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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.)  no.41 São Paulo abr. 2007

 

Relato de vivência de parto num centro de treinamento em humanização de São Paulo

 

 

Siomara Roberta de Siqueira

Psicóloga, Especialista em Saúde da Criança pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e em Sexualidade e Saúde Reprodutiva pela Universidade Estadual de Campinas, Mestre em Ciência pela Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e Assistente Técnica de Pesquisa do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Contato: siomara@isaude.sp.gov.br

 

 

Grávida, que delícia! Sempre desejei ter um filho(a) e esse momento demorou a chegar. Comecei a gostar dessa idéia cada vez mais e fiz o que estava ao meu alcance para ter uma gravidez saudável e um parto normal: parei de fumar, tentei não engordar, caminhava todos os dias. Estava visando meu bem-estar, o do bebê e ter um parto normal, pois sei que esta é a melhor opção, tanto do ponto de vista biológico, quanto psíquico para a mãe e o bebê.

Minha gravidez correu tranqüila, apesar dos meus quase quarenta anos. Trabalhava, fazia aulas de dança do ventre, ia e voltava todos os dias de motocicleta do meu trabalho.

Preocupada com o momento do parto, fui conhecer as casas de parto de São Paulo. Existiam duas, na época, localizadas na periferia, e escolhi a mais próxima de minha casa (cerca de uns quarenta quilômetros).

Dentre os critérios para iniciar o acompanhamento na casa de parto é preciso estar próximo às trinta e seis semanas de gestação, não ter mais de quarenta anos, não ser gravidez de alto risco e, é claro, querer o parto normal.

Fui três vezes para consultas na "Casa de Maria", gostei de conhecer um local de atendimento exclusivo ao parto, extra-hospitalar. O pré-parto, parto e pós-parto são no mesmo local: um quarto com equipamentos de monitorização do bebê, dentre outros; banheira de hidromassagem; direito à entrada de um acompanhante escolhido pela parturiente (companheiro, mãe, irmã, etc). Se o acompanhante for do sexo masculino pode permanecer o tempo todo com você, até o parto (após o parto só mulheres são permitidas como acompanhantes).

O final da gravidez se aproximava e eu, cada vez ficava mais ansiosa em conhecer minha filha (no sétimo mês descobri ser uma menina). Minha gravidez passou das 36, 37, 38 semanas e se aproximava da 41ª.

Minha família começou a ficar desesperada com esta "demora" e querendo o que achavam que seria o "melhor" para mim: clamavam por uma cesariana, pois tinham medo da criança "passar do tempo de nascer". Neste momento e em muitos outros, a Doutora Daphne Rattner me ajudou e muito. Ela, minha "doula" à distância, foi quem me explicou que no Brasil as pessoas são preocupadas com o tempo, mas em outros países é comum a espera até 42 semanas. Entre a ansiedade e a experiência de uma das pessoas que mais contribuiu para o parto humanizado no Brasil, optei pela segunda.

Esperei, esperei e eis que a minha pressão sangüínea (PA) começou a subir e, assim foi durante as duas últimas semanas, até a minha filha nascer. Tive de fazer controle hospitalar por ordem médica para verificar a PA de dois em dois dias. Por isso, minha filha teve de nascer em um hospital, pois nas casas de parto só são atendidas mulheres em boas condições de saúde. Escolhi um hospital público próximo à minha casa, referência em parto humanizado.

Pois bem, em uma quinta-feira chuvosa senti que daquele dia "não passava". Minha pressão estava alta e eu, me sentindo um pouco diferente: um misto de alegria e receio tomava conta de mim. Resolvi lavar toda a roupa de casa, trocar os lençóis, depilar (o que descobri posteriormente que não precisa mais hoje em dia). Por volta das 14:00 horas, o intervalo entre as contrações, que era grande, começou a diminuir. Liguei um CD e fiquei dançando, pois minha doula me ensinou que exercício ajuda no trabalho de parto e, também, a não pensar em contração como dor, mas como parte do processo do trabalho de parto.

