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BIS. Boletim do Instituto de Saúde (Impresso)

versão impressa ISSN 1518-1812

BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.)  no.41 São Paulo abr. 2007

 

Bom Retiro: fronteiras visíveis e invisíveis

 

 

Belkis TrenchI; Dulce CoppedêII; Tânia MachadoIII

IDoutora em Psicologia e Pesquisadora do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Contato: belkis@usp.br
IIGraduanda do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e Estagiária do Instituto
IIIGraduanda do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e Estagiária do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Contato: telisboa@usp.br

 

 

  "Quem acha sem procurar é porque  
  longamente buscou sem encontrar".  
    Gaston Bachelard  

 

Introdução

Quando pensamos no bairro do Bom Retiro, no município de São Paulo, possivelmente, uma das primeiras imagens recorrentes que nos vem à mente é a da Rua José Paulino. Território considerado pelos guias especializados como a rua de compras feminina "mais famosa" do país, ou famosa por atrair "sacoleiras de todo o Brasil", conta com mais de 350 lojas espalhadas pelos seus longos quarteirões, estimando-se a circulação de 70.000 pessoas por dia.

O conselho dado nos guias, a quem pretende embarcar nessa aventura, é muito claro e simples:

Vá preparada, a rua fica cheia, tem camelôs espalhados pelas calçadas e em muitas lojas você não pode experimentar as peças. Fora isso os preços são bem mais em conta e as roupas têm qualidade (GUIA DA SEMANA, 2007).

Já para quem percorre a Rua José Paulino diariamente na condição de simples transeunte, como é o nosso caso, talvez o que mais incomode e irrite é que ali você se sente impossibilitada de seguir em seu próprio tempo e ritmo. Você é obrigada a parar em momentos em que menos espera, pois de repente a pessoa que está a sua frente, acompanhada de suas sacolas, resolve parar abruptamente para olhar as ofertas de determinada loja, o que implica que você, mesmo caminhando, tenha que desenvolver o hábito de andar por esta rua como se o seu corpo fosse um carro, realizando freadas bruscas, desvios constantes, batidas laterais ou frente a frente com sacolas e transeuntes.

Aos poucos nos demos conta de que a saída que encontramos foi semelhante ao que fazemos quando nos deparamos com um engarrafamento de automóveis; buscando linhas de fuga para chegar ao nosso destino - o Centro de Memória da Saúde Pública, na Rua Tenente Pena - percorrendo as suas transversais, perpendiculares e paralelas. Nos encontrando e nos perdendo é que fomos a cada dia nos encantando com o que víamos e percebíamos a respeito do que havia de visível e invisível, além das fronteiras traçadas pelos marcos desta rua. Paradoxalmente, quanto mais nos afastávamos da José Paulino, mais e mais a compreendíamos.

"Quem é ou o que é o Bom Retiro além das fronteiras da José Paulino?", foi uma das perguntas que nos movimentou durante grande parte de nossas longas andanças pelas suas circunvizinhanças, enquanto investigávamos o que acontecia no bairro, além do território da movimentada rua do comércio principal e do nosso local de trabalho1.

A princípio, nossas caminhadas eram feitas solitariamente e, tal como um nômade ou um ser errante, buscamos nesses primeiros dias experimentar o sentimento de nos perdermos em um território e sentir prazer nesses movimentos. Queríamos, ainda, nos abrir para atingir novas possibilidades cognitivas, fossem através do olhar, da escuta ou, até mesmo, do tato ou paladar. Alguns autores nos acompanharam e deram respaldo ao nosso desmanchamento de referenciais, são eles: Cardoso (1988), Certeau (1994), Novaes (1988) e Santos (2002).

O prazer proporcionado por tantas descobertas, muitas vezes, gerou em nós certo estranhamento e "desenraizamento", acompanhado de um sofrimento, por vezes indefinido. Talvez quem melhor explicite e justifique essa sensação não sejamos nós, mas sim Canevacci (1997):

O desenraizamento e o estranhamento são momentos mais sofridos que predeterminados, que permitem atingir novas possibilidades cognitivas, através de misturas imprevisíveis e casuais entre níveis racionais, perceptivos e emotivos para que se refine o espaço urbano (apud OKAMURA, 2004, p.67).

