SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 número42Distribuição da contracepção de emergência na Atenção Básica de São Paulo: caracterização de oferta em PSF e UBS dos municípios do estadoO Método Mãe Canguru: um encontro entre a tecnologia, a humanização e a cidadania índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Artigo

Indicadores

  • Não possue artigos citadosCitado por SciELO

Links relacionados

  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

Bookmark


BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.)  no.42 São Paulo ago. 2007

 

Preservativo feminino de látex (L'amour): você conhece?1

 

 

Suzana KalckmannI; Claudete Gomes dos SantosII; Vanessa Martins da CruzIII

IBióloga, Mestre em Epidemiologia, Doutoranda em Ciências e Pesquisadora Científica do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Contato: suzanak@isaude.sp.gov.br
IIHistoriadora, Mestre em Ciências e Educadora em Saúde do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Contato: cgsantos@isaude.sp.gov.br
IIIFisioterapeuta e Assistente de Pesquisa do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Contato: vanessa@isaude.sp.gov.br

 

 

Introdução

No Brasil, o crescimento da epidemia de aids pela transmissão heterossexual vem ocorrendo em maior velocidade do que pelas outras formas de transmissão entre as pessoas com treze ou mais anos de idade (BRASIL, 2006). Vários estudos nacionais e internacionais têm evidenciado a maior vulnerabilidade da mulher frente ao HIV e a aids, tanto em países desenvolvidos, como nos países pobres, em todos os continentes. Vale ressaltar que a violência sexual ou o medo de sua ocorrência interferem na negociação de uso de preservativos masculinos com os parceiros sexuais, ampliando a possibilidade de relações desprotegidas (MANE; AGGLETON, 1999; OMS, 2006; BERER, 2007).

No sentido de reverter esse quadro, tem havido esforços mundiais para o desenvolvimento e adoção de novas alternativas de proteção, que propiciem a dupla proteção, ou seja, evite a gravidez não desejada e as DSTs/HIV, e que propiciem o empoderamento das mulheres, entre as quais destaca-se o preservativo feminino (WHO, 1997, BRASIL, 2002).

O preservativo feminino foi desenvolvido no final dos anos 80 por uma equipe dinamarquesa e colocado no mercado com o nome de "Femidom", em 1992 (WHO, 1997). No Brasil foi comercializado e disponibilizado pelo Ministério da Saúde como "Reality", a partir de dezembro de 1997.

Este preservativo feminino (Reality) é um tubo de poliuretano transparente com cerca de 16 centímetros de comprimento por 7,8 centímetros de largura. Possui dois anéis flexíveis, também de poliuretano. Um deles fica solto dentro do tubo e serve para ajudar na sua inserção e fixação junto ao colo uterino. O outro anel forma a bainha externa do preservativo que, quando colocado, cobre parte da vulva. É pré-lubrificado e deve ser usado uma única vez. (WHO, 1997; KALCKMANN , 2006).

O novo preservativo feminino é de látex e representa a segunda geração dos preservativos femininos. Foi desenvolvido pela Medtech Health Products Limited, sediada na Índia e recebeu o nome de "Reddy Female Condom", como também é comercializado nos Estados Unidos e na Europa (www.medtechproducts.org). Na África é chamado de "V Amour" e, na América do Sul, de "L'amour".

No Brasil recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) do Ministério da Saúde para comercialização (registro 10208250011) em 2006. Embora o seu custo estimado seja cerca da metade do seu similar de poliuretano (Reality), ainda é comercializado por um preço bem acima dos preservativos masculinos.

O L'amour é uma bolsa transparente de látex, o mesmo material do preservativo masculino, lubrificada, com uma esponja macia de poliuretano em seu interior, que facilita a sua inserção e manutenção durante a relação sexual. A abertura em forma de "V" (motivo pelo qual também é chamado de VA-Feminine Condom), de material mais rígido, não flexível, também ajuda a mantê-lo posicionado e protege parte da vulva. Tem cerca de 90mm de comprimento e 75mm de largura e deve ser usado uma única vez (Figura 1).

 

 

Objetivos

Este estudo teve como objetivo avaliar a aceitabilidade do produto entre mulheres de São Paulo, identificando fatores que possam facilitar ou dificultar seu uso, buscando subsídios à sua implementação.

