ou investir na co-gestão de coletivos?

Estas interrogações nos conduziram à proposição deste Observatório de Saúde Bucal Coletiva em fevereiro de 2004, quando se realizou no Instituto de Saúde a 1ª sessão de um seminário que tomou o nome de "Pesquisa em Saúde Bucal Coletiva: integrando serviços". Neste mesmo ano, houve a abertura do Edital MS/CNPq 038/2004, com seleção pública de propostas tratando de políticas de saúde bucal, criandose a possibilidade de estruturarmos um projeto que poderia, caso aprovado e com recursos, dar institucionalidade e capacidade operativa de forma mais ampla para a condução de estudos sistematizados sobre a situação que se desenhava no território da antiga Direção Regional de Saúde V - Osasco, atualmente incorporada ao Departamento Regional de Saúde I.

Metodologicamente, escolhemos pesquisa-ação como técnica de investigação para pesquisa científica porque este método, ao aproximar o grupo de pesquisadores e os sujeitos da pesquisa, possibilita a intercomunicação e relacionamento entre o pólo investigador e o pólo investigado (THIOLLENT, 1981). Esse encontro de sujeitos num espaço sócio e politicamente determinado proporciona a identificação de problemas que e como tais problemas afetam os diferentes sujeitos e a proposição de soluções construídas numa perspectiva coletiva.

Os eixos temáticos para pesquisa e debate no âmbito do projeto se concentraram em cinco componentes, a saber: clínica ampliada, ações coletivas, informação em saúde, co-gestão e média e alta complexidade. Dentre as ações desenvolvidas no período de vigência do projeto encontraram-se desde a modalidade de observação, até pesquisa-intervenção em campo.

Nesse artigo, focaremos na apresentação e discussão da modalidade de execução de seminários de pesquisa, como estratégia de integração de serviços1e publicização do conhecimento.

 

Seminários de Pesquisa em Saúde Bucal Coletiva - produção de conhecimento e sua incorporação no cotidiano dos serviços

O Observatório de Saúde Bucal Coletiva realizou, com regularidade, seminários de pesquisa dos quais participaram pesquisadores, profissionais e mesmo usuários (conselheiros dos Conselhos de Saúde da região do Observatório).

O objetivo dessas reuniões teórico-metodológicas foi oferecer suporte teórico-crítico para as equipes locais de saúde, formuladores de políticas e gestores do SUS e, igualmente, para a reflexão sobre as relações entre o aparelho formador e o sistema de saúde a partir da: 1) articulação de pesquisadores e docentes de distintos centros produtores de conhecimento em saúde bucal; 2) apresentação de resultados de pesquisas conduzidas nestes centros à luz de novas referências teóricas e metodológicas; 3) estimação (ou estimativa?) do potencial de inovação na organização tecnológica do trabalho e no recorte de objetos para a investigação; 4) organização e coordenação da difusão do conhecimento.

Tais seminários se iniciaram em 2004 e por meio deles foi possível estimar o potencial de participação dos profissionais e dos usuários na formulação de políticas, identificar nós-críticos na oferta de serviços e limites na competência diagnóstico-terapêutica dos dentistas da região e equacionar propostas de superação pelo incremento da capacidade resolutiva e desenvolver metodologia de formação com vistas à ampliação da clínica de odonto-estomatologia consoante à integralidade e à universalidade do SUS, assim como, propiciar "massa crítica" e formação da própria equipe do projeto.

As sete primeiras sessões foram realizadas em 2004, na fase preparatória do Observatório e, mesmo depois de implantado o Projeto, mantiveram a seqüência e o mesmo desenho. Cada uma delas teve diferentes objetivos e finalidades, e, em conjunto, permitiram acumular conhecimentos entre distintos sujeitos, propiciar troca de experiência entre os componentes das equipes de saúde bucal e colocar os participantes diante do desafio de pensar o cotidiano dos serviços muitas vezes a partir de procedimentos "sem muito rigor metodológico", como foi o caso do levantamento de necessidades sentidas de tratamento odontológico, na 5ª Sessão dos Seminários, conduzida por meio de "enquete" da qual participaram pesquisadores, dentistas, auxiliares e conselheiros usuários, com base em roteiro de entrevista.

As oito sessões seguintes foram realizadas já no âmbito do projeto. Na 8ª sessão foram definidos os temas que deveriam ser incorporados numa futura formação clínica, outra vez com a participação dos dentistas das equipes de saúde bucal, auxiliares e conselheiros, além, naturalmente, dos pesquisadores.

A problematização se deu a partir da exposição de "casos clínicos" selecionados pelos dentistas, explicitando os "limites" sentidos para a efetivação do trabalho clínico. Assim, o foco foi o paciente adulto com sua carga de doença bucal, os portadores de patologias crônicas, os seqüelados neurológicos, os casos "bucais" de maior complexidade, o fluxo da referência e da contra-referência, exames complementares, registro da informação, seguida da observação de que, em tudo, este processo é diferente do recorte puericultor ou materno-infantil (cariológico), base tradicional dos conceitos "programáticos" presentes na organização dos serviços.