A experiência de imprimir os nossos próprios gestos nesta paisagem psicossocial fez com que sentíssemos a necessidade de extrapolar as referências fornecidas pelas cartografias oficiais do bairro e que criássemos, através de diferentes agenciamentos, espaço e linguagem para que os afetos que pediam passagem compusessem as cartografias que se faziam necessárias.

Assim, por exemplo, apelidamos a Rua José Paulino de "Vitrine" do Bom retiro e a sua circunvizinhança de "Bastidores", onde nos foi apresentada uma nova faceta do comércio local: lojas de máquinas de costura, tecidos, aviamentos, botões, além de mecânicos, cabeleireiros, confecções, depósitos e outros. Também transmutamos uma pequena agência de viagem, localizada à frente de nosso prédio na Rua Tenente Pena, em "Embaixada Boliviana". Elegemos a Rua Prates, a Newton Prado e a Talmud Thorá como os melhores redutos multi-étnicos da região. Dessa forma, portanto, fomos esboçando nossos próprios traçados de fronteiras e percebendo o significado da afirmação "eu sou o espaço que estou e estou no espaço que sou" (OKAMURA, 2004).

 

Fronteiras do Bom Retiro

A origem da palavra fronteira está no latim: fronstis, que, por sua vez, gera o substantivo "fronte" e a partir dele, vários outros, tais como: defronte, frontão, frontaria, afronta, desafronta, etc. Já sua definição no dicionário Aurélio é:

"O limite de um país ou território no extremo onde confina com o outro. A região adjacente a este limite. O limite material de um sistema e seu interior. O conjunto dos pontos fronteiras de um conjunto; contorno" (FERREIRA, 1999).

E o que observamos no Bom Retiro? Ali onde os sujeitos constroem um cotidiano em comunidade com seus semelhantes, se defrontam também as alteridades; a identidade de cada grupo social se ressalta com a delimitação de seus espaços e costumes, ao mesmo tempo em que esta mesma identidade parece se abrir, mesmo que involuntariamente, para o estrangeiro que vive ao lado, mas que também se manifesta dentro de si. Segundo Certeau (1994), as fronteiras são também lugares de interação entre personagens e os limites são traçados justamente pelos pontos de encontro entre eles. Para este autor, a fronteira tem um papel mediador, já que articula os dizeres de suas margens; ela é passagem _ um terceiro - um "entre dois", ou "um espaço entre dois" (p.213). Em suas palavras: "No interior das fronteiras já está o estrangeiro. Tudo ocorre como se a própria delimitação fosse a ponte que abre o dentro para o seu outro" (p.215).

O contexto sócio-ambiental do Bom Retiro2, no qual estamos inseridos, é ao mesmo tempo lugar de encontro e de segregação, de assimilação e de delimitação, seja de classes sociais, seja de culturas e etnias. Procuramos abrir nossos sentidos para observar as fronteiras visíveis e aquelas que em nossas primeiras impressões nos pareceram invisíveis. Também buscamos observar e compreender como se dão os encontros e os conflitos entre as tantas alteridades que habitam esta região central da cidade3 ou que apenas freqüentam seus espaços públicos.

Mas, de que forma, então, fomos afetadas por isso que estamos nomeando de "Fronteira Visíveis e Invisíveis". Ora, o que experimentamos a partir do nosso movimento errante pelo Bom Retiro foram os nossos próprios estranhamentos e identificações acerca dos tantos e tão variados elementos que constituem este espaço. O desejo de refletir sobre a fronteira partiu das constantes situações em que diferentes graus de "estar defronte", "afrontar" e "desafrontar" se configuravam mais ou menos explícitas, compondo nossa trajetória.

O simples recorte do caminho percorrido entre a estação Luz do metrô (localizada em um dos pontos da fronteira geográfica do bairro) e o Centro de Memória, nosso destino, já nos oferece alguns exemplos. Tanto uma, quanto a outra são construções erguidas em pleno século XIX que, inevitavelmente, nos colocam em contato com um passado que nos parece tão remoto. Nestes lugares podemos sentir os efeitos de uma arquitetura concebida a partir de um outro ritmo de vida, de outro padrão estético, de outra concepção do uso de recursos materiais, característicos de uma época distinta da história.