 

Metodologia

Foi realizada uma sondagem de opinião entre usuárias de uma unidade do Programa de Saúde da Família (PSF) da periferia de Guarulhos e de uma Associação Comunitária na zona leste do município de São Paulo, em 2006. As interessadas responderam à entrevista individual e, após consentimento informado, participaram do grupo focal inicial, realizado em cada uma das instituições, no qual os preservativos femininos de látex e de poliuretano foram apresentados (Figura 2), com discussões sobre motivações para o uso, experiências anteriores com preservativo feminino, questões de gênero, além das orientações sobre o manuseio do método, com auxílio de modelo pélvico. As participantes receberam, cada uma, 2 preservativos femininos de látex, 2 de poliuretano e 4 masculinos. Após cerca de trinta dias, foi realizado o segundo grupo focal, no mesmo formato do anterior para registro das experiências e opiniões sobre o produto. Os quatro grupos focais (dois por instituição) foram gravados e as fitas posteriormente transcritas, para análise. O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Saúde, sendo aprovado (Figura 2).

 

 

Resultados

No grupo focal inicial participaram 48 mulheres no total, 31 da unidade do PSF e 17 da associação comunitária.

Praticamente todas (93,8%) já haviam usado o preservativo masculino anteriormente e 43,8% o feminino de poliuretano. As participantes tinham idade entre 16 e 56 anos, com média de 36,2 anos (±9,8) e mediana de 37 anos. A maioria tinha parceiro sexual fixo (89,6%), com 75% do total residindo com eles. A expressiva maioria já havia ficado grávida, apenas 8 (16,7%) não tiveram gravidez anterior. A maioria (62,5%) não exerceu atividade remunerada nos três meses anteriores ao grupo focal inicial.

No grupo focal inicial a maior preocupação foi com a segurança contraceptiva do método. Também discutiram a necessidade de terem suas próprias alternativas para o enfretamento da infidelidade masculina. Vale salientar que a proporção de mulheres que já haviam experimentado o preservativo feminino (Reality) foi alta comparada à população geral, pois nestes locais já houve a sua dispensação, anteriormente. Os motivos apresentados para desejarem usar o preservativo feminino foram similares aos de outros estudos: insatisfação com o método usado, rejeição da camisinha masculina pelo parceiro, busca por alternativas que propiciem variação, etc (BARBOSA et al., 1999; HOFFMAN et al., 2004; KALCKMANN, 2006).

No segundo grupo focal retornaram 32 mulheres: 20 do PSF (64,1%) e 12 (70,6%) da Associação Comunitária, praticamente todas usaram o preservativo de látex no período, apenas uma referiu não ter usado.

Nesse retorno foram apontados como aspectos positivos: O formato do aro externo, mais rígido, que segundo elas ajuda a fixar melhor que o de poliuretano. O seu ajuste à vagina é melhor e interfere menos na estética:

"O aro duro é melhor, porque não entra na hora da relação"; "Como é menor, não fica tão feio, não fica aquela sobra"; "Como é menor, não assusta o homem, não faz barulho"; "Não fica pendurada".

(Entrevistada)

Outras gostaram da espuma interna:

"Adorei a espuminha dentro, acho que aumenta o tesão"; "Meu marido adorou, ele conseguiu chegar no fundo"; " Eu tive a sensação que era um pênis enorme, foi muito bom!".

(Outra Entrevistada)

Algumas consideraram a inserção deste preservativo mais fácil:

"Achei mais fácil para colocar, não precisou botar o dedo pra ver se estava certo".

(Outra Entrevistada)

Entre os aspectos negativos foi apontada a dificuldade para a colocação do método, duas participantes não conseguiram usar, uma de cada um dos locais.

Uma usuária do preservativo de poliuretano afirmou que:

"...essa é mais difícil, a esponjinha escorrega na hora de colocar, o outro tinha a argolinha durinha, era mais fácil".

(Outra Entrevistada)

Para uma mulher a esponja foi um problema:

"Eu não gostei da esponjinha, tirei e ficou ótimo, o pênis foi o aplicador".