Nas sessões 9 e 10, realizadas em dezembro de 2005, foram apresentadas "as primeiras leituras" permitidas pelo Observatório. Abriram-se os debates com gestores municipais e regionais de saúde, incluindo representantes do Núcleo de Educação Permanente da (extinta) Direção Regional de Saúde (DIR) V - Osasco, do Pólo da Região Metropolitana de São Paulo.

O conteúdo programático tomou duas grandes vertentes: a dinâmica social na região e as questões do poder local (9ª sessão) e a impossibilidade histórica de uma "clínica integrada" de odontologia com relação à inclusividade ("acolhimento e desvio") de uma clínica ampliada de odonto-estomatologia (10ª sessão). Também, na 9ª sessão, com as "primeiras leituras", foi possível explicitar a pluralidade dos modelos de organização local do SUS e a variedade da organização do trabalho em saúde bucal, e isto no tocante ao número de equipes, incorporação de pessoal auxiliar, uso da informação em saúde, protocolos de referência e contra-referência, abrangência do cuidado em saúde bucal prestado à população, entre outros aspectos relevantes.

As sessões de 11 a 15 foram as primeiras abertas ao público e nelas se buscou inovar na programação. Assim, enquanto nas sessões anteriores o foco recaía na formação da própria equipe, nestas foram organizados debates em torno de questões relevantes para a organização do SUS. Os temas foram, seqüencialmente, os seguintes: 11ª sessão: Atenção Básica e Saúde Bucal na Atenção Básica; 12ª sessão: Informação em Saúde e Indicadores de Saúde, 13ª sessão: A Gestão da Saúde Bucal no SUS; 14ª sessão: Especialidades Odontológicas, o Ensino da Odontologia e o SUS; e 15ª sessão: A Cárie Dentária como Fetiche.

Foram convidados pesquisadores e gestores em posição de contribuir com o debate, e participaram como ouvintes coordenadores municipais, dentistas das equipes de saúde em unidades básicas e de saúde da família, conselheiros dos conselhos municipais de saúde e outros interessados, representando dezenas de cidades do estado de São Paulo e capital, com aproximadamente 100 ouvintes a cada sessão.

A 16ª sessão, realizada em setembro de 2007, dedicou-se à apresentação do Relatório Científico do Projeto enviado ao CNPq com participação de representantes das esferas federal, estadual e municipal como comentaristas dos resultados de pesquisa apresentados publicamente no Instituto de Saúde.

 

Considerações Finais

A oportunidade de propor a realização desses seminários coroou as expectativas, entre os pesquisadores e profissionais da saúde bucal, de estreitar o intercâmbio entre gestores, trabalhadores, usuários e pesquisadores dos centros e grupos de pesquisa atuantes neste específico segmento da Saúde Coletiva.

Como uma das estratégias, os Seminários de Pesquisa constituíram modalidade inovadora de reunião técnico-científica dinamizada pelo Observatório de Saúde Bucal Coletiva. Tiveram por finalidade consolidar e desenvolver a equipe e propor o aprofundamento teórico e metodológico do coletivo, com a agregação de novos meios de trabalho e de linguagem comum e identitária. Foram propostos como extensão do Grupo de Estudos em Clínica Odontológica, de natureza multiprofissional, que inicialmente reunia estudantes de graduação e pós-graduação interessados em problematizar aspectos da prática odontológica.

Como inovação houve, desde o começo, a participação não apenas dos pesquisadores, mas também dos trabalhadores dos serviços (dentistas e auxiliares) e conselheiros-usuários dos Conselhos Municipais de Saúde. Desta maneira, foi possível partilhar experiências, levantar expectativas, identificar problemas e propor soluções. Também foi relevante tal arranjo, pois permitiu que distintos atores pudessem se encontrar num mesmo espaço e na mesma ocasião, com suas distintas posições ou visões do SUS.

A despeito de que se dê grande ênfase à participação popular na saúde e, igualmente, se enfatize as diferenças entre os sujeitos, raramente estes encontram ocasião para se confrontar. Assim, foi oportunidade única a possibilidade deste convívio "heterodoxo". Não por acaso, tais reuniões denominaram-se "Seminários de Pesquisa em Saúde Bucal Coletiva: Integrando Serviços".

A promoção dessas reuniões significou uma oportunidade fundamental, posto que o espaço oferecido por congressos ou encontros de maior envergadura permite a difusão do conhecimento, sem dúvida. Porém não foi possibilitou o aprofundamento teórico-político e metodológico necessário para fornecer subsídios para a definição de uma agenda de pesquisas em Saúde Bucal Coletiva comum às prioridades da pesquisa em Saúde e à Política Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde.

 

Referências Bibliográficas

THIOLLENT M. Crítica metodológica, investigação social e enquete operária. São Paulo, Livraria e Editora Polis. 2ª edição, 1981. Coleção Teoria e História.         [ Links ]

 

 

1 Por serviços compreendemos a academia, os institutos de pesquisa, as unidades de saúde, as secretarias municipais/estaduais de saúde e seus respectivos conselhos.