Ao optarmos por percorrer a Rua Prates e algumas de suas transversais, também nos deparamos com a simplicidade das casinhas que nos remetem à ocupação operária, datada também do início do século XIX - empreendida, sobretudo pelos imigrantes italianos - e, também, a este tempo em que a delimitação entre espaço público e privado era menos contundente. A saber, as portas destas moradias foram construídas de forma que abriam diretamente para a calçada; ou seja, a distância entre a sala da casa e a rua se fazia muito menor. É quase impossível não imaginar as crianças brincando ali, ou ainda, os adultos conversando na calçada. Observando também aqueles sobrados nos quais o espaço para o estabelecimento comercial fica no andar térreo, nos remetemos àquela forma de trabalhar em família, bem próximo da moradia. Enfim, por toda a parte elementos arquitetônicos situam nosso corpo e imaginação em uma "fronteira temporal e espacial".

Optando agora tanto pelo caminho da Rua Prates, quanto da José Paulino, também somos reportadas à esfera das "fronteiras privadas". Com o apelo visual do comércio e a exposição de seus produtos, vislumbramos nossas casas, nossas relações pessoais, nossos momentos de lazer, etc.

Outro encontro quase inevitável no Bom Retiro é aquele que acontece com o estrangeiro, personalizado nestas ruas sobretudo pelos coreanos. Este encontro, algumas vezes, se fez curiosidade e desejo de comunicação, como, por exemplo, quando recebemos uma aula espontânea do idioma enquanto esperávamos por uma fotocópia, ou quando ganhamos, neste mesmo local, mapas do bairro que são usados por esta comunidade. Em outras ocasiões, o que houve foi mais afronta e desafronta quando, por exemplo, a solicitação de troca de uma roupa defeituosa foi recusada com agressividade por um lojista, ou quando a pessoa que nos atendeu em uma doceria ficava, quase que todo o tempo, fora do nosso campo visual e que pouco falava português. Neste lugar, também não havia nada que não estivesse escrito em coreano. Nestes casos, a ponte inter-cultural que o comércio colocava revelou também "fronteiras comunicativas", com seus impedimentos e conflitos.

O que nos pareceu bastante evidente, contudo, foi que o comércio parece ser o único ambiente em que o encontro entre os brasileiros e membros de demais etnias acontece nesta região. O Bom Retiro não oferece muitos espaços públicos propícios à convivência. Os templos religiosos são aqueles lugares destinados ao convívio restrito de cada comunidade específica. Em geral, permanecendo com as portas trancadas (com exceção das igrejas católicas) e o acesso (possivelmente) impensável para aquele que é estrangeiro ao grupo. São "fronteiras religiosas" bem visíveis.

Nosso contato com a comunidade judaica foi, até o momento, bastante restrito, apesar de que vemos seus membros passar constantemente pelas ruas, sendo facilmente notáveis pela forma característica de se trajar. Certo dia, tocamos a campainha de uma livraria que ficava junto a uma sinagoga motivadas por uma faixa que anunciava cursos sobre o Thorá e benefícios; recebemos a informação de que este benefício era restrito à comunidade judaica, a não ser que conversássemos diretamente com o rabino. Assim, o que a princípio parecia uma ponte se fez, mais uma vez, fronteira.

Podemos, ainda, mencionar a "fronteira sócio-econômica" que se revela entre dois extremos: o das vitrines das lojas que movimentam o mercado da moda e os sacos de retalhos que são despejados diariamente nas ruas, ao final da tarde, para serem recolhidos e selecionados por catadores assíduos. Faz parte também desta "fronteira escancarada de desigualdade" o que ocorre com a comunidade boliviana no bairro:

"Os bolivianos costumam trabalhar das 6h às 23h ou das 7h às 24h e ganham entre R$ 200,00 e R$ 400,00 - valor difícil de ser alcançado - por mês. Moram num cubículo, no próprio local de trabalho. São quartinhos de 2,00m x 1,50m que abrigam o trabalhador, sua família, a máquina de costura e mais um espaço para colocar a roupa que é produzida (em alguns, o quarto e a oficina ficam em ambientes diferentes). Os colchões são enrolados durante o dia e à noite, quando vão dormir, se transformam em cama. As roupas prontas são normalmente entregues a coreanos que têm lojas de roupas baratas" (SYDOW, 2007).