(Outra Entrevistada)

Uma participante relatou que, durante o coito, sentiu dor, devido à pressão do aro externo na vulva. Outra disse que o preservativo saiu durante a relação sexual.

O grupo reagiu, discutindo que se tivessem maior número de preservativos femininos disponíveis poderiam treinar e "pegar mão".

A questão central das discussões, no entanto, nos dois locais, foi a disponibilização futura de preservativo feminino, quer seja de poliuretano ou de látex.

 

Conclusão

A aceitabilidade foi boa entre a maioria, com relatos do desejo de continuidade de uso. Os dados evidenciam que há mulheres que desejam alternativas que propiciem a dupla proteção, que evite a gravidez não desejada e também as DST/Aids, que sejam controladas por elas próprias e não provoquem efeitos colaterais sistêmicos.

É interessante ressaltar que uma mesma característica foi considerada positiva para um casal, e negativa para outro, apontando para a necessidade da coexistência de vários modelos e diversidades de preservativos femininos, assim como do masculino, que poderiam ampliar a parcela de pessoas protegidas contra as DST/Aids.

 

Agradecimentos

Agradecimentos especiais à Maria Isabel Carvalho, da Associação Comunitária da Vila Mara e à Claudia dos Anjos Santos da unidade de PSF Bambi de Guarulhos, que organizaram os grupos focais. E a todas as mulheres que compartilharam conosco suas experiência, dificuldades e desejos.

 

Referências Bibliográficas

BARBOSA, R.M.; BERQUÓ, E.; KALCKMANN, S. Aceitabilidade do condom feminino em contextos sociais diversos. Relatório final de pesquisa. Brasília. Ministério da Saúde, Secretaria de Políticas de Saúde, Coordenação Nacional de DST e Aids; 1999. Disponível em: [http://www.nepo.unicamp.br/textos_publish/relatorios/condom.pdf] . Acesso em 20 jan 2002]         [ Links ].

BERER, M. Dupla proteção: mais necessária do que praticada ou compreendida. Questões de Saúde Reprodutiva, 2007; 2(2):23-33.         [ Links ]

BRASIL, Ministério de Saúde. Políticas e diretrizes de prevenção das DST/aids entre mulheres. Brasília, 2002. Disponível em [http://www.aids.gov.br/data/documents/storedDocuments/%7BB8EF5DAF-23AE-4891-AD36-1903553A3174%7D/%7B8370F012-9340-465D-843ABE008A4E046%7D/manual_diretrizes_prevenção_mulheres_outubro_2002.pdf]. Acessada em janeiro 2007.         [ Links ]

BRASIL, Ministério de Saúde. Boletim Epidemiológico Aids/DST. Ano III, nº01, Brasília, 2006.         [ Links ]

HOFFMAN S, MANTELL J, EXNER T, STEIN Z. Viewpoints: The future of the female condom. Perspect Sex Reprod Health, 2004, 36(3):120-6.         [ Links ]

KALCKMANN S. Preservativo feminino: percepções e opiniões de homens da cidade de São Paulo, Brasil. Anais do VII Congresso Virtual HIV/AIDS; 2006. Disponível em [http:www.aidscongress.net]. Acesso em 28 out 2006.         [ Links ]

MEDTECH HEALTH PRODUCTS LTD. Disponível em [http:www.medtechproducts.org]. Acesso em janeiro de 2007.         [ Links ]

MANE P.; AGGLETON P. Gênero e poder: comunicação, negociação e preservativo feminino. In: BARBOSA R.M. e PARKER R. Sexualidades pelo avesso direitos, identidades e poder. Rio de Janeiro, IMS/UERJ; São Paulo, Ed.34, 1999. pp.215-228.         [ Links ]

OMS - Organização Mundial de Saúde. Violencia contra la mujer infligida por su pareja. 2006. Disponível em: [http://www.who.int/gender/violence/who_multicountry_study/summary_report/chapter2/es/]. Acesso em 18 jan 2007]         [ Links ].

WHO - World Health Organization. The Female condom: a Review. Geneva, 1997.         [ Links ]

 

 

1 Resultados preliminares do estudo: "Conhecendo o preservativo feminino de látex, coordenado por Suzana Kalckmann, no Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde, em 2006.