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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.)  no.41 São Paulo abr. 2007

 

A vulnerabilidade dos jovens trabalhadores do tráfico de drogas

 

 

Marisa Feffermann

Psicóloga, Mestre e Doutora em Psicologia Escolar e Pesquisadora do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Contato: marisaf@usp.br

 

 

Os jovens pertencentes às classes subalternas vivem em dupla situação de risco, pois, vivendo uma socialização incompleta (ADORNO, 1993), têm poucas oportunidades de integração no mercado de trabalho, aspecto reforçado pela baixa escolaridade; assim, são alvos fáceis para as drogas e o álcool e, quando surpreendidos ao cometerem infrações, a reprimenda pode custar-lhes a vida.

A vulnerabilidade dos jovens trabalhadores do tráfico estudada a partir de pesquisa de doutorada realizada por quatro anos no Estado de São Paulo (FEFFERMANN, 2005), está relacionada: à idade; por terem sido aviltados em seus direitos e sofrer efeitos desta violência, ou ainda, por não ter opção de trabalho no mercado legal. Nas pesquisas realizadas sobre a questão do tráfico um ponto é comum: estes jovens necessitam de reconhecimento social para construção de uma identidade. Ingressam no tráfico e conhecem as vantagens e desvantagens disto. Tornam-se alvo fácil dos policiais, traficantes e da sociedade.

As características da juventude impulsionam o jovem a buscar aventura, como uma materialização de ruptura da infância. E é na aventura, como espaço de sentido, que se inscreve a própria transgressão como um desafio dos poderes vigentes. Entende-se que essa inclinação pela aventura e, conseqüentemente, pelo risco possa ser um dos fatores capazes de contribuir para o ingresso do jovem no tráfico de drogas. O risco constante no tráfico pode implicar uma mudança de comportamento nos jovens. O percurso desta pesquisa, permite observar evidência que o trabalho no tráfico é uma atividade muito arriscada, pelo simples fato de ele se inscrever na ilegalidade, o que coloca o indivíduo em uma situação de vulnerabilidade às regras do sistema representado, quer pela polícia ou pelo traficante. Conforme depoimentos dos jovens pesquisados, no tráfico, o risco da morte é vivido com intensidade. Na medida em que realizam um "trabalho" ilegal, esses jovens vivem sob repressão policial, sempre violenta e ambivalente,e enfrentam problemas decorrentes da falta de uma assistência médica e psicológica voltada para o uso abusivo de drogas. Esse risco é constante e muitas vezes determina comportamentos e escolhas, re-significando alguns valores, desejos e aspirações. Observa-se que a perspectiva de morte faz desses jovens reféns de uma sobrevivência sofrida e angustiada; cada dia de suas vidas lhe é apresentado como uma prorrogação da existência; são os sobreviventes e vivem a presença constante da morte; aos 18 anos já se consideram velhos. A experiência constante do risco e a presença agressiva da ordem pública contribuem para a construção de comportamentos a fim de delinear estratégias de se lidar com o risco. Isso pode significar a revolta associada à distância social e à desigualdade social. As atitudes desses jovens estão ligadas ao ressentimento decorrente da desigualdade social e, também, à necessidade de reconhecimento.

Pode-se observar que as atitudes dos jovens analisados nesta pesquisa é de alerta constante, sempre atentos para defender-se de um perigo iminente. Pensar essa realidade exige que se compreenda como a estrutura da identidade desses jovens pode ser determinada por esse medo constante, em função das marcas que se imprimem na construção das representações desses indivíduos, atingindo seus sonhos e fantasias que deveriam ser forças propulsoras de enfrentamento. Isso exige um grande esforço por parte do sujeito que tem de conservar sua estrutura. Esses jovens no 'trabalho' estão na frente de batalha de uma organização criminosa - situação em que o risco e a vulnerabilidade são imensos. O risco é ininterrupto para esses sujeitos do tráfico, pois podem ser presos, espancados ou eliminados pela polícia. Compreende-se que o cotidiano dos jovens ora observados, faz com que a morte ganhe feição naturalizada, embora, pelas condições nas quais ela acontece, continue sendo assustadora. A morte parece cercar esses jovens por todos os lados, seja ameaçando suas próprias vidas ou a daqueles que lhes são próximos. É preciso reconhecer a dinâmica psíquica do ser humano em tensão com a violência existente na sociedade, para entender como a internalização da violência constitui as subjetividades. Seus relatos permitem que se compreenda que agem de forma compulsiva em relação a quase todos os aspectos da vida: fumam de forma exagerada, relacionam-se com várias mulheres, tornam-se pais muito cedo; vivem intensamente cada instante, movidos pela perspectiva de que a vida possa acabar; na convivência com a idéia de morte, roubam e gastam compulsivamente.

Na realidade destes jovens e de muitos que vivem nas periferias da cidade, as perspectivas que se apresentam em relação à escola e ao trabalho são muito poucas. No discurso dos jovens entrevistados, pode-se perceber que existe uma ausência de perspectivas e uma presença marcada de luta pela preservação da vida, movida pela presença da perspectiva de morte. Há que se considerar que estar em estado de alerta produz nesses jovens a necessidade de eles criarem mecanismos de enfrentamento que se ajustam o tempo todo: é necessário astúcia para lidar com as artimanhas do seu "trabalho" e do seu cotidiano. A crueldade dos policiais e das autoridades do tráfico e as humilhações que sofrem constantemente também lhes deixam marcas, tanto em seus discursos, quando reiteram que os motivos para saída ou desejo de saída do tráfico são a ameaça e a violência com que são tratados. Desrespeitados e agredidos de todas as formas, vão constituindo jeitos tão agressivos, quanto àqueles que utilizam para enfrentar qualquer um que designem como inimigos. Assim, esses jovens de vítimas passam a algozes e cometem muitas vezes atos cruéis.

A vida para os jovens desta pesquisa tem um custo, contudo, arriscar-se vale pelo que se ganha. Todavia, o que é ganho, é gasto repentinamente, de forma aceleradíssima, desenfreada. Os jovens transgridem e pagam um preço por essa possibilidade de liberdade; transgridem como uma forma de agir sobre o mundo. Muito embora a realidade do tráfico configura-se como muito violenta, é o "trabalho" no tráfico de drogas que lhes permite oportunidades de ter dinheiro para sair, ir a bares, comprar roupas de grife, ter a companhia de mulheres bonitas porque, fora da atividade do tráfico, a própria condição econômica e social na qual se encontram torna praticamente impossível a realização desses desejos.

Desta forma, o tráfico, por suas características, pode tirar a vida daqueles que nele se inscrevem e, ao mesmo tempo lhes facultar viver a vida. Vida essa pautada pelos ditames da sociabilidade universal da indústria cultural, cujos valores, uma vez internalizados, passam a ser ideais, levando-os a correr risco de vida para usufruir de suas promessas.

 

Referências Bibliográficas

ADORNO, S. A Experiência precoce da punição. In: MARTINS, J. S. (org.). O Massacre dos inocentes. São Paulo: Hucitec, 1993.         [ Links ]

FEFFERMANN, M. Vidas Arriscadas - o cotidiano de jovens trabalhadores do tráfico. Tese [Doutorado] - Instituto de Psicologia/USP, São Paulo, 2005.         [ Links ]