Podemos vê-los pelas ruas, mas quase nunca em seus locais de trabalho. Percebemos que trabalham e vivem mais escondidos. Nossa única forma de aproximação até agora foi a agência que fica em frente ao prédio do Centro de Memória, onde são vendidas passagens de ônibus para a Bolívia e helados(sorvetes), além de possuir cabines telefônicas que fazem chamadas internacionais. Um dia, fregueses bolivianos mostraram receio de falar com a vendedora em nossa presença, o fato de viverem clandestinos talvez os levem a evitar qualquer tipo de proximidade com o diferente.

Considerações Finais sobre as Fronteiras e as Paisagens Psicossociais no Bom Retiro

Quando dissemos que buscamos aprofundar nosso olhar e escuta para observarmos e compreendermos as fronteiras, estávamos considerando a compreensão de Rolnik para entender a cartografia:

"Aliás, "entender", para o cartógrafo, não tem nada a ver com explicar e muito menos com revelar (...) O que há (...) são intensidades buscando expressão (...) O que define, portanto, o perfil do cartógrafo é exclusivamente um tipo de sensibilidade, que ele se propõe fazer prevalecer, na medida do possível, em seu trabalho. (...) O que ele quer é se colocar, sempre que possível, na adjacência das mutações das cartografias, posição que lhe permite acolher o caráter finito ilimitado do processo de produção de realidade que é o desejo". (ROLNIK, 1989, p.67-68).

Sendo assim, pudemos perceber, o quanto nós três fomos nos tornando mais íntimas com nossas próprias fronteiras _ visíveis e invisíveis. Três mulheres, cuja psicologia foi a escolha profissional, se encontraram _ em alguns momentos - também como três mulheres vivendo seus próprios encontros com alteridades, conflitos e conciliações. Também, visitamos nossas vitrines e bastidores, enquanto compartilhamos nossas alegrias e dores da vida atual instigadas pelas paisagens psicossociais que o Bom Retiro nos oferecia. Experiências sobre os namoros, as separações, o casamento, os filhos, o morar com os pais, o sair dos filhos adultos da casa dos pais, o sair dos pais da casa onde moravam com os filhos, o adoecer dos pais, a troca de papéis dos filhos com os pais no avançar da vida...

Podemos dizer que estivemos juntas naquilo que Rolnik (Idem) escreveu como sendo o princípio do cartógrafo, o interesse no contato com as situações que estão permitindo o encontro de canais de efetuação da vida. Provavelmente favorecido em nosso trabalho pelo caminhar - tão bem definido por Certeau:

"Caminhar é ter falta de lugar. É o processo indefinido de estar ausente e à procura de um próprio". Sendo também esse não lugar compensado pelas relações de cruzamento e entrelaces dos êxodos desses caminhantes -como nós também o fomos". (CERTEAU, 1994, p.191).

Talvez, enfim, a intimidade que nos acometeu tenha sido a própria prática do espaço:

"... o processo dessa "captação espacial" que inscreve a passagem ao outro como a lei do ser e a do lugar. Praticar o espaço é portanto repetir a experiência jubilatória e silenciosa da infância. É, no lugar, ser outro e passar ao outro". (Idem, Ibidem).