Arrumei minha "mala" de hospital, peguei a da minha filha e aguardava, entre dançar e entre comer frutas, a chegada do André, meu companheiro. Ele chegou, e como era de se esperar, estava com PA alta (muito engraçado, todos os sintomas que tive, ele passou também, das vontades de comer coisas à pressão alta. Enfim, tive um companheiro grávido!). Disse "Vamos para o hospital, de hoje não passa". Ele também estava se sentindo mal, PA alta, mas como pai participativo que foi e é, nos levou de moto até o hospital da zona norte.

Lá chegando, foi constatado a PA de 16 por 10 e a dilatação de cerca de cinco centímetros. Fui internada e, neste momento instalaram soro, mudaram minha roupa pessoal, recolheram minha mala e outos objetos pessoais. Entretanto, o mais difícil foi que (pasmem!) não pude ficar com o acompanhante, nem o pai da criança.... Reclamei, é claro! Disse que é direito da gestante, que está na cartilha... O que recebi de resposta foi: "podemos transferir a senhora para outro hospital....".

Neste momento, fragilizada, com receio desta demanda interferir no atendimento e desejando receber o melhor, resolvi ficar para não ter que ser transferida para outro hospital desconhecido. André foi embora, levando minha "malinha", a de minha filha e, quem sabe, a possibilidade de ver o nascimento de nossa filha (o que era muito desejado por ele).

No hospital, uma madrugada fria, eu com os pés gelados, me deram uns três "propés" depois de muito reclamar do frio. O corpo continuava gelado. Pedi cobertor e a resposta foi: "não tem, acabou, teria de ter sido pedido mais cedo e você só chegou agora" (eram cerca de 22:00 horas). "Hoje estamos com muitas pacientes". De tanto falar que estava com frio, arrumaram para mim uns três mantos de um tecido fino, parecido com papel, daqueles descartáveis que se usam em centros cirúrgicos.

Para vivenciar o trabalho de parto, senti vontade de ficar ao lado da cama, em pé, dançando a dança do ventre. E, assim foi. Às 2:00 horas da manhã uma médica veio me examinar e como estava com oito a nove dedos de dilatação disse "agora você não pode ficar mais em pé, tem de deitar, pois a criança pode nascer e cair se você estiver em pé". Argumentei que li textos, que fui instruída a me movimentar durante o trabalho de parto, disse o nome de cinco médicos e nada. Os residentes que estavam no momento foram arbitrários: "deita!". Quando se distanciaram tentei continuar como anteriormente, mas a equipe da enfermagem que ouvira o que os médicos disseram não me deixava ficar em pé dançando.

Chorando fui para o leito e daí comecei a sentir dor. Com frio, sem meu companheiro, com dor, resolvi ficar indo e vindo ao banheiro com uma certa freqüência - e lá eu ficava dançando. Logo perceberam meu truque e veio um médico estourar a minha bolsa para apressar o parto. Novamente pedi para ficar em pé, me movimentando, pois não tinha sentido ficar deitada, já que não antes de me deitarem estava sem frio e dor. Pedido negado. Fui ficando cada vez mais pesada e com mais dificuldade de me levantar da maca (bem alta) e chorei.

Outras mulheres passavam, indo para a sala de parto, de onde vinham gritos.... O que será que fazem lá para gritarem assim? Pedia a Deus proteção para mim, minha filha e para o meu companheiro que (eu sabia) estava sofrendo também por não poder estar por perto. Às 7:00 horas da manhã, decretaram que eu deveria tomar um banho de alívio e fiquei no banheiro cerca de uma hora sentada em cima de um banquinho. No início foi bom, mas devido ao frio fechei a porta. Não demorou e bateram na porta "não pode fechar a porta, você pode se sentir mal". Retruquei que estava ventando, mas foi em vão... Tentei sair, mas disseram: "fica aí, é bom para você".