 

Referências Bibliográficas

BUENO, F. S. Vocábulos, expressões da língua geral e científica, sinônimos, contribuições do tupi-guarani. In: Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa. São Paulo: Saraiva, 1963.         [ Links ]

CARDOSO, S. O olhar do viajante (do etnólogo). In: NOVAES, A. (Org.). O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p.347-365.         [ Links ]

CERTEAU, M. A Invenção do cotidiano: a arte de fazer. Rio de Janeiro: Vozes, 1994.         [ Links ]

CANEVACCI, M. A cidade polifônica. São Paulo: Studio Nobel1997. p.31.         [ Links ]

DERTÔNIO, H. História dos bairros de São Paulo: O bairro do Bom Retiro. São Paulo: Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura do Município de São Paulo, 1971.         [ Links ]

FERREIRA, A. B. H. Aurélio século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.         [ Links ]

GUIA DA SEMANA. José Paulino - Bom Retiro. São Paulo, XX/ XX/2007. Reportagem. Disponível em http: <www.guiadasemana.com.br/noticias.asp> Acesso em: março 2007.         [ Links ]

NOVAES, A. De olhos vendados. In: NOVAES, A. (Org.). O Olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 9-20.         [ Links ]

OKAMURA, C. Arouche 2004. Uma incursão no território urbano da cidade de São Paulo através de seus personagens: estudo psicossocial sobre encontros e desencontros entre olhares, imagens e paisagens - diagnóstico para uma intervenção socioambiental. 2004. Tese [Doutorado] - Instituto de Psicologia , Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.         [ Links ]

ROLNIK, S. Cartografia Sentimental. Transformações contemporâneas do desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 1989.         [ Links ]

SANTOS, F.C. Escuta Pensante. Por uma escuta nômade: a música dos sons da rua. São Paulo: Educ, 2002.         [ Links ]

SYDOW, E. Bolivianos escravizados em São Paulo. Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, 2007. Disponível em: <http://www.social.org.br/relatorio2003/relatorio021.htm>. Acesso em março de 2007.         [ Links ]

 

 

 

1 Este artigo trata-se do resultado de um estudo exploratório da região onde será desenvolvido um projeto mais amplo. O Projeto Ouvedor tem como objetivo, num primeiro momento, dar escuta às diferentes vozes que habitam as circunvinhanças do Centro de Memória da Saúde. A partir desta coleta de depoimentos e da manifestação de suas dores ou queixas, estabeleceremos parcerias com as diferentes instituições de saúde e de cultura do bairro, para numa segunda etapa do projeto, criarmos diferentes formas de interações através de oficinas direcionadas à população.
2 Segundo Dertônio (1971), a região do Bom Retiro que, desde o início do século XIX foi ocupada por chácaras e sítios de famílias nobres, tornou-se em algumas décadas, uma região essencialmente operária. Propícia à instalação de armazéns e depósitos de mercadorias; proliferaram-se as indústrias e o local passou a ser ocupado pelos imigrantes, sobretudo portugueses e italianos, que nelas trabalhavam como operários. A partir de 1900, o bairro, que levou o nome de uma de suas antigas chácaras, viveu sua expansão comercial e recebeu inúmeras famílias israelitas. Posteriormente, também se instalaram ali imigrantes sírios, libaneses, turcos, russos, gregos e outros. Desde as últimas décadas do século XX, a região também recebeu forte imigração de coreanos que assumiram o expressivo mercado da moda ali instalado, além de bolivianos que, por sua vez, são empregados nas confecções.
3 Hoje, o que vemos no Bom Retiro é uma realidade constituída de diferentes origens sócioculturais e que se inscreveu a partir do desenvolvimento das forças produtivas e da extensão da divisão do trabalho. Quando se caminha pela região, nota-se que a vida do bairro parece se configurar em razão de sua grande vitrine, constituída pelas lojas de roupas da Rua José Paulino e algumas de suas transversais. Nos bastidores, as confecções, as lojas de tecidos, aviamentos, acessórios, máquinas de costura e outros. Neste contexto, o bairro ainda reserva algum espaço para moradias, em grande parte, situadas sobre os estabelecimentos comerciais, templos religiosos, restaurantes, armazéns, escolas públicas e particulares, salões de beleza, repartições públicas, policiais, espaços culturais como o Teatro TAIB e a Oficina Três Rios, e por diversos casarões tombados pelo patrimônio histórico, tal como o Centro de Memória, antiga sede do Desinfectório Geral da cidade.