Voltei para a maca e tentei dormir, mas começou a doer muito. Nesse momento (já de manhã), veio uma "doula" que me ajudou, me aconselhou, mas não entendia o meu pedido de ficar em pé, de me movimentar. Ela direcionou meus pensamentos para várias coisas, para o bebê, para me concentrar e, por fim, senti sono, pois estava exausta e sem comer há mais de 15 horas. Comecei a dormir.

Passado pouco tempo (a doula ainda estava do meu lado, segurando a minha mão), apareceu uma médica que disse: "Você é a Siomara? Sou a Doutora Marina, amiga do Doutor Agenor, vou ajudar você". Me levaram para a sala de parto e, lá, me passaram para uma mesa cirúrgica que estava com problemas, não levantava. O anestesista chamou a enfermeira responsável e esbravejou muito sobre a condição da mesa, à qual ela retrucava. Fui para outra sala.

Na anestesia, ele errou o tamanho da agulha, tive de levar uma segunda agulhada na coluna sem me mexer e escutando o médico esbravejar que "nem por dois mil ele faria novamente isto". A anestesia fez efeito.

Então pediram para eu fazer força: "eu estou vendo a cabeça, é cabeluda! Pode parar de fazer força, agora é conosco". Assim nasceu Gabriela às 11:05 horas do dia 26 de abril de 2006. O André chegou à sala só às 11:10 horas, pois quando subiu ao centro cirúrgico pediram para colocar o roupão e ele, como não é da área médica, colocou o roupão verde em cima de uma jaqueta de moto (devido ao frio), por isso pediram para ele retornar ao vestiário e tirar a jaqueta.

Gabriela nasceu durante esse período. André só conseguiu entrar na sala quando a estavam examinando (cinco minutos após nascer). Infelizmente, ele não pôde assistir ao parto e estar presente no nascimento de nossa filha, como tanto queria.

Mostraram a minha filha e eu pedi para que a colocassem no meu colo, mas não deixaram. Ela não pôde mamar nem ficar em contato pele-a-pele comigo, pois disseram que ela estava com desconforto respiratório devido ao longo trabalho de parto e que teria de ficar em uma incubadora por algumas horas. Assim, levaram a Gabriela para dar banho, para aplicar o Kanakion, para outros procedimentos (o André assistiu a tudo em outro andar, enquanto eu estava sendo costurada). Fomos separadas nesse início da vida dela, ficando eu na sala de recuperação e ela dentro de uma incubadora no berçário.

Após cinco angustiantes horas, me levaram para o alojamento conjunto e a Gabriela, finalmente, chegou aos meus braços. Coloquei-a em meu peito, mas ela não quis mamar. Decerto haviam dado algum tipo de leite para ela no berçário. O Doutor Agenor e a Doutora Maria Lucia Bom Ângelo (que trabalham neste hospital) foram me ver. Fiquei feliz ao ter contato com pessoas conhecidas, mas horário de visita... só no dia seguinte! Gabriela mamou somente no dia seguinte, uma sensação inesquecível esta, de estar tão intimamente ligada e de já amar uma pessoa desde o início e para o resto da minha vida.

Tive alta hospitalar um dia após o parto, feliz de ter conseguido o parto normal, de Gabriela ser saudável e de André ser um pai "coruja" para comigo e para com nossa filha.

Dias depois, tive que pedir ajuda ao banco de leite do hospital, pois tive uma mega produção de leite. Nesse trajeto, andando pela lateral da calçada, tive que escutar um médico, passando com várias pessoas bem vestidas, dizer: "aqui só trabalhamos com parto humanizado, estamos até colocando ar condicionado nos quartos das pacientes".

Espero que, com o meu relato, as pessoas envolvidas no processo de humanização do nascimento e parto percebam que o importante não são os equipamentos envolvidos no procedimento, mas sim ouvir e respeitar a mulher, seu bebê e o parceiro, no momento do parto. A equipe profissional não é dona do corpo da mulher, mas sim um grupo que deve auxiliar a mesma.

 

Sites úteis

http://www.rehuna.org.br        [ Links ]